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A ascensão do canal de Casimiro consolida um novo modelo comercial e de audiência que desafia a hegemonia de décadas da Globo | Foto: Montagem Revista Oeste/Reprodução
Edição 329

O jogo virou

Sucesso de audiência e de engajamento, a CazéTV se destaca na cobertura da Copa do Mundo, que deixa de ter todos os jogos exibidos pela Globo

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Em julho de 2020, durante a pandemia, o jovem Casimiro Miguel, de 27 anos, começou a fazer lives na Twitch, comentando futebol e interagindo com o público, para ajudar financeiramente seus pais. Em pouco mais de um ano, ele aposentou seu pai e alcançou 1,9 milhão de seguidores. A CazéTV, que surgiu em parceria com a LiveMode, tornou-se um concorrente da Globo na transmissão da Copa do Mundo, faturando cerca de R$ 2 bilhões em 2026, igualando-se à emissora tradicional, mas com custos infinitamente menores.

Durante a pandemia, o jovem Casimiro Miguel não saía de casa. Sua obesidade o colocava no grupo de risco. Tinha medo de morrer. Também temia por seu pai, um comerciante que não podia deixar seu ofício. Começou, então, a seguir um caminho autônomo. Passou a fazer lives em seu canal da Twitch, plataforma de transmissões ao vivo da Amazon, em que falava sobre o futebol brasileiro, o Vasco, seu time de coração, e comentava conteúdos (reacts) com leveza e humor. O objetivo era ambicioso: fazer com que os pais não precisassem mais trabalhar. “Perdi gente querida, gente que trabalhava comigo no SBT”, disse ao podcast No Ar com André Henning, em dezembro de 2021. Em pouco mais de um ano, atingiu seu objetivo financeiro. “Consegui aposentar meu pai. É a maior conquista da minha vida.”

Quando iniciou as lives no Twitch, em 8 de julho de 2020, Casimiro tinha 27 anos. Já havia adquirido experiência no canal de TV Esporte Interativo (EI), onde entrou em 2014, como estagiário. Lá, atuou como apresentador e produtor de conteúdo do EI Games, programa dedicado a games e eSports, antes de se tornar um dos rostos do jornalismo esportivo da emissora. Em 2019, foi trabalhar no programa SBT Esportes Rio.

Os primeiros números de sucesso

Em um ano e meio, ele, também conhecido como Cazé ou Casimito, contava com 1,9 milhão de seguidores na Twitch. A soma de seus canais — principal, Cortes do Casimito e Que Papinho! — e de cortes no YouTube àquela altura, meados de 2021, já chegava a 600 milhões de visualizações. Hoje ultrapassam 2,2 bilhões. Em janeiro de 2022, Casimiro quebrou um recorde: 545 mil pessoas entraram simultaneamente na sua live, na qual comentava o primeiro episódio de O Caos Perfeito, documentário da Netflix sobre Neymar.

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Casimiro Miguel, o Cazé, em transmissão na plataforma Twitch | Foto: Reprodução/Twitch

Começava ali uma parte da história que levou um veículo de streaming a tirar da Globo o monopólio na transmissão de uma Copa do Mundo. A outra parte estava sendo gestada em paralelo. Em 2020, enquanto Casimiro ganhava força no Twitch, surgia um novo modelo de comunicação, a partir do YouTube.

Décadas de domínio global

Com o orçamento afetado pela pandemia, a Globo, como tantas outras empresas, precisava reduzir custos. Uma das maneiras era renegociar o acordo de direitos de transmissão das Copas do Mundo. Àquela altura, a emissora detinha a exclusividade dos direitos de transmissão para o Brasil de todos os jogos na competição. 

O público estava acostumado com esse cenário desde 1982. Na Copa daquele ano, para tentar desafiar a hegemonia da empresa de Roberto Marinho, a única alternativa da Record foi criar uma campanha “Olhos na televisão e coração na Rádio Record”, sugerindo ao telespectador abaixar o volume da TV e ouvir a transmissão pelo rádio, na voz de Silvio Luiz.

Mas, na covid, o contrato de US$ 90 milhões, renovado em 2015 e válido para as Copas de 2018 e 2022, tinha prazos de pagamento muito apertados para aquele momento de incerteza. A Globo entrou na Justiça para renegociá-lo. A Fifa, no processo, aceitou um acordo. A emissora, porém, foi obrigada a perder a exclusividade. Deixou, como lembra outro ditado popular, “a bola quicando na boca do gol”.

Fator LiveMode

Com senso de oportunidade, os empresários Edgard Diniz e Sérgio Lopes, proprietários da empresa de gestão de direitos esportivos LiveMode, perceberam que era o momento de inaugurar transmissões por plataformas digitais.

A trajetória de ambos foi marcada, desde 1999, por temas ligados à infraestrutura do futebol: atuaram com marketing esportivo e consultoria de gestão, como proprietários da TopSports. Chegaram a atuar na reestruturação do Esporte Clube Vitória e na organização da Copa do Nordeste. Em 2004, ampliaram as atividades para transmissão de jogos.

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Edgar Diniz e Sergio Lopes são os donos da LiveMode | Foto: Divulgação/Endeavor

A empresa passou a comprar direitos de campeonatos e exibi-los em faixas arrendadas na televisão aberta, principalmente na RedeTV! e na TV Bandeirantes. Surgia, então, a marca Esporte Interativo. Em 2007, o EI se tornou um canal de televisão independente. O objetivo era mudar a lógica das transmissões.

Diniz e Lopes queriam oferecer ao público uma opção sintonizada com os novos tempos. Baseada em uma linguagem descontraída, sem o formalismo da TV tradicional. O ritmo das transmissões ao vivo deveria ter um caráter interativo. Era o prenúncio da integração entre esporte e internet, antes mesmo do fortalecimento das redes sociais. Era a base do que, anos depois, se tornou a CazéTV.

Em 2020, a Globo não se sentia ameaçada, apesar da crise. O monopólio da TV aberta estava mantido. A exclusividade perdida da Copa era apenas para algumas transmissões em plataformas digitais. Quem iria se interessar? O mercado realmente se assustou. Menos os donos da LiveMode, fundada em 2017 por Diniz e Lopes, dois anos depois da venda do EI para a norte-americana Turner.

Negócios e carisma

Foi então que Casimiro Miguel entrou na história. Seu perfil criativo, descontraído, já era conhecido pelos donos da empresa desde os tempos do Esporte Interativo. O bonachão Casimiro, com a visibilidade já adquirida, era a figura ideal para personificar aquele novo modelo.

Ele já havia participado, em 2020, da transmissão do jogo entre Athletico Paranaense e Vasco, pelo Campeonato Brasileiro, em pay-per-view, realizada pela LiveMode. A empresa foi praticamente a única interessada no pacote de 22 jogos da Copa do Mundo de 2022, no Catar, por US$ 3 milhões.

De uma oportunidade aberta com a desistência da Globo, surgia a CazéTV. No início, o veículo era sustentado pela parceria entre Casimiro e a LiveMode, que detinha 51%. Quase quatro anos depois, na Copa de 2026, a CazéTV se tornou o principal concorrente da outrora gigante das transmissões.

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Casimiro Miguel no estúdio da CazéTV | Foto: Divulgação/CazéTV

A LiveMode adquiriu 100% da CazéTV em novembro de 2025. A companhia se fortaleceu. Em 2024, a General Atlantic (empresa de investimento global) e a XP Private Equity, área de investimentos da XP, compraram fatias minoritárias da LiveMode, para aumentar seu impacto no mercado de esportes e mídia.

Dinheiro com a Copa

Casimiro então deixou de ser sócio da CazéTV para se tornar sócio da holding, que estava com fôlego suficiente para comprar os direitos da Copa de 2026. A negociação também contou com parceria do YouTube, como plataforma de distribuição. Os valores da compra não foram divulgados, mas, com 11 patrocinadores, estima-se que o faturamento tenha sido de cerca de R$ 2 bilhões. A CazéTV foi a única a obter a exclusividade na transmissão dos 104 jogos no Brasil.

O Grupo Globo — que inclui a TV aberta, o SporTV e as plataformas digitais (Globoplay e GE TV) — assegurou os direitos para exibir 55 dos 104 jogos. O SBT garantiu o direito de transmitir 32 partidas.

Análises de mercado indicam faturamento de cerca de R$ 2 bilhões do Grupo Globo com as vendas de cotas de patrocínio para a Copa do Mundo, o mesmo valor da CazéTV. “Esse é o aspecto mais importante de toda essa mudança. A CazéTV tem menos de quatro anos de vida e um faturamento nessa Copa do Mundo, curiosamente, igual à tradicionalíssima TV Globo”, afirma Paulo Beltrão, executivo do mercado publicitário digital e proprietário da plataforma Network Media. “A diferença é que o canal do Casimiro Miguel tem custos infinitamente menores, equipe enxuta, não tem afiliadas, diversos outros núcleos como jornalismo e dramaturgia, por exemplo.”

O grande negócio verificado nesta Copa foi o ecossistema criado pela LiveMode, que está transformando, segundo Beltrão, a maneira de se transmitir grandes eventos. “A LiveMode entendeu antes de muita gente que o futuro das transmissões esportivas não está apenas em comprar direitos, mas em construir um modelo de negócio completo”, ressalta o especialista. “Ela conecta conteúdo, tecnologia, distribuição e publicidade de uma forma muito eficiente.”

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Equipe da CazéTV, da esquerda para a direita: Casimiro Miguel, Juliana Cabral, Luís Felipe Freitas e Fernando Campos | Foto: Reprodução/YouTube/CazéTV

Com mais de dez anos dedicados ao setor de marketing de influência, Rafael Arty também destaca o êxito comercial da CazéTV. Um sucesso que se mantém, afirma o especialista, apesar da polêmica envolvendo parcerias com casas de apostas esportivas, as populares bets.

“Comercialmente, o modelo da CazéTV nesta Copa foi agressivo e funcionou — mas com custo reputacional claro. As bets dominam 35,8% de todas as menções a marcas associadas ao canal”, afirma Arty, que é diretor comercial da Timelens, empresa especialista em dados e pesquisa digital. “Dito isso, marcas como iFood, Chevrolet e Brahma aparecem associadas à CazéTV com sentimento positivo, o que mostra que o espaço para anunciantes além das bets existe e tende a se expandir.”

Público abraça a mudança

A CazéTV viu o povo abraçar a mudança no consumo da Copa do Mundo. Em 10 de junho, véspera da abertura da competição, o canal sob comando de Casimiro Miguel tinha 28 milhões de inscritos, conforme registro da plataforma Social Blade. Até o fim da tarde desta quinta-feira, 2, o número de inscrições havia saltado para mais de 37 milhões.

O número de inscritos se converteu em potencialização da audiência. Somente nos últimos 30 dias, a CazéTV soma mais de um bilhão de visualizações. Com direito a recorde. No jogo em que o Brasil eliminou o Japão, na fase de 16 avos de final, a transmissão chegou a ser vista simultaneamente por 21 milhões de aparelhos conectados. É a maior audiência da história do YouTube em todo o planeta.

Mais do que isso. Segundo dados do próprio YouTube, a CazéTV domina o top 10 de maiores audiências simultâneas da plataforma. Todas ocorreram por causa da Copa. Além de jogos do Brasil, há na lista partidas envolvendo outras seleções, como o confronto em que Marrocos eliminou a Holanda. Nesta quinta-feira, o canal anunciou outra marca: acesso de 100 milhões de diferentes aparelhos durante as transmissões do torneio.

Delay x exclusividade

Diante do fato de a CazéTV crescer em razão da cobertura da Copa do Mundo, a Globo se movimentou para tentar o trunfo da agilidade. Isso porque, nos jogos que contam com transmissões das duas empresas, o sinal do YouTube, em razão da internet, tem cerca de 15 segundos de atraso. É o chamado delay — e que fez com que a emissora da família Marinho promovesse campanha para o público comprar antenas digitais de televisão. “Tem gente descobrindo o gol pelo grito do vizinho”, ironizou a Globo, em postagem na rede social X. Parte do público, contudo, mencionou que há jogos que a emissora não exibe.

Com o delay citado pela rival, a CazéTV também usou de ironia. Em atração sob comando de Casimiro, o canal apresentou sugestões de filmes que a Globo deveria exibir na última segunda-feira, 29, na Tela Quente, no horário em que a CazéTV exibiria com exclusividade mais um jogo da Copa do Mundo, justamente Marrocos versus Holanda.

Se por um lado a internet convive com o delay, por outro há a precisão de dados em tempo real. Algo que, ressalta Arty, o Ibope nunca conseguiu oferecer na televisão, gerando apenas estimativas de audiência por faixa horária. Situação que pode fazer com que, cada vez mais, o mercado publicitário olhe com bons olhos para o ambiente online. “Um anunciante que patrocinou a CazéTV nesta Copa pode saber exatamente quantas pessoas assistiram, por quanto tempo, em que momento do jogo viram o anúncio e o que fizeram depois.”

Sucesso comercial e de audiência, além de engajamento elevado, a CazéTV mostra, com números e jogos exclusivos da Copa, que uma nova era se consolidou na comunicação — e que não será afetada por segundos de delay nem pela concorrência dançando num sofá para tentar atrair a atenção do público jovem.

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