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No dia em que Michelle Bolsonaro se manifestou publicamente sobre sua relação com Flávio Bolsonaro, surgiram especulações sobre suas ambições políticas. Sua primeira aparição marcante foi na posse de Jair Bolsonaro, em 1º de janeiro de 2019, quando discursou em Libras, destacando a inclusão de pessoas com deficiência. Seis anos depois, em um vídeo, criticou Flávio e a aliança política do PL com Ciro Gomes, o que gerou descontentamento entre bolsonaristas.
No dia em que Michelle Bolsonaro irrompeu nas telas brasileiras para expor sua desavença com Flávio Bolsonaro, em resposta às críticas de que vinha boicotando a candidatura presidencial do enteado, pensei, entre tantas hipóteses razoavelmente plausíveis, que estava nascendo uma persona política de fisionomia própria — e ambições muito próprias, também. Se me enganei ou não, o tempo dirá. Mas eu cometi um erro em minha primeira e imediata avaliação — a mesma, aliás, de muitos observadores da cena política. Não foi a primeira aparição disruptiva de Michelle. “A posse. Lembra da posse?”, alertou-me Maira, minha mulher. Eu não lembrava. Mas não foi preciso muito esforço para concluir que a enigmática personalidade da ex-primeira-dama se delineou aos olhos do público, pela primeira vez, em 1º de janeiro de 2019.
Assim como na cuidadosa preparação do vídeo-bomba de 24 de junho de 2026, Michelle de Paula Firmo Reinaldo Bolsonaro construiu e esculpiu, no seu íntimo, um plano que a faria tornar-se notícia no Brasil e no mundo: discursar na posse do marido, Jair Messias Bolsonaro, feito inédito na história do Brasil.
Mais do que uma quebra de protocolo, a primeira-dama protagonizou outro ineditismo: discursou em libras, a linguagem brasileira de sinais, que ela aprendeu quando jovem para se comunicar com um tio. Seu propósito foi sinalizar a atenção que o novo governo daria a pessoas com deficiência e, particularmente, à comunidade surda. Postado atrás dela, com expressão séria, Jair acompanhava a interpretação do texto de Michelle pela auxiliar Adriana Ramos. O público, comovido, pediu que se beijassem, e foi atendido. Duas vezes.

Embevecida, a imprensa brasileira e internacional atenuou o viés de antipatia ao capitão que derrotara o petismo e adoçou a cobertura da posse com menções à suavidade e à empatia da jovem de 37 anos incompletos nascida em Ceilândia, Distrito Federal.
Depois de tudo, Michelle deu uma entrevista em que contestou insinuações de que a iniciativa fora um golpe de marketing. Contou, porém, que planejou o ato em segredo — inclusive do marido — durante dez dias. Só comunicou a Jair de seu plano duas horas antes da posse. “Olha, eu vou discursar, mas você fica tranquilo que devem ser menos de quatro minutos.”
Faltando apenas meia hora para o início da cerimônia, marido e mulher combinaram como seria. A primeira-dama falaria antes do presidente. E assim foi feito, como nunca antes no Brasil ou no mundo. Posteriormente, frente às câmeras da TV Record, Michelle relataria, descontraída e com certa euforia, o nervosismo do cerimonial na véspera da posse.
— Foi um momento cômico, porque uma pessoa do alto escalão ficou extremamente em pânico. “A senhora vai discursar… O presidente já sabe?” Falei: “Não.” E ele… “Como assim, ‘o presidente não sabe’?” Eu falei: “Qual o problema?”.
Seis anos depois, em março de 2025, alguns detalhes vieram a público quando Michelle atendeu ao convite de Alexandre Garcia e concedeu sua mais longa entrevista, publicada em duas partes no canal do colunista de Oeste. Soube-se, então, que a “pessoa do alto escalão” era Carlos França, que viria a ser ministro das Relações Exteriores. França chegou a temer por sua situação profissional caso tomasse parte da urdidura da primeira-dama. “Dona Michelle, e o meu emprego? Meu emprego tá garantido?”
“Claro! Fica tranquilo. Por que não estaria garantido?”, contou ela, rindo da apreensão de França. Na conversa com Alexandre, Michelle se mostrou à vontade para expor nuances que hoje ganham ainda mais relevância, diante do papel que joga, por ações e omissões, no ciclo eleitoral 2026-2030.
— Como foi o inédito discurso, no parlatório, em libras? Quando é que ele [Bolsonaro] ficou sabendo? Foi surpresa para ele?
— Foi. Foi surpresa. [Ficou sabendo] duas horas antes de a gente ir pra posse…
— Uau! — exclamou Alexandre.
Michelle ergueu o indicador, como uma professora que ministra uma lição valiosa ao interlocutor.
— A mulher sábia… Ela edifica a sua casa.
Alexandre levou as mãos à altura dos olhos, a demonstrar surpresa:
— O protocolo do Itamaraty deve ter arrepiado os cabelos…
Michelle repetiu a máxima extraída do Livro de Provérbios, mas desta vez em um tom de voz mais baixo, como se estivesse confidenciando algo:
— A mulher sábia edifica a sua casa.
Experimentado no ofício, o entrevistador nada disse. Mão no queixo, espichou o silêncio, deixando a bola no campo de Michelle. Funcionou. Ela acabou explicitando qual foi a sua artimanha.
— Ele precisava, ele tinha que fazer a higiene da bolsa de colostomia. E eu deixei pra falar na hora da higiene!
Michelle concluiu a narrativa com uma sonora risada. Garcia sorriu e ensaiou a pergunta seguinte:
— Pegou ele no…
Antes que concluísse, ela se adiantou:
— Peguei ele!

Evidentemente, a longa gravação com a ex-primeira-dama traz passagens que vão muito além destes pequenos recortes, selecionados em razão do tenso contexto político atual. A humanidade de Michelle aflora em muitos aspectos — humildade, integridade, desprendimento para doar-se aos brasileiros desassistidos e particularmente a pessoas com deficiência ou doenças raras.
Mas, visivelmente, a doçura e ingenuidade que transmitia em suas primeiras aparições foram, com o tempo, dando lugar a outras características.
No vídeo que estarreceu os meios políticos brasileiros e, de forma contundente, os apoiadores de Jair Bolsonaro, viu-se uma obra de premeditação, pelos recursos profissionais empregados na produção que foi ao ar no dia 24, antes da estreia brasileira na Copa. A mulher conhecida pela leveza e suavidade apareceu com expressão contraída, em ambiente com pouca luz. Queixou-se de palavras desrespeitosas que o enteado lhe teria dirigido, ao telefone, depois que ela, em evento no Ceará, manifestou-se publicamente contra uma aliança política firmada pelo diretório estadual do PL em apoio à candidatura de Ciro Gomes, um arranjo costurado com o objetivo de destronar a já longa hegemonia do PT.
O vídeo, que eclipsou a repercussão do jogo inaugural do Brasil contra o Marrocos, foi a segunda aparição disruptiva de Michelle. Aparentemente, era para ser uma peça de resposta a quem a criticava nas redes por não fazer gestos públicos de apoio a Flávio. E, também, um manifesto em favor da prevalência de limites éticos e morais sobre conveniências de ocasião, critério que estaria por trás da barganha com um detrator do clã Bolsonaro.
Nas entrelinhas, porém, Michelle deu passagem à visão de que traiu politicamente o enteado e, em última análise, o próprio marido, autor da carta que lançou a candidatura de Flávio à presidência. Uma pesquisa da Atlas Intel entre bolsonaristas constatou que apenas 26% avaliaram positivamente o vídeo de Michelle. Convidados, na mesma pesquisa, a escolher entre a madrasta e o enteado para concorrer à presidência, 87% dos entrevistados preferiram Flávio.
A ex-primeira-dama negou ser pretendente ao lugar de Flávio na disputa, mas se viu arrastada para o terreno da conflagração política. Inevitável, uma vez que, em seu vídeo, acabou alvejando André Fernandes, líder do PL no Ceará, e o pai dele, Alcides Fernandes, candidato ao Senado.

Alcides gravou um vídeo de resposta, citando dia, hora e local em que Bolsonaro teria autorizado, em reunião com o PL cearense, o apoio à candidatura de Ciro como único antídoto ao favoritismo do PT no segundo maior colégio eleitoral do Nordeste, no qual Lula fez 70% dos votos no segundo turno, em 2022. Alcides citou, ainda, uma outra reunião em que Michelle teria admitido fazer um acordo com Ciro sob a condição de que a vaga da candidatura ao Senado fosse dada a sua aliada, Priscila Costa, vice-presidente do PL Mulher. Hoje, o candidato do PL cearense ao Senado é o próprio Alcides — segundo ele, com o apoio explícito e público de Jair Bolsonaro.
As afirmações de Alcides ficaram sem resposta de Michelle, que preferiu se afastar da presidência do PL Mulher e transmitir ao partido sua disposição de não concorrer ao Senado para cuidar apenas da família.
Com isso, chega-se ao maior enigma do momento no Brasil. Não se sabe como será a terceira aparição de Michelle, alvo das mais diversas especulações na bolsa de apostas políticas. Se o regime STF-PT tiver sucesso em suas tentativas de encontrar algo que torne Flávio inelegível, é possível que Michelle atenda ao paladar do grupo hegemônico na Suprema Corte e encarne uma espécie de terceira via com votos. Seu cacife é a relação pacífica que até agora tem cultivado com Alexandre de Moraes. É certo que ela se desgastou com bolsonaristas ao trocar beijinhos em cerimônia pública com o carrasco do marido e das vítimas do 8 de janeiro. Queimou mais um tanto de seus créditos nas alas mais combativas do eleitorado quando se referiu descontraidamente a Moraes como “nosso irmão em Cristo”. Mas se for para desbancar o lulopetismo na eleição, tudo isso ficará para trás, naturalmente.
Seria mais simples decifrar Michelle se a ex-líder do programa Pátria Voluntária desse mais visibilidade a seus movimentos e planos, mas, como se viu na posse de Jair e na publicação do vídeo-bomba, trata-se de uma protagonista vocacionada para ações de impacto e sem aviso prévio.
Ela já declarou ser absolutamente contrária a “queimar fases” quando tece um de seus planos muito bem guardados. Pode estar se referindo a 2026, a 2030, ou até mesmo ao propósito de restabelecer a unidade e coesão na família, hipótese que, ao menos hoje, se afigura menos provável.
Afinal, não faz nem um ano que ela própria admitiu a ideia de concorrer contra Lula. Foi em setembro de 2025, logo depois que Bolsonaro foi condenado pelo STF. “Eu me levantarei como uma leoa para defender nossos valores conservadores, a verdade e a justiça”, declarou ao jornal britânico The Telegraph. “Se para cumprir a vontade de Deus for necessário assumir uma candidatura política, estarei pronta.”
Ela também foi questionada sobre uma candidatura presidencial na longa entrevista para Alexandre Garcia e saiu pela tangente. Alegou que Deus ainda não havia se manifestado de forma “concreta”. Mas Jair, pelo visto, sim.
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