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Durante as cheias do Rio Taboco, a fazenda de Gabriel Alves Ribeiro, em Aquidauana, MS, é uma das poucas áreas poupadas das inundações. Gabriel, que faz parte da quinta geração de produtores, ensina seus filhos, Matheus e Alícia, sobre a importância do manejo tradicional pantaneiro, que inclui a queima controlada para evitar incêndios. Apesar de críticas de ambientalistas e da burocracia governamental, essa técnica é vista como essencial para a preservação do bioma e a manutenção da pecuária.
Na época das cheias do Rio Taboco, a água cobre quilômetros além das margens e inunda até as imediações da sede da fazenda de Gabriel Alves Ribeiro, 56 anos, em Aquidauana, no interior de Mato Grosso do Sul. “A casa construída por meu tataravô é um dos poucos lugares poupados”, diz o pecuarista. “Antes de erguê-la, meu ancestral passou anos observando os movimentos da natureza e como o gado se comportava nas cheias para entender qual seria o melhor ponto da propriedade para morar. Os animais se acomodam justamente nos pontos livres de alagamento.” Gabriel é a quinta geração de produtores rurais à frente da propriedade. Os filhos, Matheus, 20 anos, e Alícia, 16 anos, pretendem seguir pelo mesmo caminho. O primogênito cursa agronomia em Campo Grande, capital do Estado. Embora goste dos aspectos práticos do negócio, pretende se dedicar mais às partes estratégicas. “Quero focar na gestão e nas inovações que podemos fazer”, comenta. A garota prefere a lida, as questões técnicas e operacionais. Ela pretende ingressar na faculdade de zootecnia no fim de 2026, quando concluir o ensino médio. Embora seja notadamente urbana, orgulhosa de fazer aulas de balé desde os 2 anos de idade e goste de frequentar shoppings, visita constantemente a fazenda.
A disposição para a lida fica evidente quando Alícia está no pasto envolvida com o gado, e não é apenas pela facilidade para montar no cavalo ou pela intimidade com a criação. Se percebe algo fora do lugar, não se acanha e põe a mão na massa. Ao avistar um tatu dormindo no cocho onde os animais se alimentam, tirou o bicho com todo o cuidado para não o ferir e o fez com absoluta habilidade. A inspiração vem do pai. “Quero seguir esse legado porque o admiro demais”, explica. “Gosto de como a fazenda funciona e dos animais silvestres que estão aqui. A gente produz e preserva os pássaros, os cervos, as capivaras e as onças. Tudo isso é lindo.”

Produzir com respeito à natureza mantém a família há gerações sobre a mesma terra. A fazenda existe desde 1827 e, como rio, chama-se Taboco. Hoje, são 17 mil hectares sob os cuidados de Gabriel. Os antepassados dele chegaram a possuir 430 mil hectares, quase três vezes a área da cidade de São Paulo. Ao longo do tempo, a propriedade foi repartida entre os herdeiros. Hoje, os vizinhos de Gabriel são os primos e a irmã. A constância à frente do negócio é uma característica no mínimo peculiar no Brasil, país onde nem a monarquia resistiu à terceira geração. No Estado, a permanência de áreas nas mãos de membros das mesmas famílias há séculos é recorrente e funciona num equilíbrio tênue entre preservação e produção.
Ainda assim, muitos ambientalistas se recusam a aceitar as técnicas ancestrais, o chamado manejo tradicional pantaneiro. A queima da vegetação seca está entre os pontos de maior tensão. O homem do campo aprendeu a necessidade de usar o fogo na época certa, provocando pequenos focos controlados para evitar incêndios maiores. Quem não compreende a técnica imagina que fogo serve somente para destruição, mas os estudiosos do assunto atestam exatamente o contrário, conforme explica o zootecnista Urbano de Abreu, pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) nascido e criado na região.
“Depois do período das chuvas, a vegetação seca começa a se acumular”, afirma. “Quanto mais desse material inflamável, pior para controlar o incêndio. Para evitar o desastre, os pantaneiros passaram a fazer a incineração antes de formar grandes quantidades e nos períodos com umidade suficiente para não perder o controle sobre o fogo. É um conhecimento passado de geração em geração, aprendido na prática, feito justamente para preservar o equilíbrio do bioma sem o qual não se cria gado no Pantanal.”

Os animais se alimentam de pastagem. As plantas dependem da fertilidade da terra para brotar e se desenvolver ao ponto de se tornarem ricas em nutrientes para os bichos, mas o solo precisa do ciclo das águas para ser fértil. O tripé, mais do que qualquer legislação, faz a pecuária local se manter em linha com a natureza. Quem romper esse ciclo se arrisca a tornar a manutenção dos rebanhos inviável, o que deixaria as fazendas inviáveis e esgotaria a sobrevivência das famílias, bem como o legado delas.
“O pantaneiro combate o incêndio descontrolado porque ele causa um prejuízo extremo”, afirma Abreu. “A queima preventiva serve justamente para isso e tanto mantém o homem na região quanto preserva o bioma. A pecuária nessa parte do país teve início muito antes de qualquer legislação para cuidados ambientais. Documentos atestam a existência da atividade por ali desde 1737. Ao longo dos séculos, a área passou quase completamente para os agricultores. Ainda assim, mais de 80% do território continua com cobertura nativa e a fauna prospera com exuberância.”

Mesmo com esses resultados, por anos, os ambientalistas que não são da região levaram a melhor na queda de braço com os produtores. O desprezo pelas técnicas tradicionais para implantar o receituário de quem veio de fora aumentou a degradação, explica Nilson de Barros, que foi chefe da Embrapa Pantanal e secretário do Meio Ambiente do Governo de Mato Grosso do Sul. “Em 2020, foram aplicadas regras mais restritivas ao uso da queima controlada e, a partir daí, os incêndios aumentaram”, relata. “A situação melhorou depois que o governo estadual tornou o processo menos inflexível. Mas ainda é difícil usar a técnica por causa do excesso de burocracia. O Estado não tem agentes suficientes para viabilizar o conjunto de normas que ele quer aplicar e as licenças para o uso do fogo acabam sendo concedidas depois do período adequado para controlá-lo, o que impede o uso da técnica com segurança.”
Nilson também dirigiu a Sociedade de Defesa do Pantanal (Sodepan). Criado em meados da década de 1980, o órgão promove a interação humana com a fauna e flora da região de modo harmonioso. Uma pesquisa recente da instituição mostra que os incêndios são piores justamente nas áreas nas quais a presença da pecuária é menor. A partir dali, o fogo se espalha. Marcelo Rondon Barros, atual presidente da entidade, explica o motivo. “Onde o homem tem acesso e pratica a pecuária, existe a limpeza dos pastos, a retirada de matéria orgânica e inflamável, que é alimento para o animal. Nos outros lugares, esse processo depende do acaso e, sobre a vegetação seca, o fogo pode começar, inclusive de forma espontânea, e se alastrar.”

Os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) coletados nos últimos 28 anos comprovam que quanto maior a estiagem, pior o fogo. Em 2020, depois de quatro anos de chuvas muito abaixo da média, e com a morosidade na concessão de licenças para a queima controlada, o bioma virou um mar de fogo. Os satélites registraram 22 mil focos de calor, o que é praticamente igual à soma dos quatro anos anteriores. Depois de o fogo ter consumido toda a matéria orgânica inflamável acumulada, os números caíram. Foram 8 mil focos em 2021 e menos de 2 mil em 2023. Mas a seca voltou e o entrave burocrático continuou, formando o combustível perfeito para o aumento nos anos seguintes, com os mais de 6 mil focos de 2024 e os 14 mil de 2025 — o segundo resultado mais dramático da série histórica.
“Entendemos a necessidade das licenças e da fiscalização, não queremos eliminá-las”, diz o presidente da Sodepan. “O que defendemos é a existência de períodos com menos restrições durante o ano, nas épocas de maior umidade, para possibilitar a queima controlada nos momentos corretos, evitando o acúmulo do capim seco nos períodos de estiagem, o que é altamente inflamável.”

Para serem ouvidos, produtores de Mato Grosso do Sul fundaram a ONG Pecuária Tropical pelo Clima. “Somos um exemplo para o mundo do ponto de vista ambiental”, diz Leonardo Leite de Barros, um dos líderes. De acordo com a instituição, o país abriga vários modelos virtuosos para a criação de gado no Pantanal, sempre adaptados às condições de cada lugar. Barros, por exemplo, gere a propriedade de modo orgânico. Os cuidados com a saúde dos animais são realizados com homeopatia, e a queima controlada também é vista por ele como ferramenta de vital importância. Oriundo de família há gerações na região, resume a situação:
“Meus antepassados, assim como de tantos outros amigos, chegaram na época dos bandeirantes e expandiram as fronteiras do território. A ideia era achar ouro. Quem encontrou, voltou rico para a Europa. Os que não tiveram essa sorte foram guiados pelo próprio gado para os campos abertos do Pantanal, onde encontraram pastagens naturais e sobre elas ficaram. Aprendemos a aproveitar a força da natureza e nunca lutar contra ela. É o conhecimento acumulado nos séculos. Queremos apenas que nossos conhecimentos empíricos sejam auxílio à ciência, mas não nos deixam”.

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