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Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante cerimônia de anúncio dos projetos habilitados pelo Novo PAC Seleções 2025 | Foto: Ricardo Stuckert/PR
Edição 327

O PAC empacou

Apresentado como símbolo de uma nova era de investimentos, o programa acumula obras inacabadas, projetos herdados e problemas que atravessam diferentes governos

Um dos traços mais marcantes da personalidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva é a vocação para superestimar os próprios feitos. Os relatos sobre obras, programas sociais e até mesmo interações diplomáticas costumam ser acompanhados da frase “nunca antes na história deste país”, repetida há décadas em discursos e cerimônias oficiais. 

Com o Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), lançado em agosto de 2023, não foi diferente. Com o objetivo implícito de estabelecer Lula como um estadista, o programa prometia impulsionar a infraestrutura nacional por meio de milhares de empreendimentos espalhados pelo país, com foco em áreas como transportes, energia, habitação e saneamento. Os resultados foram pífios e, como de costume, maquiados ou superestimados pela gestão petista. 

Parte dos projetos anunciados remonta a versões anteriores do programa, algumas ainda nos primeiros governos petistas. Muitos desses empreendimentos, iniciados há mais de uma década, seguem sem conclusão. Ao mesmo tempo, o número de obras paralisadas no país aumentou quase 54%. Longe de representar uma ruptura com o passado, o Novo PAC reúne obras antigas, promessas reapresentadas e problemas que atravessam diferentes governos sem solução definitiva. 

Lançado originalmente por Lula em janeiro de 2007, ao lado da então ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, o PAC nasceu com a promessa de destravar o gargalo logístico nacional. Financiado majoritariamente com dinheiro da União, o programa serviu, acima de tudo, como uma eficiente escada política para levar Dilma à Presidência da República em 2010. Naquela primeira fase, a previsão de investimentos foi de R$ 500 bilhões para o período de 2007 a 2010, valor reforçado em 2009 com um aporte emergencial de R$ 140 bilhões sob a justificativa de conter os impactos da crise econômica global.

Lula e Dilma lançamento PAC
O presidente Lula conversa com a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, antes do anúncio do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) em 2007 | Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Na prática, o PAC de Lula abriu caminho para um vasto cemitério de obras públicas. Em 2016, um levantamento do jornal O Estado de S. Paulo mostrou que, depois de nove anos de programa, apenas duas das dez principais obras anunciadas haviam sido concluídas. Três usinas hidrelétricas e uma refinaria chegaram a operar parcialmente, mas continuavam em construção. O caso mais simbólico foi o da Refinaria Premium I, no Maranhão. Apresentada em 2007 como o maior projeto do PAC, com previsão de R$ 41 bilhões em investimentos, a obra foi abandonada em 2015, depois de consumir R$ 2,1 bilhões da Petrobras. 

O legado de atrasos e paralisações atravessou todo o governo Dilma. Ao fim da gestão petista, vários empreendimentos seguiam parados ou avançavam lentamente. Entre eles estava o monotrilho da Linha 17-Ouro, em São Paulo. Prometido para a Copa do Mundo de 2014, realizada no Brasil, foi entregue somente em 2026, três Copas depois. 

Passadas quase duas décadas da criação do programa, o figurino mudou, mas as fórmulas seguem as mesmas. O Novo PAC, instituído em 2023, prevê maior participação da iniciativa privada por meio de concessões. Contudo, o programa permanece dependente de fundos estatais e de financiamentos públicos.

Os mais afetados

Para efeito de comparação, a gestão de Jair Bolsonaro (2019-2022) encerrou o governo com 2.760 obras do PAC paralisadas. No terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o estoque de projetos interrompidos registrou 2.688 em 2023, subiu para 4.082 em 2024 e atingiu 4.234 em 2025. O número verificado em 2025 representa um aumento de 53,41% no volume de obras paradas do PAC em comparação ao encerramento de 2022, de acordo com dados do Tribunal de Contas da União (TCU).

Quatro estados concentram o maior volume de paralisações do programa no país. O Maranhão lidera o ranking com 584 obras do PAC interrompidas, das quais 387 correspondem à área de educação básica e 184 pertencem ao setor de saúde. 

A situação se repete no Pará, com 456 empreendimentos interrompidos — o Estado recentemente entrou no centro do debate nacional pela falta de infraestrutura para a COP30 e acumula déficits históricos em saneamento básico. Em São Félix do Xingu, a implantação do Sistema de Esgotamento Sanitário recebeu sua primeira transferência de recursos federais em dezembro de 2015. Quase uma década depois, o empreendimento continuava paralisado. Segundo relatório de acompanhamento de abril de 2025, a obra acumulava apenas 0,42% de execução física e 0,36% de execução financeira. 

Reduto eleitoral de Lula, a Bahia ocupa a terceira posição, com 415 obras interrompidas. O setor de educação básica responde por 267 construções paralisadas, enquanto a área da saúde contabiliza 116 canteiros de obras suspensos. Minas Gerais é o quarto colocado, com 347 obras paralisadas.

A reciclagem do PAC

A tentativa dos governos petistas de apresentar o PAC como uma nova fase dos investimentos públicos esbarra em outro problema: grande parte das obras anunciadas pelo programa nunca foi novidade. Desde sua criação, o PAC se apoiou na apropriação de projetos concebidos décadas antes, muitos deles já presentes no planejamento estatal bem antes da chegada do PT ao poder.

A Transposição do Rio São Francisco é um dos exemplos mais emblemáticos. Idealizada na época do Império, a obra só começou a ser executada em 2007, no segundo mandato de Lula. O empreendimento atravessou diferentes governos, acumulou atrasos e revisões de cronograma e teve etapas decisivas concluídas apenas nas gestões de Michel Temer e Jair Bolsonaro. Ainda assim, o presidente frequentemente associa a transposição aos seus governos, minimizando a participação das administrações anteriores. Atualmente, o projeto continua contemplado pelo Novo PAC por meio de obras complementares, revitalizações e contratos de manutenção.

Presidente da República Jair Bolsonaro, no canal de transposição do Rio São Francisco | Foto: Alan Santos/PR

Projetada nos anos 1980, a Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, recebeu o maior financiamento individual da história do BNDES e consumiu mais de R$ 43 bilhões em investimentos até 2019. Antes de sair do papel, o empreendimento enfrentou uma longa batalha judicial e anos de controvérsias ambientais.

A Ferrovia Norte-Sul seguiu trajetória semelhante. Concebida também na década de 1980 e incorporada ao PAC como um dos principais corredores logísticos do país, a obra só foi concluída integralmente em 2023, depois de décadas de atrasos, investigações e concessões à iniciativa privada.

No setor de petróleo e gás, o Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), atual Polo Gaslub, foi anunciado em 2006 e concluído apenas em 2024, depois de sucessivos redimensionamentos, prejuízos bilionários à Petrobras e seu envolvimento em esquemas revelados pela Operação Lava Jato. A Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, também exigiu aportes adicionais e teve apenas parte do projeto original concluída.

Os números ajudam a dimensionar o problema. Segundo relatórios do TCU, a paralisação de empreendimentos vinculados às edições anteriores do programa gerou um passivo de 5,3 mil obras inacabadas, com R$ 13,5 bilhões em recursos federais aplicados sem a contrapartida dos resultados previstos. Os dados apontam ainda que 43% da carteira atual do Novo PAC — o equivalente a 5,3 mil ações — é composta por projetos remanescentes do PAC 1 e do PAC 2.

O BNDES e os projetos externos

Enquanto o país sofre com a paralisação de obras que poderiam influenciar positivamente o dia a dia do brasileiro, o BNDES usou o dinheiro do pagador de impostos para bancar grandes projetos de países amigos do PT. Em 2003, o BNDES destinou cerca de US$ 300 milhões para a construção da Segunda Ponte sobre o Rio Orinoco, na Venezuela, e financiou a expansão do metrô de Caracas, incluindo US$ 107,4 milhões para a Linha 4 e um crédito de US$ 78 milhões para a Linha 3. 

Com o calote do governo venezuelano, o BNDES acionou o Fundo de Garantia à Exportação (FGE), abastecido pelo Tesouro Nacional. O mecanismo liberou cerca de US$ 1 bilhão para ressarcir o banco e outras instituições financeiras que participaram da operação. Vinculado ao Ministério da Fazenda, o FGE existe justamente para cobrir garantias concedidas pela União em operações do Seguro de Crédito à Exportação (SCE), protegendo empresas brasileiras contra a inadimplência de compradores estrangeiros. Ou seja: uma obra financiada com o dinheiro dos pagadores de impostos acabou tendo o prejuízo coberto pelos mesmos recursos.

No Equador, o financiamento de US$ 243 milhões para a Hidrelétrica de San Francisco resultou em uma crise diplomática depois de falhas técnicas na usina, inaugurada em 2007, comprometerem cerca de 12% da geração de energia do país. Em 2008, o governo de Rafael Correa expulsou a Odebrecht, suspendeu o pagamento do empréstimo e tentou anular a dívida em arbitragem internacional. O impasse foi resolvido depois de um acordo, em 2010, que obrigou a construtora a reparar os danos e indenizar o Estado equatoriano, seguido por uma decisão arbitral favorável ao BNDES em 2011. Com a disputa encerrada, o banco voltou a financiar projetos no país e liberou US$ 89,7 milhões para a Hidrelétrica de Manduriacu em 2012. 

A partir de 2009, o financiamento de obras para os amigos do PT contemplou o Metrô da Cidade do Panamá e a modernização do Porto de Mariel, em Cuba, que recebeu US$ 682 milhões até sua inauguração em 2014. No Peru, o financiamento de US$ 280 milhões para a Hidrelétrica de Chaglla, celebrado em 2013, foi suspenso em 2016 devido a investigações da Operação Lava Jato. 

Em Moçambique, acordos firmados entre 2007 e 2011 custearam o Aeroporto de Nacala, inaugurado em 2014, e o BRT de Maputo. Ambas grandes obras que, assim como as outras, foram executadas com dinheiro brasileiro e atendem a estrangeiros.

Quase vinte anos depois de seu lançamento, o PAC continua cercado por problemas que deveriam ter ficado no passado. O contraste entre as obras inacabadas espalhadas pelo território nacional e os bilhões de dólares direcionados a projetos no exterior ajuda a explicar por quê.

Governos mudam, discursos são reciclados e programas são relançados. Os canteiros, porém, contam uma história diferente. Em vez da aceleração prometida, o que se vê é a repetição de atrasos, revisões de cronograma e promessas não cumpridas. Em meio a obras paradas, projetos reapresentados como novidade e bilhões de reais consumidos sem os resultados esperados, a conclusão é difícil de evitar: o PAC empacou. 

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