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A inteligência artificial já transforma setores estratégicos da economia e sinaliza que a revolução tecnológica apenas começou | Foto: Montagem revista Oeste/Shutterstock
Edição 329

A IA revoluciona o trabalho

Com a avanço da inteligência artificial, o mundo começa a descobrir que, pela primeira vez, empresas podem crescer sem contratar, ou até demitindo

Confira o resumo que a OESTE.IA, a IA da Revista Oeste, fez pra você

Um gerente de contas do Bradesco, com 22 anos de experiência, foi dispensado em junho de 2025 devido ao fechamento da agência, parte de uma tendência que resultou no fechamento de 1.600 agências bancárias no Brasil em um ano. A inteligência artificial está substituindo cada vez mais o trabalho humano, com os bancos registrando lucros recordes enquanto demitem funcionários. Em 2025, o setor bancário eliminou quase 9 mil postos, refletindo uma queda na participação dos bancários de 80% em 1994 para 42% em 2024.

Um gerente de contas trabalhou durante 22 anos numa agência do Bradesco no interior de Minas Gerais. Conhecia os clientes pelo nome, sabia quais tinham dívidas, reservas, planos de aposentadoria. Era um daqueles profissionais que os bancos gostavam de exibir como prova de que tecnologia e humanidade podiam coexistir. Em junho de 2025, foi demitido. A agência seria fechada. Era a terceira vez em dois anos que isso acontecia naquela rua. Primeiro o Santander, depois o Itaú, agora o Bradesco. Em menos de dois anos, a rua perdeu três bancos, um cartório e uma corretora de seguros, todos substituídos por alguma versão de inteligência artificial.

Durante mais de dois séculos, o capitalismo industrial viveu sustentado por uma certeza: crescimento econômico exigia mais trabalhadores. Quando a economia crescia, contratava-se mais. Quando empresas faturavam mais, ampliavam escritórios, fábricas e equipes. O mundo começa a descobrir que empresas podem crescer sem contratar, ou até demitindo. A inteligência artificial é algo mais profundo que uma revolução tecnológica: a substituição gradual da inteligência humana como principal motor da economia.

O banco que desapareceu na sua frente

Segundo dados do Banco Central, em 2025 foram fechadas 1,6 mil agências bancárias no país, na média de 31 por semana — ou quatro por dia. Só o Bradesco encerrou, entre junho de 2024 e junho de 2025, 342 agências, mil postos de atendimento e 127 unidades de negócios. Em 2024, os quatro maiores bancos privados do país fecharam 1.127 unidades. Entre janeiro e dezembro de 2025, foram eliminados 9 mil postos de trabalho, conforme a Pesquisa do Emprego Bancário do Dieese, com base no Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério do Trabalho. Desde 2020, o setor extinguiu 26 mil empregos.

O paradoxo que ninguém quer encarar é este: os bancos nunca lucraram tanto. Em 2025, os três maiores bancos privados do Brasil, Itaú, Santander e Bradesco, acumularam lucros combinados de R$ 87 bilhões, alta de 16,4% sobre o ano anterior. A produtividade por trabalhador explodiu porque há menos trabalhadores. A máquina fez o que o humano fazia. Só em 2025, o setor bancário brasileiro investiu R$ 48 bilhões em tecnologia. Segundo a Febraban, 82% das transações foram realizadas via aplicativos ou internet banking.

Entre março de 2011 e junho de 2025, o banco extinguiu mais de 18 mil postos de trabalho e aumentou exponencialmente sua equipe de tecnologia. Em setembro de 2025, o Itaú promoveu uma rodada de demissões em massa que gerou protestos e mobilizações sindicais em São Paulo. O Estado perdeu 3,5 mil vagas bancárias só naquele ano.

Demissões em massa promovidas pelo Itaú em setembro de 2025 geraram protestos e mobilizações sindicais em São Paulo | Foto: Reprodução

Faturando e demitindo

Se o setor bancário é o exemplo mais visível e brutal da substituição de humanos por IA, o de consultoria é o mais revelador do ponto de vista econômico, pois aqui a destruição acontece nas empresas que mais se autoproclamam avançadas. A McKinsey, firma que passou décadas aconselhando outras empresas sobre como demitir com elegância e eficiência, está agora demitindo ela mesma. Em 2023, lançou o “Projeto Magnólia”, que eliminou 2 mil postos. Cortes adicionais vieram nos anos seguintes. A McKinsey, o símbolo do trabalho de alto valor intelectual, começou a substituir seus próprios funcionários por IA. Em 2026, a empresa anunciou que estuda cortar mais 10% de seu pessoal, uma economia que pode eliminar até 4 mil vagas.

De acordo com pesquisa da Bain & Company, consultoras usando ferramentas de IA relatam ganhos de produtividade de 40%. A Deloitte, KPMG, Accenture e PwC realizaram demissões ao longo de 2025. A PwC cortou 1,5 mil postos. A Accenture demitiu e ao mesmo tempo contratou 77 mil profissionais de IA e dados. A Boston Consulting Group (BCG) — consultoria estratégica que orienta empresas em decisões importantes —, exceção parcial nessa tendência, cresceu 10% em 2024, cinco vezes mais que a McKinsey, mas a contratação foi concentrada em especialistas em IA e tecnologia.

O Vale do Silício devora seus próprios filhos

Havia uma ironia perversa em acreditar que os profissionais de tecnologia estavam seguros. Afinal, eles são os arquitetos da transformação. Mas, em 2025, pelo menos 127 mil trabalhadores de empresas americanas de tecnologia foram demitidos, conforme o rastreador da Crunchbase.

O CEO do Google, Sundar Pichai, revelou que a IA já escreve mais de 25% de todo o código novo do Google. O CEO da Microsoft, Satya Nadella, declarou que ferramentas como o GitHub Copilot escrevem 30% do novo código da empresa. O CEO da Salesforce, Marc Benioff, afirmou que a empresa pode não contratar nenhum engenheiro de software novo em 2026. Mark Zuckerberg declarou que a IA pode em breve substituir engenheiros de nível médio na Meta.

Mark Zuckerberg
O CEO da Meta, Mark Zuckerberg, declara que a tecnologia avançada tem o potencial de ocupar os postos de programadores plenos | Foto: Wikimedia Commons

A Cloudflare eliminou mais de 1.100 postos, 20% do quadro, em “reorganização focada em IA”. A IBM demitiu 8 mil funcionários do RH, substituídos por um chatbot interno chamado AskHR. A ZoomInfo e a Upwork cortaram entre 11% e 24% de suas equipes.

A Europa sangra

O fenômeno não é uma peculiaridade americana ou brasileira. Segundo o site ailayoffs.live, um rastreador que monitora globalmente demissões ligadas à inteligência artificial, cerca de 425 mil pessoas perderam o emprego nos últimos três anos por efeito direto ou indireto da IA, das quais 142 mil somente na Europa.

A Organização Internacional do Trabalho estima que 25% do emprego global está em profissões potencialmente expostas à inteligência artificial, proporção que sobe para 34% nos países de renda alta. As funções mais expostas são as que combinam tarefas repetitivas com componentes digitais e textuais: atendimento administrativo, call centers, funcionários de bancos e correios, caixas e tradutores. O número de 425 mil é questionado por especialistas, pois o rótulo “ligado direta ou indiretamente à IA” agregaria cortes de origem mais diversa.

Nem todos veem motivo para alarme. Jeff Bezos, fundador da Amazon, disse ao Financial Times que considera equivocada a ideia de que os empregos simplesmente vão desaparecer, defendendo que a IA deve inaugurar antes uma nova era de prosperidade.

Apesar do impacto da IA no mercado de trabalho, Jeff Bezos contraria as previsões de desemprego em massa e aposta na criação de oportunidades | Foto: Shutterstock

Quando a IA vira álibi

Nem toda demissão anunciada “por causa da IA” é, de fato, causada pela IA. Algumas empresas atribuem à inteligência artificial cortes que, na prática, têm motivações financeiras, estratégicas ou puramente gerenciais. Mesmo Sam Altman, CEO da OpenAI, admitiu, num evento em Nova Déli, que parte das empresas culpa a IA por demissões que ocorreriam de qualquer forma.

O Yale Budget Lab chega a uma conclusão semelhante: até o momento, a IA não alterou de forma mensurável o mercado de trabalho como um todo, e boa parte das quase 700 mil demissões no setor de tecnologia registradas desde 2022 reflete a correção do excesso de contratações na pandemia, não a automação em si. O debate está aberto.

Um futuro que assusta

A BCG, em seu relatório “Beyond Tomorrow: Four Scenarios for the World of 2050” (“Além do Amanhã: Quatro Cenários para o Mundo de 2050”), publicado em abril de 2026, construiu quatro futuros alternativos. Em nenhum deles o trabalho permanece como o conhecemos. No mais otimista, chamado AI Abundance (“Abundância de IA”), o mundo cresce a 5% ao ano, o PIB global triplica e as pessoas trabalham em semanas de quatro dias. A média global de horas trabalhadas cai 25%, de 2,1 mil para 1,6 mil horas anuais.

Parece uma utopia. Mas o preço dessa utopia está nos detalhes. As oportunidades de emprego se concentram em profissões de cuidado, funções de supervisão de IA e trabalhos manuais como encanamento e eletricidade. Um médico, um advogado, um analista financeiro, um redator, um programador, todos são em algum grau substituíveis por sistemas automatizados. Um encanador, não. Na era da IA, é que o trabalhador manual tem mais segurança do emprego do que o trabalhador do conhecimento.

No cenário Digital Darwinism (“Darwinismo Digital”), o BCG descreve um mundo em que os governos recuam, as corporações dominam e a desigualdade atinge patamares não vistos desde o início do século 20. O 1% mais rico detém quase metade de toda a riqueza global. O trabalho na gig economy, precário, por tarefa, mediado por plataformas algorítmicas, torna-se a norma. Os cobots (“robôs colaborativos”) de IA acompanham os trabalhadores em tempo real, aumentando a produtividade, mas criando a sensação de vigilância. A dependência digital torna-se problema de saúde pública. E o índice global de felicidade cai ao menor nível registrado.

Relatório do BCG projeta cenários para 2050 em que a IA reduz a jornada de trabalho ou agrava drasticamente a desigualdade | Foto: Shutterstock

A crise que ninguém quer nomear

Há um exercício de cenário publicado em fevereiro de 2026 pelo analista financeiro Citrini Research que merece atenção cuidadosa justamente porque é perturbador na sua coerência interna. O texto se apresenta como o memorando macroeconômico de junho de 2028, escrito retrospectivamente para explicar como o mundo chegou a uma crise. A premissa é simples e aterrorizante: e se o sucesso da IA for precisamente o problema?

No cenário projetado, a partir do final de 2025, as demissões em larga escala de trabalhadores de colarinho branco produzem exatamente o que se esperava: margens corporativas se expandem, lucros batem recordes, bolsas disparam. Tudo funciona perfeitamente para quem possui ativos. Mas os demitidos encontram apenas empregos com remuneração mais baixa. O salário real cai. O consumo encolhe. A economia americana começa a mostrar rachaduras que as estatísticas de PIB não capturam imediatamente, porque mede o que é produzido, não quem tem renda para comprar o que é produzido.

Quem está contando a verdade sobre isso?

O documento “O Fim do Emprego”, que circula em análises do mercado financeiro brasileiro, resume com precisão o que está acontecendo: o banco virou um aplicativo. O Pix responde por mais da metade das transações financeiras do país. O fechamento de agências e as demissões são apenas o primeiro ato. O segundo, já em curso, é a substituição de funções de alto valor cognitivo, como análise de crédito, gestão de risco, auditoria, pesquisa, por sistemas de linguagem que realizam essas tarefas em minutos e por uma fração do custo.

O que o Brasil tem de peculiar nessa equação é a escala da desigualdade preexistente. Quando a automação das tarefas cognitivas avança em países onde a classe média é frágil e os mecanismos de proteção social são insuficientes, o resultado não é simplesmente redistribuição de empregos, é destruição de renda para uma fatia significativa da população. O trabalhador bancário demitido em Minas Gerais não vai se reciclar como engenheiro de prompt em São Paulo. O analista de crédito substituído por IA não vai se tornar especialista em segurança cibernética em seis meses.

Mesmo a BCG, uma empresa que mais lucra com a eliminação de empregos, descreveu o resultado humano dessa eliminação com a palavra “desconforto”. Essa é a elegante linguagem corporativa para o que no mundo real se chama crise existencial, depressão, violência, endividamento e colapso familiar.

O que vem por aí

O BCG (Boston Consulting Group) identifica cinco “movimentos de baixo arrependimento” — decisões que fazem sentido independentemente de como o futuro se desenrole. Entre eles, o primeiro é aumentar a resiliência estrutural, ou seja, tornar empresas e organizações mais preparadas para enfrentar crises, mudanças econômicas e rupturas tecnológicas. O segundo é reimaginar o talento para populações que envelhecem e para a inteligência artificial, adaptando a gestão de pessoas a uma força de trabalho mais envelhecida e a um mercado em que a IA assume um número crescente de tarefas.

Chama a atenção, porém, a ausência de uma preocupação específica com os trabalhadores que poderão perder seus empregos em consequência dessas transformações. O relatório não propõe mecanismos para garantir uma transição a esses profissionais, porque parte do princípio de que essa não é uma responsabilidade individual das empresas, mas dos governos. O próprio BCG, no entanto, projeta que, até 2050, os Estados terão menos capacidade de exercer esse papel. Em todos os cenários analisados, os governos aparecem com poder reduzido, pressionados pelo endividamento, pela perda de influência para grandes corporações e pela velocidade cada vez maior das transformações tecnológicas.

O Brasil tem o agravante de entrar nessa transformação com uma carga tributária recorde — 32,4% do PIB em 2025 —, uma indústria estagnada, juros nas alturas e um sistema de proteção social desenhado para uma economia de emprego formal que está sumindo. O debate político nacional sobre o trabalho gira em torno da escala 6×1, questão legítima, mas de uma geração atrás. A pergunta que ninguém faz nos plenários e nos palanques é o que acontece quando a escala for 0x7: nenhum dia de trabalho para quem perdeu o emprego para um algoritmo.

Taxa de desemprego é medida pelo IBGE | Foto: Divulgação/Wikimedia commons
Enquanto o país discute a escala 6×1, o avanço tecnológico ameaça impor a jornada “0x7”, com zero emprego para quem for substituído por algoritmos | Foto: Divulgação/Wikimedia commons

O que chamamos de revolução industrial criou empregos em escala que ninguém havia imaginado. O que chamamos de revolução digital criou empregos em escala que ninguém havia imaginado. É possível que a revolução da inteligência artificial siga o mesmo caminho, mas desta vez a velocidade é diferente, e a substituição não é de músculos por motores, é de raciocínio por algoritmos.

O apocalipse virá?

O camponês que viu o arado de tração animal substituir a enxada jurou que a fome social estava decretada. O artesão que viu o tear mecânico chegar à fábrica xingou a máquina em praça pública. O datilógrafo que viu o computador pessoal invadir o escritório teve certeza de que a categoria inteira iria para a rua. Em nenhum desses casos o apocalipse aconteceu. O trabalho não desapareceu: mudou de forma, como sempre mudou, porque é isso que civilização faz. Reorganiza a divisão de tarefas entre o homem e a ferramenta que ele mesmo inventou.

As nações que mais adotaram inteligência artificial no mundo, Singapura, Emirados Árabes, Noruega, Dinamarca, Holanda, Coreia do Sul, não são um cemitério de desempregados perambulando à procura de esmola. São, ao contrário, algumas das economias com menor desemprego, maior renda per capita e crescimento mais robusto do planeta. Quanto mais IA a economia absorve, mais ela cresce, e mais gente ela emprega em funções que a máquina ainda não sabe fazer.

A história do trabalho humano nunca foi sobre preservar o cargo que existe, e sim sobre inventar o próximo. A inteligência artificial é só mais um capítulo dessa jornada. Os países que se prepararem provavelmente sairão na frente, como aconteceu em outras revoluções tecnológicas. Os demais andarão para trás.

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