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Plantação de café no Brasil | Foto: Alief Kripik/Shutterstock
Edição 326

Campo em crise

Mesmo sendo o principal motor da economia nacional e garantia de segurança alimentar para o mundo, o segmento continua negligenciado pelo governo

O agronegócio tem sido o grande propulsor da economia brasileira desde a fundação do país. Mesmo em períodos de retração da atividade econômica, passando por crises globais e até uma pandemia, o agro sempre foi fundamental para o crescimento do PIB, o que significa geração de empregos, ampliação da renda, arrecadação de impostos e aumento da prosperidade. Ao mesmo tempo em que é dos principais alicerces de nossa economia, o agro também contribui de modo decisivo para a segurança alimentar da humanidade. Afinal, o Brasil é o único país do mundo com expertise, tecnologia e área agricultável suficientes para expandir a produção de alimentos no ritmo e no volume necessários para alimentar o mundo nas próximas décadas.

Tais atributos deveriam garantir ao agro um papel de destaque nas políticas públicas, mas ocorre justamente o contrário. Em vez de fortalecer o segmento que representa a melhor aposta do Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o PT costumam demonizá-lo. Graças à sua visão distorcida, o Estado não só pouco ajuda, como muito atrapalha. Programa de crédito rural do governo federal, o Plano Safra, insatisfatório, seguro agrícola praticamente inexistente e crédito com juros impagáveis são alguns dos elementos que tornam ainda mais difícil a vida de quem já precisa lidar com uma série de fatores imprevisíveis, como o clima e as pragas. Para piorar a situação, os conflitos internacionais geram a instabilidade do dólar, fator que afeta as exportações e agrava nossa dependência de insumos externos, entre os quais diesel e fertilizantes.

Esses problemas poderiam ter sido resolvidos — ou ao menos bastante amenizados. A ampliação da capacidade de refino, por exemplo, teria reduzido a dependência externa do diesel, derivado obtido a partir do refino do petróleo.

Em 2005, o governo lançou o projeto da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, que seria construída em parceria com a Venezuela, então comandada por Hugo Chávez. O orçamento inicial, estimado em US$ 2,3 bilhões, saltou para cerca de US$ 18,5 bilhões ao longo dos anos. A Venezuela nunca aportou os recursos previstos, deixando o custo integral sob responsabilidade da Petrobras. Posteriormente, investigações da Lava Jato apontaram esquemas de corrupção e superfaturamento ligados ao empreendimento. A refinaria entrou em operação, mas ainda sem alcançar a configuração originalmente planejada. Hoje funciona com capacidade inferior à prevista no projeto inicial e segue recebendo investimentos para ampliar a produção.

Denúncias de corrupção também interromperam as obras do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), em Itaboraí. O empreendimento foi reformulado, mudou de nome e opera em escala inferior à originalmente projetada. Outro episódio marcante envolveu a refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos. A aquisição da planta pela Petrobras gerou perdas estimadas em cerca de US$ 800 milhões e, anos depois, acabou sendo vendida por valor inferior ao desembolsado originalmente.

“O Brasil montou toda a sua estrutura operacional do agro em cima de um ambiente de harmonia no comércio internacional”, afirmou o agrônomo e consultor Fernando Pimentel em entrevista a Evaristo de Miranda no programa Brasil Verde, do canal AgroMais. “Só que esse mundo acabou em 2022, quando a Rússia invadiu a Ucrânia”.

No ano passado, o PIB brasileiro teve o menor crescimento dos últimos cinco anos, ficando em modestos 2,3%. O resultado só não foi mais desastroso porque o agro, outra vez, salvou a situação, com crescimento recorde de quase 12%, o que representa cerca de um terço do crescimento econômico — a indústria apresentou crescimento de cerca de 1,5%, enquanto o setor de serviços, o maior, ficou em menos de 2%. As exportações brasileiras em 2025 alcançaram cerca de US$ 170 bilhões, um aumento de 3% em relação a 2024, sendo que o agronegócio respondeu por praticamente a metade deste valor.

Em 2026, mesmo com todos os empecilhos gerados pela inércia e incompetência do governo, além do contexto internacional adverso, o agro ainda tem conseguido resistir. No entanto, se a atitude oficial não mudar, o cenário que se avizinha é sombrio. “É um absurdo o governo não ter criado até hoje um gabinete de crise”, afirma Evaristo de Miranda, agrônomo, pesquisador e articulista de Oeste.

Nunca tantos agricultores ficaram sem capacidade de quitar as dívidas, conforme mostram os números do Banco do Brasil, responsável por metade da carteira de crédito do Plano Safra. O produtor rural é considerado inadimplente depois de 90 dias de atraso nos pagamentos. Ao longo do governo Lula, a inadimplência saltou de R$ 1 bilhão para R$ 17 bilhões, e essa é apenas a ponta do iceberg. Algumas dívidas, mesmo depois de vencidas, são roladas — ou seja, o tomador do empréstimo consegue mais prazo para se regularizar. Quando isso acontece, seu status volta para adimplente, ainda que continue devendo. Nesse caso, o aumento foi de R$ 13 bilhões para R$ 62 bilhões, crescimento de 360%. O volume prorrogado equivale a praticamente 12% do valor estimado para a safra de milho e soja do Brasil. Trata-se das duas culturas carros-chefe do agronegócio nacional, e são justamente os produtores delas que se encontram na pior situação.

Dependência externa

O problema não advém da falta de safra. Os agricultores cumpriram seu papel. A colheita atual até deve ser recorde. O consumo também está em alta. A China, nosso maior cliente, tem demanda. Contudo, as cotações caíram e a reclamação geral é de que os preços não cobrem os custos. A causa é o aumento nos valores dos insumos, como o diesel utilizado nos tratores, e os fertilizantes, vitais para a agricultura brasileira. Embora o país seja referência quando o assunto é agropecuária, o solo onde a maior parte de cultivo acontece necessita de adubo para se tornar viável. Ao mesmo tempo em que somos grandes fornecedores de alimentos, quase toda a demanda local por adubos é suprida por importação — e dois dos maiores fornecedores estão em áreas de conflito: a Rússia, em guerra com a Ucrânia desde fevereiro de 2022, e o Irã, cujas instabilidades internas e o morticínio promovido pela ditadura dos aiatolás levaram às ofensivas militares de Estados Unidos e Israel.

“Durante a pandemia, o produtor se animou com os bons preços das commodities e tomou crédito para investir, mas o cenário agora é outro”, diz José Corral, CEO da Creditares e da Agro Open AI. Ambas as empresas se dedicam ao crédito agrícola. O conhecimento dele, porém, vai além dos dados. Ele cresceu imerso no agronegócio. Seu pai é Normando Corral, produtor e ex-presidente da Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato), o Estado com a maior safra de grãos do país.

“O mercado de crédito está completamente restritivo”, explica José Corral. “Há muito menos capital para os empréstimos e a exigência é por mais garantias. Atualmente, é muito difícil conseguir um empréstimo sem dar a terra como garantia. Além disso, as taxas estão bem mais altas.” De acordo com o especialista, grande parte do dinheiro ainda disponível está na categoria dos recursos livres. Isso significa que está fora do Plano Safra e que os juros são muito maiores. “É possível pagar a taxa subsidiada. A dificuldade está no dinheiro sem esse custeio.”

Embora afirme que o cultivo continuará existindo mesmo em meio à crise, Normando Corral explica que muitos produtores rurais podem ir à bancarrota nesse processo. “Existe uma máxima: a agricultura não quebra, quem quebra é o agricultor”, diz.

O homem do campo é o elo principal dessa cadeia, mas o agronegócio não se limita à pecuária e à agricultura. Um frigorífico também faz parte desse setor, mas se trata de indústria. E o mesmo ocorre com a usina de açúcar e etanol, o curtume e a produção de itens diversos, como cosméticos e produtos de higiene. Também há o setor de serviços ligado ao campo. Entre eles, o fornecimento de máquinas, de insumos, como rações e fertilizantes, e de mão de obra intelectual, desde o advogado que trabalha para um fazendeiro até o veterinário e o agrônomo que prestam serviços para proprietários de todos os tamanhos. Porém, nada disso funciona sem o trabalho realizado na roça. O grande problema é que justamente essa parte essencial para todo o segmento é a mais negligenciada, ao contrário do que ocorre em países que são referência em estabilidade econômica e produtiva, como Estados Unidos, Japão e nações da União Europeia.

“Cerca de 95% da safra dos Estados Unidos tem seguro rural, enquanto no Brasil não chega a 5%”, relata Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura (2003-2006) e fundador da FGV Agro. “Se o país tivesse uma política de crédito agrícola que contemplasse os seguros, sobrariam mais recursos para os bancos emprestarem. Com o seguro funcionando, o produtor está coberto contra geadas, incêndios e problemas de mercado.”

Recuperações judiciais

Sem a medida, em momentos de crise como o atual, o resultado é catastrófico. A agricultura é volátil em todo o mundo, pois acontece ao ar livre, em um ambiente que o homem não consegue controlar. Em 2024, o Rio Grande do Sul sofreu com enchentes que devastaram grande parte de seu território. Os efeitos, porém, não se restringiram à área urbana. Em muitas propriedades agrícolas, restou um cenário de terra arrasada. Pequenos produtores perderam praticamente toda a área em que cultivavam. Não se tratou apenas de ficar sem a colheita. A enxurrada chegou a modificar o terreno em alguns lugares. Áreas onde havia plantações ou que abrigavam criações desapareceram. E a agricultura gaúcha passou por seguidas safras problemáticas devido a fatores climáticos. Os efeitos de todos esses problemas convergiram de uma só vez, e a maioria dos produtores não estava segurada. Passados dois anos, o governo federal ainda não forneceu o socorro na medida adequada. Ao contrário, a falta de parcimônia nas contas públicas gera inflação, instabilidade na cotação do dólar e aumento dos juros. Tudo fica mais caro e arriscado para a produção. Entre agosto de 2020 e março de 2021, a taxa Selic (referência para os juros no Brasil) era de 2% ao ano, as cotações dos produtos agrícolas estavam em alta e o dilúvio sobre os gaúchos ainda não havia acontecido. Agora, está em cerca de 15%.

“Metade dos produtores não conseguiu arcar com as dívidas, está inadimplente ou teve que rolar os valores para frente a juros mais altos”, explica Domingos Velho Lopes, presidente da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul). “Muitos são pequenos agricultores. A conjuntura é extremamente preocupante e precisa de atenção redobrada do governo federal. Um olhar que não seja político, ideológico ou partidário é necessário para resolver os problemas do Sul.”

Sem o socorro, a situação tende a piorar. Sem poder pagar as dívidas, a depressão tornou-se recorrente entre os produtores. Até agora, ao menos 40 tiraram a própria vida. Entre os que tentam resistir, os pedidos de recuperação judicial tornaram-se mais frequentes. De 2021 a 2023, houve cerca de cinco pedidos de recuperação judicial relacionados ao agro no Estado. Em 2025, o número está próximo de 70, segundo levantamento da Serasa Experian, e o aumento abrupto se estende por outras partes do país. No Mato Grosso, berço da maior safra do Brasil, houve pouco mais de 50 processos entre 2021 e 2023. Nos dois anos seguintes, foram abertos mais de 300. O MT é o maior produtor brasileiro de soja, grão carro-chefe da agricultura nacional. O aumento foi de quase  600%. Ainda assim, foi a menor elevação entre os três Estados que lideram o cultivo. Em Goiás, chegou a 800% e, no Paraná, foi registrado o pior índice: 3.300% de aumento nas recuperações judiciais. O trio responde por 55% da safra nacional da cultura.

“Hoje, o preço da saca de 60 quilos de soja está na faixa de R$ 105 e precisa ser de pelo menos R$ 120 para se tornar viável”, afirma Ricardo Arioli, produtor mato-grossense e consultor da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária do Brasil. De acordo com Arioli, outro fator que inspira atenção é a dependência internacional para suprir a demanda interna de vários insumos, sobretudo dos fertilizantes. “Importamos 85% dos adubos de que precisamos”, explica.

Nitrogênio, fósforo e potássio

O Cerrado, principal bioma onde ocorre o cultivo nacional de grãos, necessita de correção e fertilização do solo para gerar safras viáveis. O ajuste depende da aplicação de nitrogênio, fósforo e potássio, e a oferta desses recursos provém do mercado externo, de áreas marcadas por conflitos que se intensificaram nos últimos anos, como Rússia e Oriente Médio. Depois da pandemia, dos desarranjos gerados pela guerra e da imprudência fiscal do governo, o preço médio da tonelada dos fertilizantes subiu 70%, passando de pouco mais de R$ 1 mil por tonelada em 2019 para quase R$ 2 mil em 2025.

Atualmente, a falta de enxofre é um dos grandes gargalos. Não se trata de nutriente em si, mas do insumo fundamental para extrair fósforo das jazidas. Embora seja subproduto do petróleo, o país precisa importá-lo, e os russos são os grandes fornecedores. Falta capacidade de refino. Além disso, a produção de baterias automotivas é outro fator que encarece o produto, conforme explica Bernardo Silva, economista e diretor-executivo do Sindicato Nacional da Indústria de Matérias-Primas para Fertilizantes.

“A transição energética virou um problema para a produção de fertilizantes e, por consequência, para a segurança alimentar”, disse. “A Indonésia, por exemplo, demanda muito enxofre para a produção do níquel que vai nas baterias dos carros.” Segundo Silva, a produção voltada para itens como carros elétricos consome por volta de 20% da oferta mundial. O restante vai para a agricultura.

fósforo - fertilizante
Fósforo, mineral essencial para atividades agrícolas | Foto: Reprodução/Aegro

Contudo, o país tem como reduzir sua dependência desse componente e até se tornar autossuficiente em potássio e nitrogênio. O problema é o ambiente fiscal e regulatório. No caso do enxofre, esses fatores combinados elevam em cerca de três vezes o custo, tornando a produção inviável. Em relação ao potássio, impedem há quase 20 anos a extração na mina de Autazes, no interior do Amazonas. O Ministério Público Federal embargou a mina por ela estar cerca de 10 quilômetros de uma área indígena.

Além de fortalecer o agro, a atividade poderia mudar a realidade da população local. O município é um dos mais pobres do país; menos de 10% de seus moradores têm carteira de trabalho assinada. A maior parte da população depende do Bolsa Família, e 95% de todas as receitas para manter as contas públicas vêm de transferências do Estado e da União. O local tem potencial para abastecer a agricultura nacional por mais de um século. “Por mais de 100 anos, o setor não ficaria tão vulnerável a fatores externos”, observa Antonio Cabrera, ministro da Agricultura de 1990 a 1992. Existem investidores dispostos a bancar o projeto e know-how para executá-lo. Mais uma vez, o grande empecilho à exploração da jazida é político, o mesmo fator que, na opinião dele, é o principal causador dos problemas que o agronegócio enfrenta.

“O agricultor não desaprendeu a cultivar”, explica Cabrera. “A crise que o agro vive hoje nasceu fora da porteira, em Brasília. O país ficou caro, inseguro e extremamente hostil para quem produz.”

A hostilidade começa na discurseira de Lula para agradar às plateias amestradas e segue nas políticas públicas que nem de longe atendem às necessidades do agronegócio, a despeito de sua imensa contribuição para o país. O governo se empenha em quebrar um setor que poderia ser considerado inquebrável.

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6 comentários
  1. Alexandre Vance Harrop
    Alexandre Vance Harrop

    O Brasil é um ator central e único em escala e velocidade potencial para suprir parte significativa da demanda futura, especialmente commodities como soja, milho, carnes. Contribui (e pode contribuir mais) para a segurança alimentar global. Mas afirmar que é “o único” ignora o potencial africano, russo/ucraniano e avanços em produtividade em outros lugares. É uma visão otimista patriótica, mas não factual precisa. Soluções globais envolvem múltiplos países + inovação sustentável. Matéria aqui foi exagerada e nacionalista, digamos. O mundo combinado juntamente com o Brasil, aí sim, teremos segurança alimentar global e real.

  2. Paulo César da Conceição
    Paulo César da Conceição

    O Lula é o maior inimigo do Agro negócio. É preciso desemperrar a burocracia estaral para que país avance. Somos auto suficientes em tudo, mas o Estado atrapalha, o Lula e à esquerda precisam ser extirpados da sociedade.

  3. Enoch Bruder
    Enoch Bruder

    Todos os atos , em todas as áreas , desse maldito desgoverno, são para reduzir o Brasil aos niveis desatrosos da Venezuela dos criminosos hugo chaves e maduro! E com muita eficiência! Se a esquizofrenia de 50% mais um dos eleitores tupiniquins recolocarem esse beócio ignorando analfabeto de pai e mãe, novamente, mais uma vez, no timão do Brasil …o navio vai afundar com todos.

  4. gilson roberto cardoso de oliveira
    gilson roberto cardoso de oliveira

    O partido que diz querer acabar com a fome é o que mais persegue e prejudica que PRODUZ comida. Não tem como dar certo.

  5. Célio Antônio Carvalho
    Célio Antônio Carvalho

    Mais Municípios e menos Brasília. Essa é a questão. A burocracia não produz nada de adequado ao cidadão, ao contrário, só atrapalha.
    Por que o que o dinheiro tem de sair lá do rincão interiorano e vir parar aqui em Brasília? Para ser desviado, para pagar o alto funcionalismo?
    Para quê?
    Ou mudamos isso ou ficaremos órfãos todos à mingua. Uns com dinheiro mas sem o produto do campo para a sua alimentação. A escolha é política, de encaixe, de sustentabilidade.
    O fato é que o Campo está a perigo, pede socorro, pede ajuda necessária sim.

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