Dias antes do Carnaval, o BTG, maior banco de investimentos da América Latina, divulgou seu balanço de 2025. A comissão de frente, digamos assim, das demonstrações contábeis do BTG ostentava um patrimônio líquido de cintilantes R$ 70 bilhões. É uma cifra estrondosa, superior ao orçamento anual de qualquer grande cidade brasileira, com exceção de São Paulo. Se a comparação for com grandes empresas, não mais do que uma dezena delas ultrapassa, ou pelo menos alcança, semelhante patamar no Olimpo corporativo brasileiro. Bancões, como Itaú e Bradesco, integram esta short list de robustez, mas não fazem sombra ao banco de André Esteves em um ativo intangível — influência política. Esta primazia pertence ao BTG, e seu presidente não se furta a ostentá-la. Foi o que fez, mais uma vez, na Marquês de Sapucaí, no último domingo, distanciando-se ainda mais da discrição que caracteriza a velha escola de banqueiros.
Esteves foi abraçar Lula, homenageado pela escola de samba Acadêmicos de Niterói com um enredo típico de campanha eleitoral, cuja tônica era a bajulação ao presidente, poupado de lembranças constrangedoras de sua trajetória, e o escracho dos adversários políticos do petismo, assim como dos conservadores em geral. Esteves também foi fotografado com Eduardo Paes, prefeito do Rio de Janeiro e pré-candidato ao governo fluminense. Tivesse o PT algum vínculo com seu passado pé-no-chão, a presença efusiva de um banqueiro bilionário adejando em torno do “operário” Lula, como a escola de Niterói tentou retratar o presidente, soaria esquisita. Mas fazer política é a alma dos negócios para Lula. Mais ainda para André Esteves, como se verá.

De tão impregnado do personalismo de Esteves, o BTG é praticamente um banco com CPF, e desta característica resultam os altos e baixos que enfrentou — com a diferença, rara no mercado financeiro, de sempre dar a volta por cima. Sua escalada rumo ao topo foi vertiginosa. Em 1989, aos 21 anos, ingressou como estagiário no Pactual, o agressivo banco de investimentos que tinha Paulo Guedes entre os sócios. Se fosse um jovem comum, como tantos saídos dos cursos de ciências da computação e matemática da UFRJ, teria durado na função inicial de programador. Mas, quatro anos depois, já se tornava sócio do banco, graças ao tirocínio, ao faro para oportunidades e, acima de tudo, no arrojo de seus 25 anos, a uma ambição sem freios. Chegou nos anos seguintes ao posto de principal executivo do Pactual e, com a venda do banco ao suíço UBS, em 2006, estava bilionário antes de chegar aos 40 anos — e tratou de criar o seu banco, o BTG.
Mas a grande tacada ainda estava por vir. Com o colapso financeiro mundial em 2008, o UBS precisou se desfazer de ativos no Brasil. Com a ajuda de investidores, Esteves recomprou o Pactual por um valor inferior ao que o UBS havia pago. Era o início do BTG Pactual, um banco que se lançou com volúpia à incorporação de participações importantes em empresas em dificuldades momentâneas e à aquisição de bancos relevantes que passaram por processos de intervenção e liquidação pelo Banco Central.
Fazem parte desta lista ativos do Banco Econômico, Banco Nacional, Bamerindus e BVA. Quando o Banco Pan (originalmente Panamericano), do grupo Sílvio Santos, enredou-se em fraude contábil e perdeu sustentação, lá estava o BTG Pactual para assumir as operações, a preços de ocasião, naturalmente.
E agora, no início de 2026, o enredo se repete com o Banco Regional de Brasília (BRB), que tem percorrido a Faria Lima em busca de capitalização. O sonho do BRB é revender para os principais bancos brasileiros uma parte das carteiras de crédito que adquiriu do liquidado Banco Master, sobre as quais pesam suspeitas de fraude apontadas pelo Banco Central e pela Polícia Federal. O BTG, claro, é uma das instituições que estão comprando a parte saudável dos ativos do BRB. E com um bom desconto, naturalmente.

O caso Master ilustra bem a desenvoltura de Esteves para lucrar em quaisquer circunstâncias, seja fazendo chover ou vendendo guarda-chuvas. O BTG, assim como a XP e o Nubank, distribuiu por meio de sua plataforma os CDBs inacreditavelmente rentáveis que o banco de Daniel Vorcaro oferecia aos aplicadores, com promessa de retornos de até 150% do CDI. E faturou gordas comissões com a venda de R$ 6,7 bilhões em CDBs do Master. Está sendo instado a explicar à Justiça, e também a grandes players, como o Itaú, sua cota de responsabilidade no crescimento da pirâmide do Master, que, ao ser liquidado em novembro, deixou para as demais instituições financeiras do mercado, mantenedoras do Fundo Garantidor de Créditos, uma conta de R$ 41 bilhões a ser ressarcida aos compradores dos CDBs mágicos.

Um banqueiro com a reputação chamuscada manteria distância prudente da exposição pública, de acordo com o figurino clássico. Mas, como se viu na aparição junto a Lula e Eduardo Paes na Sapucaí, esta não é a natureza de André Esteves, visto recentemente em um vídeo que expôs sua proximidade com o ministro Dias Toffoli em um momento em que o então relator do caso Master no STF enrolava-se em evidências de suas ligações com Daniel Vorcaro.
Não é só com Toffoli. Esteves goza de boas relações com Gilmar Mendes, o decano da Corte, hoje praticamente um empresário que veste toga. E, também, com Alexandre de Moraes, o ministro que frequentou o espaço privê da mansão de Vorcaro em Brasília e cuja esposa, a advogada Viviane Barci de Moraes, celebrou um ainda não explicado contrato de R$ 129 milhões com o Banco Master para, suspeita-se, à falta de qualquer outra satisfação à sociedade, fazer lobby conjugal com aparência de serviço jurídico.
Ambos, Gilmar e Moraes, reuniram-se com André Esteves em agosto de 2025, no auge da ameaça de sanções de Washington contra ministros da Suprema Corte brasileira acusados de violação de direitos humanos e perseguição a empresas e a cidadãos norte-americanos. Moraes, então, estava sancionado pela Lei Magnitsky. Gilmar e seu colega Luís Roberto Barroso receavam ser os próximos alvos dos tiros — de festim, viu-se depois — de Donald Trump.
Importa saber que Esteves, um banqueiro, deu colo às excelências. Parece promíscuo, e é. Ou seria, em um país de instituições sólidas, tudo o que o Brasil tem mostrado não ser. Para os interesses de Esteves, esta conversa de institucionalidade é cosmética e tem importância nula. Ele joga o jogo do capitalismo de laços e tem se dado muito bem em acessar oportunidades que impregnam certa zona cinzenta entre os negócios públicos e privados.

Em um processo sem concorrência, alegadamente por expertise técnica, o BTG fez parte do grupo de bancos que coordenou a privatização da Eletrobras em 2022, arranjo que a associação de funcionários da gigante de energia chamou de “banquete” entre amigos. Em 2023, liderou o consórcio que estruturou a privatização da estatal paranaense de energia, a Copel, via oferta pública de ações. E, a partir de 2024, sob o governo de Tarcísio de Freitas, o BTG foi escolhido para coordenar a privatização da estatal de saneamento Sabesp, também por meio de oferta pública de ações.
A participação em três privatizações em um curto período, 2022-2025, vitaminou o BTG Pactual ao proporcionar ganhos diretos, os fees, e indiretos. Em 2025, Esteves manifestou, em público, um orgulho que é próprio de um hábil operador político — o fato de ter atuado na privatização de três das seis maiores empresas sob controle público, e de não ter enfrentado mobilizações de protesto significativas. De fato, Eletrobras, Copel e Sabesp se depararam com uma oposição dócil, ao contrário do que se via no Brasil em décadas passadas, quando o PT exibia rebeldia e aguerrimento. Esteves soube silenciar os gansos do petismo, reconheça-se. Mas talvez isso não tivesse sido possível se não trouxesse no bolso uma fatura para cobrar da alta nomenclatura petista.
Foi em 2015. O ano chegava ao fim e as labaredas da Lava Jato, maior operação anticorrupção já vista no continente, consumiam a reputação de Lula e outros próceres do PT. André Esteves foi preso por ordem do falecido ministro Teori Zavascki, relator dos processos da Lava Jato no Supremo. Era acusado de obstrução da justiça por tomar parte em uma tentativa de suborno do ex-diretor da Petrobras, Nestor Cerveró, que estaria preparando uma delação comprometedora para setores do partido — e para o BTG. Levado a Bangu, depois a prisão domiciliar, ficou um longo período afastado de seu banco, mas se manteve firme, sem abrir o bico. Em 2018, o STF arquivou o inquérito contra ele, ainda que tivesse seu nome citado em delações do próprio Cerveró e de Antonio Palocci. Gilmar Mendes cumpriu papel relevante em seu livramento. Em 2019, teve autorização para se reintegrar ao bloco de controle do banco. Em abril de 2022, voltou à presidência do Conselho de Administração.

No Conselho do BTG, aliás, fulgura um dos nomes de maior trânsito na República: o deputado constituinte Nelson Jobim, ex-presidente do Supremo Tribunal Federal, ex-presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ex-ministro da Justiça de FHC e ex-ministro da Defesa de Lula.
Guilherme Paes, irmão do prefeito do Rio e pré-candidato ao governo fluminense, Eduardo Paes, é diretor executivo. Antes de a família de Luís Roberto Barroso ter vistos suspensos pelo governo norte-americano, em 2025, o filho do ministro, Bernardo van Brussel Barroso, ocupava o cargo de diretor associado do BTG em Miami. Mansueto Almeida, ex-secretário do Tesouro nos governos Temer e Bolsonaro, é o economista-chefe. E num banco de perfil tão político, a simples admissão de um estagiário — Matheus, filho do governador Tarcísio de Freitas — foi notícia nas redes sociais em 2025.
Todos os holofotes estão sobre André Esteves. Nesta quarta-feira, 18, com a decisão do Banco Central de liquidar o Banco Pleno, um possível negócio, oriundo da bacia das almas do sistema financeiro, pode ter ingressado no radar do BTG. O Pleno foi criado a partir da cisão do Banco Master, em maio do ano passado. Augusto Ferreira Lima deixou a sociedade com Vorcaro e levou um ativo valioso — a rentável e segura carteira de crédito consignado para servidores estaduais da Bahia, que “Guga” Lima havia criado com a colaboração dos ex-governadores baianos Rui Costa e Jaques Wagner, ambos do PT. Em crise de liquidez, em boa medida causada pela crise de imagem associada à debacle do Banco Master, o espólio mais apetitoso do Banco Pleno tem um futuro nem tão incerto assim. André Esteves está no jogo.
Leia também “Quem mesmo deveria estar preso?”




Quanto mais você se informa mais deixa de acreditar nesse país, onde as cúpulas político-econômico-financeira estão envolvidas em roubo da nação
Mas a família Moreira Salles faz a mesma coisa e desde 1950!
Com o apoio do partido democrata norte americano…ou vcs acham que foi QUEM que desenvolveu a mineração de nióbio deles!? Foi um almirante dos EUA que deu apoio….desde então…mandam mais nos EUA do que Trump!
Bostil Brasil, regido por 3 poderes durante o dia. A noite todos seus ocupantes se reunem no Bar das Putas na Rua Amaral Gurgel.
A matéria está perfeita, porém, Guilherme Paes vem a ser irmão do Prefeito e, não, filho, conforme o artigo diz.
Muito obrigado, Fabio, pela correção. Pedirei aos editores a retificação devida em meu texto. E, desde já, peço desculpas pelo equívoco!
As putas não deixam! Não se misturam com essa escória! Respeite-as!
Promiscuidade na cara dura!!
Isto, como compôs Ary Barroso nos anos 50, é um pouquinho de Brasil, Alexandre.
Não gosto de André Esteves,um lobo em pele de lobo,só não vê quem não quer.
Ele tem colecionado aliados mas, também, desafetos, e alguns deles com muito poder, Teresa.
Incrível!
Leitura de tirar o fôlego!
E aperto no estômago!
Que rede!!!!
Uma rede nem sempre coesa, Rosely. A ver com os desdobramentos do Caso Master.
Excelente reportagem
Esteves é um personagem que ainda precisará de muitas reportagens, Sergio, para dar conta de todos os passos que deu – e ainda dará.