A arte de culpar os outros pelos próprios erros exige certo talento. O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva elevou essa habilidade à categoria de política pública. Nos últimos meses, enquanto os brasileiros veem o carrinho do supermercado encolher e as faturas do cartão de crédito crescerem, Brasília encontrou o réu perfeito: as plataformas de apostas esportivas, as chamadas “bets”. É uma solução simples. E completamente desonesta.
“Se depender de mim, a gente fecha as bets”, declarou o presidente Lula há poucas semanas, em um surto proibicionista. “Todo mundo sabe. Então não é possível a gente continuar com essa jogatina desenfreada nesse país.”
Para o petista, o cassino no celular representa a destruição do patrimônio das famílias humildes. As plataformas digitais teriam se transformado numa espécie de buraco negro que suga renda, alimenta o endividamento e compromete o consumo. Lula tentou jogar para os sites de apostas a responsabilidade do desastre econômico que o Brasil está vivendo.
Os números, para quem ainda se importa com eles, são brutais. Segundo os dados da Confederação Nacional do Comércio (CNC), em maio de 2025, o endividamento das famílias brasileiras atingiu o recorde histórico de 81,6%. Nunca antes na história desse país tanta gente deveu tanto dinheiro.
O cartão de crédito, com suas taxas estratosféricas de quase 430% ao ano no rotativo, era citado por cerca de 85% dos endividados. Entre as famílias que ganham até três salários mínimos, a inadimplência disparou para mais de 38%. Quase quatro em cada dez famílias pobres do Brasil não conseguem pagar o que devem. Isso não é uma estatística. É uma catástrofe silenciosa.
O Banco Central, por sua vez, registrou que as famílias comprometem cerca de 30% da renda apenas com o serviço da dívida. Um patamar que se aproxima perigosamente do recorde de 2023.

“E esse endividamento não ocorre para comprar bens duráveis, como geladeiras, televisões ou carros. Muitas vezes as pessoas se endividam para pagar gastos correntes, como supermercado, luz, água e gás, pois os preços dos gastos do dia a dia se tornaram insustentáveis”, diz Felipe Tavares, economista-chefe da BGC Liquidez.
Nos últimos 13 meses, a inflação oficial estourou o teto da meta. A Selic permaneceu nas alturas, encarecendo todo o crédito do país, do financiamento da casa própria ao cheque especial do merceeiro.
E o governo, que gastou como se não houvesse amanhã em 2023 e 2024, continua torrando dinheiro público. Entre janeiro e abril deste ano, as despesas cresceram 14% em termos reais em comparação com o mesmo período do ano anterior. Segundo um relatório do BTG Pactual assinado pelos economistas Mansueto Almeida e Samuel Pessôa, “observou-se uma expansão sem precedentes das operações parafiscais no atual mandato, por meio de programas de crédito subsidiado e estímulos direcionados a setores específicos da economia.” Um aumento de cerca de R$ 275 bilhões desde meados do ano passado. Um valor próximo a 2% do PIB.
“É a volta da desastrosa Nova Matriz Econômica da época de Dilma Rousseff. Guido Mantega e Luiz Belluzzo devem estar orgulhosos do trabalho que estão fazendo no governo”, explica Tavares. Lula olhou para esse quadro desolador e disse, com a cara mais séria do mundo: a culpa é das bets.

Hipocrisia desavergonhada
O problema, para quem tem memória, é que foi o próprio Lula quem sancionou a legislação que regulamentou as bets, em 30 de dezembro de 2023. Durante o terceiro mandato do petista, foi estruturada a Secretaria de Prêmios e Apostas, editando as portarias regulamentadoras e concedendo 85 licenças para 187 sites de apostas operarem no país. Em 2025, o governo arrecadou quase R$ 10 bilhões em impostos sobre o setor. No primeiro quadrimestre de 2026, já eram R$ 4,5 bilhões em tributos, o dobro do período anterior.
Simplificando: Lula montou o cassino, cobrou a entrada, embolsou a arrecadação e agora quer ser aplaudido por se indignar com os jogadores. O equivalente ao dono de uma destilaria que vai à TV defender o combate ao alcoolismo. Existe uma palavra para isso. Várias, na verdade. Nenhuma é elogiosa.
O ministro Guilherme Boulos, com a habitual precisão de quem vê o mundo a partir de um centro acadêmico de faculdade federal, completou o raciocínio governista ao afirmar que o endividamento dos trabalhadores se explica pelos juros altos e pelas bets. Nada, absolutamente nada, sobre o déficit fiscal que obriga o Banco Central a manter a Selic nas alturas. Nada sobre um governo que, conforme admitiu o próprio ministro Fernando Haddad, superaqueceu a economia com expansionismo fiscal excessivo e depois ficou surpreso com a conta da inflação. Para quem até pouco tempo invadia propriedades alheias e devastava a sede da Fiesp, a culpa é das bets.
A verdadeira roleta
A arquitetura do endividamento brasileiro não é complicada de entender, exceto para quem tem interesse em ignorá-la. Mais de 60% da dívida pública brasileira está indexada à taxa de juros de curto prazo. Isso porque os investidores não confiam em emprestar dinheiro ao Brasil por muito tempo. Querem ser pagos com uma certa celeridade.
Por isso, quando o Banco Central eleva a Selic para conter a inflação gerada pelo próprio governo, o custo da dívida pública explode. O governo, então, precisa gastar mais para pagar juros, o que piora o déficit, pressiona o câmbio, alimenta a inflação e obriga o Banco Central a manter os juros altos. É uma roleta que Brasília inventou, instalou e opera. Mas a culpa, naturalmente, é de quem aposta no Tigrinho.
As bets entram nessa narrativa como uma bênção. São um alvo tangível, emocionalmente poderoso, com rostos e histórias de tragédia pessoal que se prestam ao noticiário. O Tribunal de Contas da União identificou que beneficiários do Bolsa Família chegaram a gastar cerca de R$ 4 bilhões em apostas num único mês, dado real, perturbador e que merece atenção séria. E o governo Lula demorou mais de dois anos e meio para editar uma norma que proibisse apostar dinheiro de programas sociais em bets. Só o fez depois de uma dura intervenção do Supremo Tribunal Federal (STF) em 2024. Mas usar esse argumento para desviar o olhar das causas estruturais do empobrecimento é uma desonestidade intelectual de primeira grandeza. “Quando o governo tenta usar esses argumentos para justificar seus fracassos ou, por exemplo, para forçar o Banco Central a cortar juros, entramos no âmbito do absurdo”, diz Tavares.

Problema real, solução errada
Que as bets são um problema, não há dúvida. Seria desonesto, da parte de quem critica a narrativa do governo, fingir que não são. As plataformas se espalharam pelo país numa velocidade impressionante. Patrocinam clubes de futebol, aparecem em transmissões esportivas, contratam celebridades e inundam as redes sociais com promessas de ganhos rápidos. São as propagandas que mais aparecem na televisão aberta.
Milhões de brasileiros passaram a apostar regularmente. Para uma parcela deles, a atividade funciona como entretenimento. Para outra, tornou-se uma armadilha. O vício em apostas existe, destrói famílias e afeta desproporcionalmente os mais pobres e os menos instruídos financeiramente. A esperança do ganho rápido é uma armadilha antiga, presente em todas as culturas humanas. A tecnologia apenas a democratizou e a instalou na palma da mão de 25 milhões de brasileiros.
O fenômeno é particularmente grave entre pessoas de baixa renda. Muitos apostadores acreditam estar diante de uma oportunidade de complementar o orçamento ou resolver dificuldades financeiras. Na prática, acabam aprofundando ainda mais seus problemas. Especialistas em saúde mental já identificam um crescimento acelerado dos casos de ludopatia — o vício em jogos de azar. Psicólogos relatam aumento da procura por tratamento. Famílias inteiras estão sendo afetadas.
Mas proibir não é solução. Nunca foi. O jogo do bicho, considerado uma contravenção há décadas, movimenta bilhões na informalidade. E financia a criminalidade violenta. A proibição do álcool nos Estados Unidos produziu Al Capone. Com a diferença de que o Estado perdeu a arrecadação e a máfia ganhou o mercado. Criminalizar uma atividade que milhões de adultos realizam voluntariamente não a extingue, apenas a empurra para a clandestinidade, onde não há regulação, não há proteção ao consumidor e não há imposto.
No Reino Unido, assim como em muitos outros países, as apostas fazem parte da cultura popular. É possível apostar qualquer valor sobre qualquer coisa, em qualquer momento, em qualquer lugar. E nunca nenhum governo britânico, de esquerda ou de direita, tentou justificar seus fracassos econômicos atacando as casas de apostas.
A resposta correta, a única que tem chance de funcionar, é a educação financeira. É ensinar a uma população historicamente excluída do sistema bancário que bet é entretenimento, não investimento; que a probabilidade matematicamente favorece sempre a casa; que o “método infalível” do influenciador no Instagram é, invariavelmente, uma mentira. É exigir que as plataformas regulamentadas cumpram regras de proteção ao apostador compulsivo. É tratar o vício em jogos como questão de saúde pública, com tratamento e não com criminalização.
Isso, porém, exige trabalho sério, investimento em educação e disposição para admitir que o problema tem raízes em décadas de descaso com a formação básica da população. É muito mais fácil, e eleitoralmente mais rentável, a seis meses das eleições, fazer um discurso inflamado contra o Tigrinho. Mas uma pergunta permanece sem resposta: se as apostas são a principal causa da crise financeira das famílias, por que o aperto também atinge milhões de brasileiros que jamais fizeram uma aposta na vida?

A conta que não fecha
O Brasil está mais endividado porque gasta mal, tributa excessivamente, mantém juros proibitivos e não educa sua população para lidar com dinheiro. As bets são um sintoma grave de uma sociedade que não aprendeu a poupar, porque nunca teve o quê, e que busca atalhos porque os caminhos oficiais para a prosperidade foram sistematicamente bloqueados pela incompetência e pela corrupção de seus governantes.
Enquanto o governo Lula não tiver coragem de olhar no espelho e reconhecer sua responsabilidade no caos fiscal que alimenta a inflação e o endividamento, as bets serão apenas a cortina de fumaça mais recente de uma longa série. Antes delas, a culpa foi da seca, da guerra na Ucrânia, do Banco Central autônomo, da herança maldita, do mercado financeiro. Há sempre um vilão disponível para quem não quer ser o protagonista da própria crise que ajudou a criar.
O cassino de Brasília não fica num aplicativo. Fica no Palácio do Planalto. E suas apostas são pagas, como sempre, por quem trabalha. O debate público deveria se concentrar nos fatores que tradicionalmente produzem inflação, corroem a renda e aumentam o endividamento: gastos públicos, política fiscal, produtividade, crescimento econômico, crédito caro e aumento do custo de vida. Mas o governo Lula parece ter escolhido outro caminho.
Leia também “A herança maldita do governo Lula”




Esse governo só está preocupado em se manter no poder e gastar o dinheiro dos outros. O resto é resto.