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Em 11 de junho de 2026, a guerra na Ucrânia ultrapassou a duração da Primeira Guerra Mundial, tornando-se um conflito prolongado e sem fim à vista. Inicialmente, muitos observadores ocidentais acreditavam em uma rápida vitória russa, mas a realidade se mostrou diferente, com a Ucrânia resistindo e adaptando-se, especialmente através do uso inovador de drones. Enquanto os EUA parecem buscar uma guerra por procuração contra a Rússia, a Europa, apesar de seu apoio retórico à Ucrânia, não conseguiu fornecer suporte militar ao país.
No dia 11 de junho de 2026, ultrapassamos um marco significativo e alarmante: a guerra na Ucrânia, depois de 4 anos, 3 meses e 15 dias, superou a duração da Primeira Guerra Mundial. Parece que esse conflito se transformou em uma verdadeira guerra sem fim. Nenhuma surpresa. Como argumentei no meu livro de 2022, The Road To Ukraine: How The West Lost Its Way (em tradução livre, “A Estrada para a Ucrânia: Como o Ocidente se Perdeu no Caminho”), tratava-se de um conflito em que nenhum dos lados podia se dar ao luxo da derrota. Por isso, sempre houve o risco de virar uma típica guerra de fronteira, capaz de se arrastar indefinidamente.
Poucos observadores ocidentais consideravam isso provável logo depois da invasão russa. Pareciam enxergar a fronteira entre Ucrânia e Rússia como uma versão do século 21 da Linha Maginot, que seria rompida em poucos dias. Especialistas militares ligados à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) não tinham dúvida: uma vez que a Rússia invadisse a Ucrânia, a guerra terminaria em tempo recorde. Todos esperavam uma “rápida vitória da Rússia”.
Pouco antes da invasão, o presidente do Estado-Maior Conjunto dos EUA, general Mark Milley, disse a líderes do Congresso, em reunião reservada, que a Ucrânia cairia em 72 horas. Era um sentimento comum entre autoridades ocidentais na época. Quando o embaixador ucraniano na Alemanha pediu ajuda no início da invasão russa, um funcionário alemão respondeu que não valia a pena enviar armas, pois a guerra acabaria em 48 horas.

Ao ler as opiniões de autoridades, militares e executivos ocidentais no início da ofensiva russa, fica evidente que eles esperavam que fosse um episódio muito breve — um interlúdio desagradável antes de voltar à normalidade. Decerto isso estava na cabeça de Herbert Diess, então CEO da Volkswagen. Em maio de 2022, ele defendeu um acordo negociado entre Rússia e Ucrânia para que as sanções fossem suspensas e a economia alemã não sofresse. A declaração, feita no 75º dia de guerra, mostrou como muitos figurões do Ocidente não entenderam o movimento das peças no tabuleiro das relações internacionais provocado pela invasão russa da Ucrânia.
Desde o início, parece que o mundo inteiro, liderado pelo Ocidente, passou a ter interesse direto ou indireto no desfecho do conflito. Os EUA pareciam enxergar ali uma oportunidade para travar uma guerra por procuração contra a Rússia. Como resumiu o coronel Doug Macgregor, ex-assessor sênior do secretário de Defesa americano, em 2022: “Parece cada vez mais que os ucranianos são quase que acessórios da operação, que estão ali para se entregarem ao abate pelo exército russo… porque o verdadeiro objetivo de tudo isso é a destruição do Estado russo e de Vladimir Putin”. A fria avaliação de Macgregor sobre os objetivos americanos era compartilhada por outros especialistas em Washington.
À medida que o descontrole da guerra ficou mais evidente em 2023, os americanos se cansaram de fingir que apoiavam a Ucrânia. Tanto que, hoje, parece que a administração Trump só quer que a guerra acabe, a qualquer custo.

Em contraste com o presidente americano, os líderes europeus repetiram à exaustão seu apoio incondicional à Ucrânia. Querem se associar à luta heroica dos ucranianos pela soberania nacional e sair disso com alguma autoridade moral. Insistem em dizer que a Ucrânia está lutando pela segurança da Europa. Mas, apesar do discurso firme, os Estados europeus se mostraram incapazes de entregar o apoio militar que realmente mudaria o rumo da guerra.
Na verdade, o conflito expôs a irrelevância da Europa como potência militar. Os líderes europeus falam em rearmamento, mas avançaram muito pouco na melhoria de seu poderio militar. As recentes renúncias tanto do secretário de Defesa quanto do ministro das Forças Armadas do Reino Unido, em protesto contra a recusa do governo Starmer de aumentar suficientemente os gastos militares, revelaram a frivolidade da frase “estamos com a Ucrânia”.
Enquanto isso, a China e, especialmente, a Coreia do Norte se envolveram mais profundamente no conflito. Há dois anos, Rússia e Coreia do Norte assinaram um “tratado de ampla parceria estratégica” em que se comprometem com a defesa mútua. Diferentemente da chamada “Coalition of the Willing” (“Coalizão dos Dispostos”) europeia, a Coreia do Norte realmente enviou tropas para a linha de frente. A China, por sua vez, fornece à Rússia equipamentos militares e recursos financeiros.

Nos últimos anos, a guerra na Ucrânia parece ter se transformado em um conflito global silencioso. Formalmente, nem sequer é uma guerra. Não houve declaração de guerra. Putin ainda a chama de “operação militar especial”. Enquanto isso, os governos ocidentais que apoiam a Ucrânia continuam tomando o máximo cuidado para não cruzar a linha que os obrigaria a entrar na briga.
Um dos aspectos mais surpreendentes desse conflito tem sido a capacidade da Ucrânia de se adaptar diante da grave ameaça russa. Apesar de sua enorme inferioridade em recursos humanos, militares e econômicos, a Ucrânia conseguiu estagnar a Rússia. Os drones relativamente baratos produzidos em Kiev se mostraram mais do que à altura do caro equipamento militar da Rússia. Segundo um relato: “Talvez a inovação mais radical da guerra não tenha nada a ver com o conflito terrestre. A Ucrânia destruiu efetivamente a Frota do Mar Negro da Rússia usando drones marítimos, sem jamais ter tido sua própria Marinha”.

De fato, o uso inovador da tecnologia de drones pela Ucrânia mudou fundamentalmente não apenas a condução desta guerra, mas da atividade de guerra em geral. Não é à toa que tantos outros países agora demonstram interesse na tecnologia de drones ucraniana.
Apesar do sucesso no campo de batalha, as forças ucranianas dificilmente conseguirão acabar com o impasse entre os dois lados. Os ucranianos estão convictos de que a guerra precisa ter um fim. Tragicamente, porém, a situação global de hoje não favorece um acordo que possa levar a uma paz efetiva. Existe até um perigo muito real de que, à medida que a guerra se prolongue, outras partes se envolvam. O risco de escalada do conflito permanece alto.
Isso tudo nos mostra que vivemos em um mundo onde prevalece o analfabetismo diplomático e onde os chamados líderes globais não têm a menor ideia de como promover a paz.

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Estamos sempre por um fio nas mãos de poucos que controlam muitos. 8 bilhões, e grande parte de nós prefere não se envolver e ficar a mercê do humor dos viciados em poder
Artigo esclarecedor, lúcido, oportuníssimo, brilhante, mesmo. Uma aula. Um prazer lê-lo.