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Durante a mobilização contra a austeridade na França, o símbolo de liberdade do mangá ganha as ruas no protesto que reuniu milhares de jovens | Foto: Jeremie Lusseau/Hans Lucas/Reuters
Edição 330

A bandeira da liberdade

One Piece, um mangá publicado desde 1997, tornou-se uma das obras mais influentes da cultura pop e virou símbolo de protestos em diversos países

Confira o resumo que a OESTE.IA, a IA da Revista Oeste, fez pra você

Em 2025, a caveira dos Chapéus de Palha, do mangá japonês "One Piece", tornou-se símbolo de protestos globais, em países como Indonésia, França, Nepal, Filipinas e Madagascar, unindo a geração Z em seu descontentamento em relação às elites políticas e a autoritarismos. A obra de Eiichiro Oda, publicada desde 1997, apresenta uma narrativa em que disputas políticas são centrais, abordando temas como liberdade e opressão, sem dividir personagens entre heróis e vilões.

A caveira de olhos redondos, chapéu de palha e ossos cruzados apareceu em cartazes, bandeiras e fotos de protestos em diversos países em 2025. Não era símbolo de partido nem emblema nacional. Vinha de um mangá japonês publicado desde 1997: One Piece, de Eiichiro Oda.

A caveira é a insígnia dos Chapéus de Palha, um grupo de piratas liderado por Monkey D. Luffy, protagonista da série. Ao longo da história, a tripulação cruza oceanos para enfrentar monarcas, aristocratas e ditadores. Embora seja o líder, Luffy nunca demonstra interesse em governar. Seu objetivo é tornar-se o Rei dos Piratas. Em One Piece, esse título é reservado ao homem mais livre do mundo.

A bandeira dos Chapéus de Palha surgiu em manifestações na Indonésia, França, Nepal, Filipinas e Madagascar. Entre a Geração Z, formada por pessoas nascidas entre meados dos anos 1990 e o começo dos anos 2010, o emblema tornou-se uma forma de expressar descontentamento em relação aos políticos, unindo jovens separados por milhares de quilômetros em torno de um mesmo símbolo de liberdade. Na Indonésia, jovens protestavam contra o aumento do custo de vida, contra os privilégios da elite política e contra projetos considerados nocivos às liberdades civis. Na França, estudantes reagiam aos cortes orçamentários promovidos pelo governo de Emmanuel Macron. No Nepal, manifestações denunciavam corrupção e cobravam reformas constitucionais. Em Madagascar, a insatisfação explodiu em meio à crise de abastecimento de água e energia.

Notícia publicada na Oeste (25/9/2025) | Foto: Reprodução/Oeste

Esse fenômeno chamou a atenção de críticos culturais e analistas políticos. Afinal, não era a primeira vez que personagens da ficção inspiravam manifestações, mas raramente um símbolo criado para uma história em quadrinhos japonesa alcançava dimensão tão ampla e em regiões com realidades tão distintas. Era preciso entender por que justamente One Piece havia se tornado esse símbolo.

O diferencial do mangá

A explicação está na própria obra. Em quase três décadas de publicação, Oda construiu um universo onde disputas políticas atravessam a narrativa, ainda que sob a forma de aventura. Cada arco apresenta uma sociedade diferente, marcada por formas particulares de censura, autoritarismo e escravidão.

Em Alabasta, reino sob regime monárquico, um pirata conduz o país à guerra civil ao manipular a população. Em Water Seven, cidade marcada por disputas políticas, e em Enies Lobby, ilha controlada pelo Governo Mundial, Oda mostra como a lei pode ser usada para legitimar a perseguição a dissidentes. Em Dressrosa, reino dominado por um tirano, a memória coletiva e a informação são distorcidas para sustentar a ditadura. Já em Wano, país isolado do restante do mundo, um regime autoritário mantém os habitantes sob exploração e violência. Luffy derrota os algozes, rompe estruturas de dominação e segue viagem. Ele não permanece para administrar os países que ajuda a libertar.

Ao longo de mais de mil capítulos, Oda evita dividir reis, piratas, marinheiros e revolucionários entre heróis e vilões. Há monarcas que põem a população acima dos próprios interesses e outros que dominam pelo terror. A Marinha, força militar subordinada ao Governo Mundial, reúne oficiais dispostos a proteger inocentes, mas também homens que executam ordens injustas em nome da lei. Entre os piratas, convivem personagens movidos pelo desejo de liberdade e criminosos que recorrem à violência para alcançar seus objetivos.

Essa ambiguidade é um dos pilares da série. Em One Piece, o problema quase nunca está nas instituições em si, mas na forma como exercem a autoridade. Ela deixa de ser legítima apenas quando se transforma em instrumento de opressão. É por esse motivo que Luffy nunca escolhe os aliados pela posição que ocupam. Em um arco, enfrenta um rei; no seguinte, luta ao lado de outro. Confronta marinheiros corruptos, mas também estabelece alianças com oficiais da própria Marinha. O critério nunca é o cargo, e sim a maneira como cada personagem exerce a autoridade.

“Oda nos convida a julgar as pessoas por suas ações, e não pelos rótulos que carregam”, avalia Daniel Tanan, mestre em cinema pela Universidade Federal de Sergipe (UFS). “A liberdade ocupa papel central nessa mensagem. Ela permite que as pessoas possam viver com dignidade, perseguir seus sonhos e escolher o próprio destino.”

A recusa em dividir o mundo entre heróis e vilões prepara o terreno para a principal estrutura política da série: o Governo Mundial. Criada para preservar a paz entre dezenas de reinos, essa instituição concentra poderes que vão da perseguição a dissidentes à destruição de ilhas consideradas uma ameaça à ordem estabelecida.

No universo de One Piece, a bandeira da maior coalizão política do planeta sintetiza a manutenção do status quo e a força da ordem vigente | Foto: Reprodução

Inspiração na literatura clássica

É nesse ponto que One Piece abandona a condição de simples aventura marítima para discutir temas mais profundos. No universo criado por Oda, existe um período conhecido como Século Perdido, intervalo de 100 anos cuja história foi deliberadamente apagada dos registros oficiais. Quase ninguém sabe o que ocorreu naquele tempo. Pesquisar o passado é proibido. Livros são destruídos, estudiosos são perseguidos e qualquer tentativa de revisitar fatos históricos é tratada como ameaça ao Estado.

Uma das personagens do mangá, a arqueóloga Nico Robin, carrega esse conflito desde a infância. Sobrevivente da destruição de Ohara, ilha dedicada ao estudo da história antiga, Nico cresce sendo caçada pelo Governo Mundial apenas por possuir o conhecimento necessário para decifrar os Poneglyphs, gigantescos blocos de pedra espalhados pelo mundo que preservam fragmentos da história apagada.

A discussão sobre o controle do pensamento aproxima One Piece de obras clássicas da literatura mais do que de mangás japoneses. A censura, o apagamento deliberado de documentos, a manipulação da memória coletiva e a fabricação de versões oficiais da história são temas recorrentes em romances distópicos, como 1984, do romancista George Orwell, e Admirável Mundo Novo, do escritor Aldous Huxley. Oda os incorpora à narrativa sem abandonar o humor, a aventura ou as batalhas características do gênero shonen, dedicado ao público adolescente.

Para o jornalista e ensaísta peruano J.J. Maldonado, autor do livro Uma Galáxia Pop Chamada One Piece, o mangá transcende as críticas superficiais ao autoritarismo. “A obra não denuncia apenas os tiranos, mas todos os sistemas que transformam a obediência em virtude e a violência em ordem”, analisa. “Oda mostra que toda forma de dominação precisa controlar a narrativa histórica para se manter viva.”

Essa capacidade de incorporar discussões universais sem abrir mão da aventura talvez explique a longevidade do mangá. Publicado desde 1997, One Piece atravessou diferentes gerações sem perder a atualidade porque seus conflitos não dependem de um contexto político específico. Mudam os cenários, os uniformes e os governantes, mas permanecem questões universais: quem exerce o poder, em benefício de quem e até onde uma sociedade está disposta a renunciar à liberdade em nome de uma suposta ordem.

Para o ensaísta J.J. Maldonado, One Piece transcende a aventura ao expor como os sistemas de dominação controlam a história e transformam a obediência em virtude | Foto: Reuters/Luis Cortes

Oda evita oferecer respostas fechadas. Não há, na série, uma defesa explícita de qualquer corrente política. Tampouco há personagens que possam ser enquadrados de forma confortável em categorias como “direita” ou “esquerda”. O interesse do autor parece estar menos nas ideologias e mais nos efeitos concretos do poder sobre indivíduos e comunidades.

Essa abertura a múltiplas interpretações ajuda a explicar por que One Piece se tornou uma referência para grupos tão diferentes. Enquanto alguns leitores veem em Luffy um símbolo de resistência ao autoritarismo, outros destacam sua defesa da autonomia individual. Há quem enfatize a crítica ao colonialismo e ao racismo; outros preferem interpretar a série como uma celebração da amizade, da dignidade humana ou da coragem diante da injustiça. Nenhuma dessas leituras esgota One Piece. Todas encontram respaldo em diferentes momentos da narrativa.

Foi assim que a caveira de chapéu de palha deixou de pertencer apenas aos quadrinhos. Quando apareceu em cartazes improvisados, empunhados por jovens em diferentes partes do mundo, esse símbolo já carregava quase 30 anos de uma história construída em torno da liberdade. Não representava partidos, governos nem ideologias. Remetia a uma pergunta que atravessa toda a obra e continua encontrando eco fora das páginas de One Piece: quem deve ter o direito de decidir o próprio destino?

A caveira com chapéu de palha transcende os quadrinhos e se consolida em protestos pelo mundo como um símbolo universal de liberdade | Foto: Algi Febri Sugita/ZUMA Press Wire/Reuters

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