publicidade
Festival temático de inteligência artificial Conecta CEIA 2026, em Goiânia | Foto: Divulgação/Gerada por IA
Edição 328

O Vale do Silício no coração do Brasil

Evento em Goiânia mostra uma comunidade de jovens focados em tecnologia e negócios

Confira o resumo que a OESTE.IA, a IA da Revista Oeste, fez pra você

Em Goiânia, durante um evento de tecnologia em 11 de junho, a abertura da Copa do Mundo no México foi ofuscada por uma partida de futebol entre robôs, atraindo a atenção do público. Os robôs, programados por jovens como Marcos Paulo Caetano, competem na RoboCup, que ocorrerá na Coreia do Sul, visando desenvolver robôs capazes de desafiar humanos até 2050. O Centro de Excelência em Inteligência Artificial (CEIA) da Universidade Federal de Goiás, responsável por inovações práticas em IA, já formou milhares de profissionais.

Tarde de quinta-feira, 11 de junho, em Goiânia. Um grande evento de tecnologia é interrompido para que o telão transmita a abertura da Copa do Mundo no México. Muitos participantes permanecem em suas cadeiras, esperando o show de entusiasmo artificial da transmissão. Do outro lado do centro de convenções, existe um campinho de futebol. Os jogadores adentram as quatro linhas: dois robôs de cada lado. Um time vestido de vermelho, outro de azul. Os robôs sabem o que devem fazer: mirar o gol adversário, avançar com a bola e chutar. Às vezes, eles se trombam e os técnicos em robótica entram em campo para separar a “briga”. 

Em pouco tempo, o público que assiste à abertura da Copa deixa o telão de lado e vai em massa para o campinho dos robôs, que está muito mais animado. Cada gol — não importa de que lado — é saudado com vibração. Resultado: Azuis 5 x Vermelhos 3. Os robôs também comemoram.

Campo de futebol onde robôs jogam | Foto: Dagomir Marquezi/Revista Oeste

Um dos programadores dos robôs é Marcos Paulo Caetano. Ele tem 21 anos. Está treinando seus jogadores para outro mundial: a RoboCup, que vai ser realizada em Incheon, Coreia do Sul, entre 30 de junho e 6 de julho. Delegações de 45 países vão reunir mais de três mil profissionais de robótica e estudantes.

Marcos Paulo Caetano, um dos programadores dos robôs-jogadores | Foto: Dagomir Marquezi/Revista Oeste

O objetivo da RoboCup é desenvolver robôs-jogadores com capacidade técnica suficiente para desafiar os campeões humanos da Copa do Mundo de 2050. Mas o futebol não é o único objetivo da RoboCup 2026. Competições paralelas vão colocar em disputa robôs de operação industrial, de salvamento, de trabalhos domésticos.

Marcos passa seus dias aplicando matemática avançada para instruir e treinar seus jogadores humanoides. “Quando a gente enfia o dedo na tomada”, disse ele numa palestra, “aprendemos que dá choque e evitamos cometer o mesmo erro. Os robôs não aprendem por si mesmos. Temos que ensinar cada detalhe e repetir dez milhões de vezes”. O corpo dos robôs-jogadores veio da China. Mas toda a sua programação é feita aqui.

Marcos pertence a uma comunidade de jovens disciplinados, conectados com o que existe de mais avançado em tecnologia de inteligência artificial. Eles não querem apenas aprender a teoria. Possuem a ambição necessária para transformar seus conhecimentos em empresas e, portanto, em riqueza. 

Hoje o centro mais desenvolvido de educação de IA está em Goiânia, capital de Goiás, o Estado do agro. O contraste é evidente. Centenas de estudantes, professores — e robôs — passaram três dias reunidos em palestras e atividades práticas para aprender os segredos da criação de “agentes” de IA. O evento Conecta foi produzido pelo Ceia, o Centro de Excelência em Inteligência Artificial, da Universidade Federal de Goiás, em parceria com a AIBrasil.

O orçamento de um minuto

O Ceia foi criado em 2019, unindo universidades e iniciativa privada, com apoio do setor público, estadual e federal. O objetivo é capacitar e formar estudantes para o potencial infinito da IA, visando ao seu uso prático e economicamente sustentável. Mais do que estudar, eles estão plantando sementes de empresas que já estão presentes nas vidas de 75% dos brasileiros, mesmo que a gente não tenha consciência disso.

Os números apresentados pelo Ceia são impressionantes: já foram criados 16 projetos e 100 publicações; 609 profissionais estão em formação e quatro mil pessoas foram capacitadas. O Ceia já possibilitou a criação de 73 startups pelo país. Eles estabeleceram conexões com iniciativas semelhantes de EUA, Canadá, Reino Unido, México, Argentina, Austrália, Índia, China, Japão e Portugal. Receberam comitivas de Estônia, Japão, Suécia, Índia e Bélgica.

Este ano, pela primeira vez, o Ceia contou com um dia aberto ao público. No dia 12 de junho, o AI Brasil preparou um dia de palestras para desmistificar a IA e apresentar as aplicações reais da tecnologia. “Existe uma camada estratégica de pesquisa, desenvolvimento e formação de talentos acontecendo dentro do Brasil que precisa ser conectada às empresas e à sociedade. O Ceia Open Day surge justamente para criar essa ponte”, declarou Pedro Chiamulera, fundador do AI Brasil. “Fizemos uma curadoria para trazer palestras e conteúdos voltados para o impacto social, econômico e tecnológico da IA, aproximando o público das aplicações reais que já estão sendo desenvolvidas no país”, completou o co-CEO do AI Brasil, Rodrigo Righetti.

O Ceia hoje está classificado entre os três maiores centros do mundo em número de pesquisadores (1,1 mil), competindo com o Massachusetts Institute of Technology (MIT) e o Mila, do Canadá. É o maior hub de inteligência artificial da América Latina. Não é o mais avançado centro de estudos teóricos de IA do mundo. Mas, em termos de aplicação prática, está na linha de frente. Alguns exemplos:

Cilia — Um dia, um dos professores da UFG bateu o carro. A seguradora pediu que ele tirasse uma foto do estrago para iniciar o longo processo de avaliação e orçamento para o conserto. O professor pensou: “o orçamento podia já estar pronto com a foto”. Reuniu-se com estudantes do Ceia e eles desenvolveram o Cilia.

Com o aplicativo, basta que um tablet registre em imagem os estragos causados no veículo que, em um minuto, o orçamento está pronto. Usando inteligência artificial, o sistema imaginado por um professor num dia infeliz é hoje usado por 97% das seguradoras brasileiras. E se expandiu para um sistema de fornecimento de peças e acompanhamento de trabalho na oficina.

Synkar — Você pede um sanduíche com fritas no seu condomínio. Quando o entregador chega, você se veste, espera o elevador e, até chegar na portaria, o sanduíche está frio e as batatas estão murchas. O Synkar, também inventado a partir de projetos do Ceia, é um carrinho-robô que pega a mercadoria na portaria e leva para seu apartamento. 

Carrinhos robôs entregadores da startup Synkar | Foto: Divulgação/Synkar

Synkars são usados também para movimentar mercadorias entre as lojas de um shopping center, entregar refeições e roupas lavadas aos hóspedes de um hotel, transportar medicamentos e amostras de laboratório num hospital, deslocar peças numa fábrica. Suas dez câmaras garantem que ela vai acertar o caminho até o destino, incluindo entrar em elevadores. É o primeiro robô da América Latina criado para interagir com o público. Já ocupa uma posição entre os top 10 de veículos autônomos do mundo e é exportado para o Canadá e a Irlanda.

Outros projetos estão em desenvolvimento: assistentes para monitoramento de cuidados médicos contínuos, plataforma de marketplace para produtos agropecuários, geração automática de textos jurídicos, planejamento de linha de produção de indústria de móveis etc.

O leitor de pensamentos

“Já estamos no futuro”, garante Arlindo Galvão, um dos diretores do Ceia. O objetivo do Centro, segundo ele, é tirar o Brasil da condição de consumidor passivo de plataformas de IA e transformar o país num produtor de tecnologia avançada. Empresas pagam R$ 30 mil por mês como mensalidade de participação no Ceia. E, com os projetos desenvolvidos, o retorno é, em média, de R$ 235 mil mensais. Essa colaboração universidade-empresa já captou R$ 90 milhões em investimentos de 25 empresas associadas. 

Arlindo Galvão foi o encarregado de contatos internacionais do Ceia e viajou pelos principais centros de desenvolvimento de tecnologia do mundo. Sabe que existe uma boa distância entre nós e eles. Conheceu na sede da Meta o Brain Typing, uma touca com 100 mil eletrodos que lê os pensamentos do usuário e os transforma em texto. Experimentou os óculos de realidade aumentada, em que nossa visão é usada como um mouse.

O Brasil ainda está longe disso. “Se algum dos nossos alunos for trabalhar numa big tech, a gente fracassou”, declarou Raul Sena, o CEO da escola de educação financeira AUVP, em sua palestra. A ideia é que os estudantes permaneçam no Brasil, em empresas criadas aqui — como já está acontecendo. Para isso, não basta criar especialistas. É preciso uma mudança de mentalidade para que o Brasil aceite de vez a revolução criada pela inteligência artificial e se adapte à nova realidade. Essa é a função de Roberta Lucio, especialista em cultura empresarial, e uma das palestrantes da Conecta.

Segundo Roberta, essas grandes transformações vêm em ondas. “Teve a Revolução Industrial, veio a internet e agora a gente está vivendo uma uma terceira grande onda, que é IA”. Essas mudanças, segundo Roberta Lucio, geram uma “dor social”. “As pessoas resistem, sentem medo. E a  principal ferramenta do líder não é a tecnologia, é a consciência. Quando o líder tem consciência de que pode transformar ambientes, o que ele faz transforma o negócio como um todo.” 

Evento CEIA Conecta em Goiânia | Foto: Dagomir Marquezi/Revista Oeste

Olho em Goiânia

O Ceia está fazendo sua parte nesse processo. Abre a consciência de jovens para que se tornem líderes de cabeça aberta, sintonizados com o que há de mais avançado e transformador neste segundo quarto do século 21. Mas o evento do CEIA aponta para outra realidade, surpreendente para quase todos nós. 

Goiânia mostrou que é o nosso Vale do Silício, o equivalente à região da Califórnia onde surgiram as big techs, o ambiente em que a cultura empresarial e econômica está em profunda transformação tecnológica. Como resumiu o empresário Raul Sena: “Goiás é o centro da atividade econômica mais bem-sucedida do Brasil, o agro. E agora é o principal foco do desenvolvimento brasileiro em inteligência artificial. Não tem como dar errado”. 

Leia também “O show do trilhão”

Leia mais sobre:

2 comentários
  1. Mariza
    Mariza

    Amei a vitória dos robos Azuis de 5 sobre os robôs vermelhos no campinho. Espero que aconteça essa mesma vitória em Outubro. Com vitória avassaladora do azul sobre os vermelhos, rsrs.

  2. Mariza
    Mariza

    Imagina Vorcaro usando uma touca que leia seus pensamentos?! A República Bananeira viria abaixo rapidamente, antes das eleições. Assustadoras as possibilidades dessa tecnologia em mãos de sistemas ditatoriais. kkkk

Anterior:
A guerra geopolítica de Trump
Próximo:
Bye Bye Brasil em Paris
publicidade