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Edição 306

A espada de Vorcaro

Não contavam com o míssil Master, que desabou sobre o Supremo e o TCU

Os ministros da Primeira Turma tornaram ré, no Supremo, Maria Shirlei Piontkievicz, por injúria, incitação ao crime e atentado contra a segurança do transporte aéreo, segundo a agência oficial. Passageira de um voo São Luís-Brasília, quando viu a bordo o ministro Flávio Dino, teria exclamado algo como “O Dino está aqui; um lixo; o avião está contaminado”. Advertida pela comissária, teria alegado “eu não respeito essa espécie de gente”. O presidente da Primeira Turma é o próprio Dino, que não votou, mas os outros três, Cármen Lúcia, Zanin e Moraes, foram unânimes em aceitar a denúncia da Procuradoria-Geral da República.

Ministro Flávio Dino preside o julgamento da Ação Penal 2.693- Núcleo 2 (09/12/2025) | Foto: Rosinei Coutinho/STF

Se julgarem que foi injúria qualificada a uma autoridade, a servidora da Secretaria de Saúde do Paraná, onde está há 18 anos, poderá pegar três anos, se ficar provado que foi por raça, cor, etnia, religião, origem ou a condição de pessoa idosa ou com deficiência. Não consta que o episódio caiba nesses agravantes legais. Injúria simples tem pena de seis meses. A condição de o alvo ser pessoa pública, como é um juiz do STF, parece atenuante, como ensinou certa vez o ministro Moraes: se não quiser ser criticado, não se candidate ao serviço público. Fico imaginando um juiz de futebol a processar uma torcida inteira.

Se demonstrarem que Maria Shirlei, 58 anos, casada, enfermeira com curso superior, praticou incitação ao crime, então a pena máxima é de seis meses. Se ela pôs em risco a segurança do transporte aéreo, a pena vai de dois a cinco anos. Abordada pela Polícia Federal antes da decolagem do Latam 3805 — o ministro bem na frente e ela no assento 11C —, prometeu que iria ficar quieta, não foi retirada de bordo e o voo foi normal até Brasília. Vai ser difícil provar que ela tenha posto em risco o voo, a não ser, talvez, por atraso na decolagem. Mas, depois da soma de penas da Débora do batom, não seria impossível oito anos e meio de prisão. 

Maria Shirlei Piontkievicz | Foto: Reprodução Instagram

Esse é o mais recente caso exemplar de desrespeito à lei. Não exatamente por Maria Shirlei. Servidora de uma secretaria de saúde não tem foro privilegiado no Supremo. Então, o que ela está fazendo lá? Como o ofendido é um ministro do Supremo, deveria ir para a Justiça Federal de Brasília, na 1ª instância; não na Primeira Turma da última instância. Além do mais, qualquer mente minimamente bem formada percebe que, se um juiz foi ofendido, o único lugar para onde não poderia ir o processo é o tribunal que abriga esse juiz. E, mesmo havendo no STF uma Segunda Turma, onde não está Dino, o caso foi justamente para a turma onde ele está. O resultado do julgamento da ré é previsível: qual dos colegas de tribunal vai desamparar Dino, o ofendido, e estimular novas ofensas a ministros da Corte? Será preciso puni-la para dar o exemplo, e evitar gritos em avião.

É o mais recente caso, mas não é inédito; ao contrário, é uma rotina no Supremo, desde que Toffoli inventou o “Inquérito do Fim do Mundo”, em março de 2019 — há sete anos. Desde então, o Supremo é vítima e julgador de seus ofensores, como é o caso da Maria Shirlei. E vem cada vez ousando mais. Percebeu que até pode interferir em atos de exclusiva competência do presidente da República, como nomear diretor da Polícia Federal e conceder indulto. Alguns ministros se expuseram mais. Aí aparece um contrato de R$ 3,6 milhões/mês com o Master, mais o resort-cassino Tayayá — e Toffoli tomando a si o inquérito do Master, como se delegado fosse, enquanto Moraes é vítima, promotor, juiz, executor.

Alexandre de Moraes e Dias Toffoli em sessão plenária do STF (5/11/2025) | Foto: Gustavo Moreno/STF

Não contavam com o míssil Master, que desabou sobre o Supremo e o TCU. O Master, que acolhera Lewandowski aposentado como conselheiro do banco. O Master, do contrato com a família Moraes. O Master, que patrocinava eventos de Gilmar. O Master, ligado a fundos que aportaram capital no resort-cassino em nome dos irmãos Toffoli. A mulher de um deles, o diretor-presidente, diz que o marido nunca foi dono do resort; imagino que o irmão-padre tampouco tinha recurso para isso. “São tão fortes as coisas!”, poetou Drummond. Ah, o Master, que agora desaba sobre o Supremo e abala as estruturas antes temidas e intocáveis. Mas ainda resta corrigir a boca da enfermeira Maria Shirlei exemplarmente.

Os que imaginavam que Trump iria resolver erraram. A solução é nacional: a espada de Vorcaro.

No circo de horrores contra a Constituição, a plateia da mídia aplaudia e os trapezistas acreditaram que podiam voar. Então mandaram tirar a rede. Tinham esquecido de anular também a gravidade, que não estava na Constituição, porque faz parte da lei natural, como a ética e todos os princípios morais. Um tribunal em causa própria. Assim foi com a Crusoé e o “Amigo do amigo de meu pai”; com os auditores do Coaf e as movimentações financeiras de mulheres de ministros; com o Master e o resort-cassino e a autoproteção; os Mantovani em Roma; sem contar com a agência censora estabelecida no anexo do TSE para usar a criatividade contra Oeste. O celular de Tagliaferro denunciou os desvios, mas o investigado é Tagliaferro. Tudo parece uma troça, como se o hacker Delgatti tivesse invadido o Supremo e criado tudo isso para destruir o tribunal.

Ex-chefe da Assessoria Especial de Enfrentamento à Desinformação (AEED) do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Eduardo Tagliaferro, em pronunciamento por videoconferência na Comissão de Segurança Pública (CSP), em Brasília, DF (02/09/2025) | Foto: Saulo Cruz/Agência Senado

O presidente Fachin quer estabelecer um código de conduta como muralha para aplacar o desgaste. Chega tarde. O cavalo de Troia da política já entrou; Barroso foi o Ulisses. Estimulou o tribunal constitucional a se transformar em tribunal político, como em tempos de Stalin e Hitler. Aí, desandaram as muralhas do Direito. Fux, quando presidente, advertiu mais de uma vez sobre as consequências deletérias de o Supremo substituir a arena política do Congresso. O míssil do Master chegou. Trump apenas tirou o visto de Barroso. Mirou em Moraes e acertou em Barroso. Tirou o eixo da ideia, como tirou Maduro. O Master tira mais; tira a credibilidade. Um código de conduta resolveria? Como assim, se não se respeita a imposição constitucional de moralidade e impessoalidade para o serviço público? E a exigência de conduta ilibada? Vai se respeitar um código administrativo quando o guardião da Constituição não é escravo dela? Além disso, conduta, ética vêm de casa. 

Se o Senado tivesse cortado o mal pela raiz, como poderia, não haveria esse desgaste gigantesco. Mas os presidentes do Senado estavam algemados a interesses individuais, desrespeitando também a impessoalidade e moralidade exigidas. Como o Senado é que aprova ministros do Supremo, o Senado tem força e direito de reprovar. O Supremo sofre; o país sofre; o Judiciário sofre; a insegurança jurídica se alastra. O chefe do executivo cala, agradecido pela lavagem da ficha; legisladores que têm passado para ser julgado no Supremo ficam paralisados pelo medo. Os que imaginavam que Trump iria resolver erraram. A solução é nacional: a espada de Vorcaro, como a vassoura fora de controle do Aprendiz de Feiticeiro, está ceifando os que apostaram nas magias. São tão fortes as coisas!

Detalhe da espada do monumento “A Justiça”, localizado em frente ao Supremo Tribunal Federal (STF), em Brasília, DF (11/12/2025) | Foto: Luiz Silveira/STF

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3 comentários
  1. Paulo César da Conceição
    Paulo César da Conceição

    Concordo com a Maria Shirley. O Dino é um comunista lixo. Aliás, todos são.
    Onde estão às imagens das câmeras do 08 de janeiro Dino? Lixo!

  2. Emilio Sani
    Emilio Sani

    muito bom artigo, mas a espada de vorcaro não tem fio, não vai cortar nada, o ‘poder foi tomado como prometido’ (que é diferente de ganhar eleições, que aliás, não interessam, como dizia Stalin, o que interessa é quem conta os votos) pelo chefão invisível maior, lula é apenas o turista…desde a época de São Bernardo nos sindicatos era assim, lula passeava nas salas enquanto Zé D(aniel) organizava a criminalidade e com treinamento em Cuba…

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