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Na Copa do Mundo de 2026, o Brasil foi eliminado nas oitavas de final pela Noruega, perdendo por 2 a 1, a pior campanha desde 1990. O jogo evidenciou a apatia da seleção e a incapacidade do país de aprender com suas experiências passadas, refletindo problemas institucionais mais profundos. A gestão do futebol, influenciada por práticas corruptas e nepotismo, espelha a deterioração de outras instituições nacionais.
Em 2018, na Copa imediatamente posterior à do vexame do 7 a 1, já restava claro: o brasileiro havia se tornado estruturalmente incapaz de aprender com a própria experiência, condenado a recomeçar, a cada quatro anos, o mesmo ciclo de autoilusão coletiva — como se o tempo, para nós, não acumulasse sabedoria, apenas se repetisse em círculo. Pois domingo passado, no MetLife Stadium, em Nova Jersey, isso se confirmou de um jeito mais grave do que o previsto. Não foi só a fantasia habitual que ruiu outra vez. Ruiu definitivamente, também, o último consolo que ainda nos restava: o de que o futebol, em meio a tantas instituições nacionais em decomposição, seria um território incorruptível, protegido por sua própria excelência técnica da lei geral da entropia brasileira.
Perdemos para a Noruega por 2 a 1 nas oitavas de final — a eliminação mais precoce em 36 anos, desde que a Argentina de Maradona e Caniggia nos despachou, também nas oitavas, em 1990. Bruno Guimarães desperdiçou um pênalti aos 12 minutos; tal qual um grande predador, Haaland poupou energia ao longo da maior parte do jogo, até que, com gestos brutalmente minimalistas, resolveu tudo com uma cabeçada e um chute; Neymar descontou tarde demais, já nos acréscimos, num ato que ao menos coroa uma trajetória de gols importantes pela seleção. É a pior campanha do Brasil num Mundial desde a queda de 1990, e, mais uma vez, foi mantido o desgraçado histórico contra a Noruega: três derrotas e dois empates em cinco confrontos. Um tabu que nem o autoproclamado “país do futebol” foi capaz de romper.

Embora a apatia do time em campo tenha sido digna de nota, seria cômodo refugiarmo-nos na retórica da “falta de raça”, apontar o fato (também verdadeiro) de uma geração futebolisticamente fraca, ou condenar o técnico estrangeiro por não ter compreendido a alma nacional (porque, nesse caso, quem não o terá compreendido foi justamente quem o contratou). Isso seria repetir o mesmo erro: tratar como crise aquilo que já se tornou crônico. Há uma diferença essencial, que o colunismo esportivo brasileiro geralmente ignora, entre explicar uma derrota e compreendê-la. A compreensão, no presente estado de coisas, exigiria admitir que os problemas da seleção em campo são reflexos de um mal institucional mais profundo — e institucional, aqui, em sentido amplo: não apenas os organogramas formais, mas o conjunto de práticas, cumplicidades e hierarquias informais de poder que decidem, na prática, quem manda em cada esfera da vida nacional.
O Brasil não ergue uma taça de Copa do Mundo desde 2002 — e o helicoide dessas ausências desenha o mapa dos anos petistas. Sob governos do PT, a seleção amargou o vexame das quartas de final em 2006 e 2010, viveu o trauma fundador do 7 a 1 em 2014 — dentro de casa, diante do mundo inteiro, sob a presidência da Mulher Sapiens —, e agora, sob o terceiro mandato do Descondenado-em-chefe, coroa a sequência com a eliminação mais precoce em 36 anos. O partido que construiu sua mitologia em torno da promessa de devolver ao Brasil orgulho, grandeza e lugar de destaque no concerto das nações é, com uma ironia que a história parece se comprazer em sublinhar, o mesmo sob cuja sombra o símbolo mais universal dessa grandeza entrou no maior jejum de sua trajetória. Não é preciso acreditar em fantasmas para reconhecer o óbvio: o PT trouxe para dentro da administração do futebol exatamente o mesmo espírito que sempre marcou sua gestão da coisa pública — o improviso travestido de ousadia, o discurso inflado substituindo o planejamento, o aparelhamento ideológico corroendo silenciosamente o mérito técnico.

Porque o que o petismo promoveu, ao longo de duas décadas quase ininterruptas no comando do país, não foi apenas má gestão — foi uma corrupção moral de espectro alargado, que começou nos cofres públicos e terminou infiltrada na própria alma nacional. O Mensalão, o Petrolão, a Lava Jato interrompida a golpes de habeas corpus e amizades togadas: cada escândalo não foi incidente isolado, mas capítulo de um mesmo projeto de dissolução das fronteiras entre público e privado, entre Estado e partido, entre o que é de todos e o que é de alguns. Corrompeu-se a política, corrompeu-se a Justiça, corrompeu-se a universidade, corrompeu-se a própria linguagem com que o país aprendeu a nomear o certo e o errado — e, ao fim dessa longa cadeia de degradação, não sobrou instituição nacional que pudesse se dizer incólume.
Nem o futebol. Até ele, que por tanto tempo pareceu blindado pela excelência técnica de nossos jogadores, transformou-se no último andar do prédio a ruir. Não é surpresa que a mesma engenharia de aparelhamento que loteou estatais e agências reguladoras tenha, mais cedo ou mais tarde, encontrado seu caminho até a CBF: onde o Estado petista lotou diretorias com apadrinhados, o futebol lotou departamentos com sobrenomes; onde um lotou empresas públicas de ideologia, o outro lotou clubes de dívida e apostas. A receita é a mesma, só muda a fachada.
Enquanto a seleção afundava em campo, nos bastidores da CBF consolidava-se uma trama digna do nosso bom e velho patrimonialismo: Francisco Mendes, filho do ministro do STF Gilmar Mendes, ampliou sua influência sobre a entidade sem jamais ter sido eleito para cargo algum. Dirige o IDP — instituto fundado pelo próprio pai —, que administra contratos milionários com a CBF Academy; ocupa cadeira na comissão disciplinar da Fifa; e, segundo relatos de bastidor, chegou a atribuir a si mesmo, em rodas mais informais, o mérito da convocação de Neymar para este Mundial. Não é irrelevante que seu nome desponte hoje como o mais cotado para suceder Samir Xaud na presidência da confederação. Eis o retrato acabado da aristocracia informal brasileira, aquela que Raymundo Faoro viu germinar nos estamentos do Estado patrimonial: não se governa por eleição ou por mérito, mas por proximidade de sangue com quem, em tese, deveria fiscalizar — e não participar do jogo que fiscaliza.

Se a politização opaca corrói a cúpula, a base sangra por outra ferida, não menos purulenta: o dinheiro das casas de apostas. O mesmo Estado que legalizou e passou a taxar pesadamente as bets — enchendo os cofres públicos com o imposto do vício alheio, naquela hipocrisia tão típica dos nossos virtuosos de palanque — finge escandalizar-se diante da enxurrada publicitária que ele próprio autorizou. Enquanto isso, a disputa comercial entre os blocos Libra e FFU pela nova liga única expõe um mercado dominado por fundos que compram e vendem direitos de transmissão dos dois lados da mesma mesa. Clubes pequenos, endividados, vendem pedaços de si mesmos a fundos milionários e mal percebem que assinaram, no ato, sua própria sentença de irrelevância histórica.
É tentador separar essas duas histórias — a técnica, dentro de campo, e a institucional, fora dele — como acontecimentos meramente paralelos que, por acaso, coincidiram no calendário. Mas não são. São a mesma história, contada em dois registros distintos da mesma partitura. O futebol brasileiro era, até há pouco, o último reduto em que o país ainda parecia saber fazer alguma coisa bem-feita, blindado — acreditávamos — pelo talento natural de sucessivas gerações de craques. Era o território daquilo que Nélson Rodrigues descrevia, com sua ironia particular, como o avesso exato do complexo de vira-lata: ali, ao menos, nos sentíamos gigantes entre gigantes, e podíamos exportar essa sensação de grandeza para compensar tantas outras em que ela nos faltava. Descobrimos agora, da pior maneira, que nem essa excelência sobrevive incólume quando as instituições que a administram são tomadas pela mesma lógica de aparelhamento, opacidade e extração de renda que já destruiu tantas outras esferas da vida nacional — do Judiciário ao mercado financeiro, da imprensa à universidade.
Há, é verdade, algo de nostalgia estrutural nessa decadência: o eterno romantismo brasileiro em relação à bola, aquela crença quase religiosa de que bastaria “confiar no talento natural”, que o drible individual haveria de vencer o planejamento coletivo, que a criatividade bastaria onde falta estrutura. Mas nunca essa crença soou tão extemporânea como hoje, porque, na média, o jogador brasileiro é atualmente um europeu de segunda prateleira, não se destacando nem pela disciplina tática, nem pelo talento.
Vimos isso em campo: um time até capaz de criar boas chances por conta de individualidades, e ainda assim afundando na mesma afobação impaciente que caracteriza, em escala ampliada, um país inteiro incapaz de converter potencial em entrega, talento em resultado, riqueza natural em prosperidade organizada. O bom selvagem de chuteiras segue vivo no imaginário nacional — mas hoje ele calça chuteiras patrocinadas por uma casa de apostas e é escalado por dirigentes que devem seu poder não à competência, mas a um sobrenome de ministro do Supremo.

Não é casual que o Brasil continue perdendo, historicamente, para seleções europeias: 15 das 18 eliminações de nossa história em Copas do Mundo vieram do Velho Continente — onde os responsáveis pelo esporte parecem ter compreendido que planejamento, disciplina e institucionalidade são pré-condição, não obstáculo, para o talento individual florescer. Enquanto isso, por aqui, seguimos tratando estrutura como excesso de zelo burocrático e a desorganização institucional como uma espécie de charme nacional, quase um traço identitário do qual devêssemos nos orgulhar.
Ao fim e ao cabo, o 2 a 1 para a Noruega não foi apenas uma derrota esportiva. Foi a confirmação definitiva de que não existe mais, no Brasil contemporâneo, recanto algum blindado da putrefação geral — nem mesmo aquele em que, por décadas, acreditávamos com toda a inocência sermos os melhores do mundo. O Brasil era o país do futebol. Hoje, sob o regime lulopetista, nem isso nos restou…
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Meu caro e estimado Flávio Gordon, parodiando o icônico “Casablanca” com Humphrey Bogart e Ingrid Bergman, sempre teremos o carnaval, esse sim que passou a representar a alma do Brasil, com sua “irreverência”, depravação, deboche, politicagem, corrupção, fora o resto. Esse sim, é o sentimento que nos representa.