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Foto: Montagem Revista Oeste/IA
Edição 323

Imprensa sem sotaque

Se você quer cultivar ou agradar a um segmento, oferecendo embalagens políticas sob medida para o gosto dele, jogue fora o crachá. Não existe jornalismo à la carte

O vácuo de honestidade aberto pela chamada “grande imprensa” fez surgir uma nova imprensa. Foi esse fenômeno que permitiu uma certa oxigenação da opinião pública nos últimos anos. Mas a tentação de fazer oposição ao proselitismo “progressista” da velha imprensa pode fazer a nova imprensa envelhecer rápido.

Imprensa não tem sobrenome ideológico. Nem apelido político. Nem sotaque partidário. Imprensa é imprensa. O mercado está cada vez mais segmentado? Ninguém há de negar. Mas se você quer cultivar um segmento, ou agradar a um segmento, oferecendo embalagens políticas sob medida para o gosto dele, jogue fora o crachá de imprensa. Não existe jornalismo à la carte.

Comunicadores ou neocomunicadores que se parecem mais com simpatizantes partidários do que com jornalistas têm surgido em grande número. Até comentaristas com abordagem técnica ornam suas falas com os cacoetes ideológicos da “polarização”. Profissionais de imprensa aderem abertamente a candidatos. Qual a consequência disso?

Está diante dos olhos de todos: o público foi acostumado a exigir aderência política dos jornalistas. E se essa aderência não ficar clara, o jornalista que não veste camisa ostensivamente vira “traidor”. E vem o festival de cancelamentos.

Imprensa não tem sobrenome ideológico. Nem apelido político. Nem sotaque partidário. Imprensa é imprensa | Foto: Shutterstock

Boa parte do público se acostumou a patrulhar veículos de imprensa e comunicadores. Circulam ferozmente múltiplas teses fantasiosas sobre eminências pardas por trás dos canais de mídia. Se não bate tambor para o “lado certo”, está vendido para fulano ou a serviço de beltrano. E quem “educou” o público dessa forma foram integrantes da própria nova imprensa, com seu sotaque militante.

Canais, revistas e veículos em geral dessa nova imprensa disputam o público “da direita”. Competem para ver quem vocaliza a “direita” mais pura. Customizam a mensagem noticiosa com conservadorismos versus progressismos e todo um balé sociológico um tanto sofisticado para a realidade bruta que assalta as pessoas comuns.

Jornalistas que atacavam o governo Bolsonaro dia sim, outro também, que faziam coro com a velha mídia para demonizar tudo o que viesse do Planalto naquele período, hoje estrelam canais “de direita”. Convidam políticos “de direita”, comentaristas “de direita” e oferecem o tal jornalismo à la carte — com um cardápio diametralmente oposto ao que adotavam no verão passado.

Toda essa mistificação não tem como terminar bem. Não existe um jornalismo missionário, não existe imprensa salvacionista, não existem os donos da verdade redentora. Parem de acostumar o público com a ideia de que jornalismo sem militância é covardia. Existe uma colossal demanda reprimida por uma imprensa sem glossário sociológico.

Não existe um jornalismo missionário, não existe imprensa salvacionista, não existem os donos da verdade redentora | Foto: Shutterstock

A ideia de uma espada “direitista” contra os males do mundo já produziu uma multidão de enganos. Auxiliares diretos do ex-presidente Bolsonaro, por exemplo, que empunhavam a espada como manda o figurino e arrastavam multidões, se voltaram contra o ex-presidente nos momentos mais dramáticos. Quem era a “verdadeira direita”, afinal? Aparentemente, ninguém.

Já o lulismo, o petismo e todo o moderno autoritarismo vivem (bem) da ameaça de que “a direita” está sempre tramando um novo AI-5 ou similar. Dizem que o “direitismo” é o fantasma da ditadura — e boa parte da opinião pública compra essa versão.

Ou seja: a dicotomia direita/esquerda é um ativo mercadológico bastardo. Uma feira de mal-entendidos. Uma usina de patrulheiros. E se a nova imprensa continuar achando que vai se dar bem colocando sotaque “direitista” no seu jornalismo, vai passar o resto da vida se ajoelhando para jurar à patrulha que é a “direita certa” (nunca será).

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3 comentários
  1. Erasmo Silvestre da Silva
    Erasmo Silvestre da Silva

    O consórcio é grande cúpula dos três poderes mais a imprensa tudo roubando dinheiro público e ninguém solta a mão de ninguém. Tem que ter o apoio do Trump e começar o fuzilamento de todos

  2. Rafael Lima Bechtlufft
    Rafael Lima Bechtlufft

    Perfeito, meu amigo! Não pode haver cegueira ideológica! As pessoas enlouqueceram

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