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Cartaz com imagem que retrata o Líder Supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, e o líder nazista alemão Adolf Hitler, durante a Marcha por um Irã Livre, organizada pelo Comitê Iraniano para a Liberdade e o Fim do Ódio, em Londres, Grã-Bretanha, em 18 de janeiro de 2026 | Foto: Reuters/Toby Melville
Edição 307

Terror à deriva

Regime iraniano reprimiu as manifestações, mas enfrenta sua mais grave crise, afirma Liora Hendelman-Baavur, diretora do Centro de Estudos Iranianos da Universidade de Tel Aviv

Os números variam. Algumas organizações relatam que pelo menos 6 mil pessoas morreram em função da repressão do governo do Irã às recentes manifestações no país. Outras, como a Iran Human Rights (IHR) garantem que o número de mortos já pode ter ultrapassado os 25 mil. A onda de protestos, iniciada no fim de dezembro, tem sido brutalmente reprimida pelas forças de segurança.

Os manifestantes cansaram-se de ficar calados diante do colapso econômico. A inflação de alimentos chega a 72%, com desvalorização recorde do rial e crise hídrica, agravada pela corrupção e gestão ineficiente. 

A indignação contra a falta de liberdade e o fracasso do regime teocrático chegaram aos níveis mais altos desde que o aiatolá Ruhollah Musavi Khomeini (1902-1989), um tirano doutrinado pelo radicalismo xiita, saiu do exílio para derrubar o regime do xá Reza Pahlevi (1919-1980), em 1979. Foi o início da Revolução Islâmica, da hostilidade contra Israel e o Ocidente e de um período de terror. Ele governou por dez anos, até sua morte. 

Khomeini foi substituído pelo aiatolá Ali Khamenei (1939) e seu estilo igualmente opressor. Manifestações são proibidas, inclusive as que se seguiram à morte da jovem Mahsa Amini, em 2022. Ela foi detida, sob a acusação de usar um hijab (véu) fora dos padrões. Morreu dias depois na prisão.

Mas os atos de agora deixaram, pela primeira vez, Khamenei isolado. Há a informação de que ele se refugiou em um bunker. Os protestos também tiveram como impulso os ataques de Israel, complementados pelos Estados Unidos (EUA), em junho de 2025, que destruíram boa parte da infraestrutura nuclear e abalaram a imagem do governo junto à população. 

Para a diretora do Centro de Estudos Iranianos da Universidade de Tel Aviv, Liora Hendelman-Baavur, uma ação militar norte-americana, em meio ao caos iraniano, pode ocorrer a qualquer momento, conforme afirma em entrevista a Oeste

Liora Hendelman-Baavur, diretora do Centro de Estudos Iranianos da Universidade de Tel Aviv | Foto: Reprodução/Redes Sociais

Em meio à censura do governo e ao bloqueio da internet, os protestos no Irã continuam? 

Os protestos iniciados em 28 de dezembro de 2025 foram duramente reprimidos. O que começou como manifestações econômicas no Grande Bazar de Teerã se espalhou rapidamente por todas as 31 províncias do país, mas enfrentou uma repressão sem precedentes. A violência foi extraordinariamente severa. O período mais sangrento parece ter ocorrido nas noites de 7 e 8 de janeiro, quando múltiplas fontes relataram mortes em massa causadas pelas forças de segurança, em especial a Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) e a milícia Basij. 

Como as forças de segurança agiram contra a população?

Há relatos de um número elevado de mortos, com estimativas muito divergentes entre as fontes, difíceis de verificar devido a um apagão quase total da internet imposto pelo regime. As forças de segurança usaram munição real contra manifestantes, e o Judiciário ameaçou aplicar a pena de morte sob a acusação de moharebeh (inimizade contra Deus). Milhares de pessoas foram presas, o que também contribuiu para sufocar os protestos. Em meados de janeiro, as manifestações praticamente cessaram sob o peso da repressão e dos toques de recolher.

Como você obteve essas informações?

Minha avaliação se baseia em reportagens de fontes abertas, documentação de organizações de direitos humanos e redes sociais em língua persa. Sempre faço a checagem cruzada das informações em múltiplos veículos independentes, já que o acesso direto ao país é extremamente limitado.

De que forma o governo iraniano conseguiu se manter no poder desde a Revolução Islâmica de 1979?

Desde 1979, o Irã é governado como uma República Islâmica estruturada em torno do princípio do Velayat-e Faqih (Tutela do Jurista Islâmico), que concentra o poder final no Líder Supremo e em uma elite clerical. A resiliência do regime se apoia em vários pilares. Há controles constitucionais e mecanismos de filtragem política: órgãos não eleitos, como o Conselho dos Guardiões, limitam quem pode concorrer a cargos públicos e restringem o poder do Parlamento. Existe também um aparato coercitivo em camadas, com o poder distribuído entre a IRGC, a Basij e diversos serviços de inteligência, criando redundâncias na repressão ao dissenso. Soma-se a isso o entrelaçamento econômico dos atores de segurança, já que a IRGC e entidades associadas passaram a controlar setores estratégicos da economia, como construção, energia, telecomunicações e contratos estatais. Por fim, há a projeção regional, com redes de aliados e milícias que garantiram ao Irã profundidade estratégica e influência regional, reforçando seus cálculos de segurança interna.

Até que ponto essa estrutura de poder está enfraquecida hoje?

O regime enfrenta sua crise mais grave desde 1979. Vários desses pilares se desintegram. Há um colapso econômico e uma falência da capacidade estatal: o rial perdeu a maior parte de seu valor, a inflação oficial ultrapassa 50% e os preços dos alimentos subiram ainda mais. O regime já não consegue fornecer serviços básicos, como água e eletricidade. A dominância econômica da IRGC passou a vinculá-la diretamente a um sistema em colapso. A projeção regional também ruiu: a queda de Bashar al-Assad eliminou o principal aliado árabe do Irã e sua ponte terrestre até o Líbano; o Hezbollah foi severamente enfraquecido; e as capacidades do Hamas foram danificadas em Gaza. Além disso, o componente de dissuasão nuclear sofreu danos, com os ataques dos EUA e de Israel em junho de 2025 expondo vulnerabilidades significativas.

Neste momento, a maioria da população se opõe ao governo?

Pesquisas revelam que uma maioria clara da população se opõe ao regime. Levantamentos do Instituto Gamaan, que utilizam amostragem via VPN para alcançar iranianos dentro do país, mostram que uma forte maioria rejeita a República Islâmica, e a maior parte apoia, em princípio, a democracia. É uma mudança dramática. Em 1979, a revolução teve apoio popular, referendos registraram aprovação esmagadora.

Qual o modelo de regime preferido pelos opositores?

Embora a maioria dos iranianos queira o fim do regime, há divisão sobre o que deveria substituí-lo. A oposição inclui monarquistas, republicanos, grupos de esquerda, movimentos étnicos e outros, que raramente conseguem coordenar suas ações de forma eficaz. Diferentemente dos protestos anteriores, em 2017, 2019 e 2022, a atual onda apresenta pedidos mais explícitos por mudança de regime.

Se um ataque militar ocorresse neste momento, Israel estaria envolvido ou seria uma ação dos EUA?

Os EUA estão moldando o quadro de escalada e posicionando forças, mas Israel continua sendo um ator soberano, com seu próprio cálculo de segurança e a obrigação de se defender. Qualquer grande operação exigiria coordenação logística e uso de espaço aéreo regional, de modo que vários Estados, incluindo Israel, seriam ao menos informados.

Por que as ameaças de Donald Trump haviam diminuído nas últimas semanas?

Vários fatores convergiram para afastar Trump de uma ação imediata. Houve forte pressão regional: aliados árabes do Golfo, como Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, além da Turquia, atuaram intensamente contra ataques, temendo o caos regional. Os custos militares e estratégicos também pesaram, já que planejadores alertaram para o risco de retaliação iraniana contra bases norte-americanas, o possível fechamento do Estreito de Ormuz e o desencadeamento de uma guerra regional mais ampla. Além disso, houve uma saída que preservou a imagem: Trump afirmou que o Irã havia parado de matar manifestantes e prometido não executar detidos, o que lhe deu justificativa para recuar mantendo a ameaça como instrumento de pressão. Manter ambiguidade estratégica, deixando o Irã incerto quanto às intenções e ao momento de uma ação, também faz parte de sua abordagem.

Qual é a probabilidade de ocorrer um ataque?

Diante das ameaças feitas por Trump, algum tipo de ação pode ser esperado, embora sua natureza permaneça incerta. Ativos militares dos EUA estão posicionados no Golfo Pérsico, o que sugere preparação para algum movimento. No entanto, o escopo e o caráter de qualquer resposta dependerão de considerações estratégicas regionais e internacionais muito mais amplas, que vão além da situação específica dos protestos no Irã.

Como o governo dos aiatolás lida com a contradição de aceitar o apoio de parte significativa da esquerda global enquanto reprime valores defendidos por essa esquerda, como direitos da comunidade LGBT?

O regime iraniano é pragmático em relação ao apoio internacional. Ele aceita solidariedade de qualquer grupo que se oponha à intervenção ocidental, independentemente de coerência ideológica. O governo enquadra sua luta como anti-imperialista, e não como progressista, o que ressoa com setores da esquerda focados em combater a hegemonia dos EUA. Internamente, o regime justifica suas políticas sociais com base na lei religiosa, apresentada como superior aos valores liberais ocidentais.

Como a esquerda israelense vê o regime iraniano?

A esquerda israelense, em geral, enxerga o regime iraniano como autoritário e repressivo, especialmente no que diz respeito aos direitos humanos e ao tratamento de minorias. Ao mesmo tempo, muitos se opõem a soluções militares e defendem o engajamento diplomático e sanções em vez de ataques. Há empatia pelo povo iraniano e pelos movimentos de oposição, combinada com profundas preocupações em relação ao programa nuclear e às atividades regionais do regime.

Como a esquerda israelense vê a esquerda global, que em grande parte defende posições antissionistas ou até antissemitas?

Esse é um tema complexo e doloroso para a esquerda israelense. Muitos se sentem abandonados por aliados tradicionais da esquerda internacional. Há uma distinção clara, para eles, entre críticas legítimas às políticas de Israel e o antissemitismo ou o antissionismo absoluto que nega o direito de existência do Estado israelense. Essa tensão gera fraturas profundas dentro dos movimentos progressistas globais.

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