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O culto à ignorância

Valorizar a educação formal e a cultura clássica virou preconceito elitista, um mau sinal para o futuro

O título chama atenção numa capa de revista: “O maior pensador do Brasil de hoje”. Dada a escassez de mentes profícuas no país, a curiosidade se justifica. Para surpresa do leitor, porém, o texto não se refere a nenhum filósofo, escritor ou acadêmico com sólido currículo de estudos. Mas a um dos rappers-celebridades do momento, ali qualificado como brilhante: Leandro Roque de Oliveira, mais conhecido como Emicida. Um jovem artista inteligente e bem articulado, mas que, por mais talentos que se lhe queira atribuir como músico, não pode definitivamente ser considerado o maior pensador brasileiro. Ou pode?

Depende, é claro, da métrica que se empregue para definir quem merece ser destacado como paradigma, e esses critérios andam cada vez mais relativos por aqui. Considere-se, entre outros sinais, a mediocridade dos debates políticos durante a última campanha eleitoral. A superficialidade com que pautas intrincadas das agendas de governo foram abordadas lembra a célebre metáfora do dramaturgo Nelson Rodrigues sobre uma formiguinha atravessando uma poça com água pelas canelas. Outro exemplo desse relaxamento de padrões é a reverência com que vêm sendo tratadas, nos últimos tempos, as opiniões de atrizes de segunda linha, youtubers, funkeiras, celebridades e subcelebridades, sobre praticamente todos os assuntos de interesse público, por mais complexos que se afigurem — da questão climática à mobilidade urbana, passando pela gestão da pandemia e reforma tributária.

É claro que todos têm o direito de expressar seus pontos de vista, crença central das democracias liberais. O que escapa à lógica é por que razão a chancela política de artistas e influenciadores digitais deveria merecer tamanha consideração na escolha de governantes e na definição de políticas públicas — acima, e em detrimento, da dos especialistas que se dedicam a estudá-las profissionalmente, anos a fio. Qual a credencial de ídolos midiáticos como Felipe Neto, Anitta, Bruno Gagliasso e Camila Pitanga, ou mesmo expoentes musicais como Chico Buarque e Caetano Veloso, para pontificar de forma categórica sobre quase tudo? Ou tentar influenciar o voto dos paulistanos, como se viu na campanha de Guilherme Boulos, mesmo sem morar em São Paulo?

Esse mito do artista onisciente, reconheça-se, não é novidade nem exclusividade brasileira. Haja vista a desenvoltura com a qual roqueiros globais se metem constantemente nas discussões sobre a Amazônia e o destaque dado às estrelas de Hollywood nas eleições norte-americanas. Porém, a intensidade que o fenômeno vem ganhando por aqui, além de empobrecer o debate público, parece indicar algo mais grave sobre nosso atual estágio civilizatório: o pouco valor que atribuímos, como sociedade e Estado, à educação e ao conhecimento.

É fato que nunca primamos pelo apreço à cultura, como atestam nossos vexaminosos índices de educação e leitura. O país que mantém 11 milhões de pessoas analfabetas em pleno século 21, sem contar os analfabetos funcionais, e onde mais da metade das pessoas acima de 25 anos não completa o ensino médio, praticamente não lê. Enquanto a população cresce, o número de leitores encolhe — foram 4 milhões a menos entre 2015 e 2019 —, assim como a quantidade de municípios que possuem bibliotecas públicas, que caiu 10% no mesmo período.

Até pouco tempo atrás, entretanto, ainda cultivávamos como referência pensadores de escol — luminares do passado remoto ou recente como um Rui Barbosa, um Joaquim Nabuco, um Gilberto Freire, um Sergio Buarque de Holanda ou um Raymundo Faoro, por exemplo. Agora, contudo, parece que nos acostumamos à sina de país de iletrados e baixamos de vez a régua. Não apenas incorporamos a ignorância como normalidade, mas passamos a celebrá-la.

Veja-se o sucesso que fez a funkeira Anitta, estrela do clipe “Vai Malandra”, ao estrear de forma estrepitosa no terreno da política, meses atrás. Criticada durante a campanha eleitoral de 2018 por não aderir ao movimento #EleNão, ela resolveu interromper seu rebolado milionário para inteirar-se do assunto. Passou a tomar aulas do beabá político em vídeo, transformando seu constrangedor desconhecimento em espetáculo pop para 50 milhões de seguidores. Em poucos dias, já estava credenciada para cobrar do Congresso a rejeição de um complicado projeto de lei sobre regularização fundiária e ser cogitada — acredite-se — para uma carreira na política.

Algo está, também, fora do lugar quando uma eminência da Suprema Corte, como o juiz Luís Roberto Barroso, deixa de lado seus afazeres constitucionais para correr atrás de likes nas redes sociais, discutindo questões da República em live com o youtuber imitador de foca Felipe Neto, que fez fortuna dando dicas de sexo para adolescentes. Diante de um exemplo desses vindo do topo, o que esperar dos marginalizados que crescem sem escola na base da pirâmide social?

Experimente perguntar ao Google quais são os grandes pensadores brasileiros. O algoritmo trará em destaque, à frente mesmo dos nossos três filósofos mais em voga — Mario Sergio Cortella, Leandro Karnal e Clóvis de Barros Filho —, a ativista negra, feminista e filósofa Djamila Ribeiro, que destronou há pouco tempo a folclórica Marilena Chauí como musa intelectual da esquerda. Ela vem seguida de perto na lista por outra militante do ramo, a escatológica Marcia Tiburi, ex-candidata do PT ao governo do Rio de Janeiro — aquela que teoriza sobre o “caráter anal” da política e cuja profundidade de pensamento pode ser conferida no título de seu livro mais recente, Como Derrotar o Turbo Tecno Macho Nazifascismo.

Somos todos, de certa forma, ignorantes, no sentido estrito do termo

 Se a indigência atual do debate público está mais do que evidente para quem quiser ver, abordar o assunto mostra-se mais arriscado. Para a autodenominada intelectualidade progressista, questionar a qualificação dessas novas sumidades do pensamento nacional não passa de preconceito elitista. Uma atitude típica de reacionários, inconformados com a suposta ascensão dos desfavorecidos promovida pelos governos petistas. É como se, já que não conseguimos erradicar a ignorância, tivéssemos optado, por algum mecanismo perverso e subliminar, por glamourizar a incultura. Passamos a menosprezar a importância da educação formal e da cultura clássica, em favor da educação dita popular — um subproduto da celebrada Pedagogia do Oprimido, de Paulo Freire, que entende a educação como instrumento da luta de classes e permanece hegemônica, década após década, nos meios acadêmicos, apesar dos seus péssimos resultados práticos.

Nesse sentido, a apologia da cultura das favelas e periferias por parte dos bem-pensantes pretende representar, ao que tudo indica, uma forma travestida de inclusão social — além, é claro, de uma tentativa de expiar a culpa pelos próprios privilégios sem precisar abrir mão deles. A banalização de palavrões de baixo calão entre crianças e jovens criados fora da escola e educados nas ruas pelo rap, por exemplo, não causa repúdio, mas complacência. Em teses universitárias, é caracterizada como uma aceitável “variante linguística” das classes oprimidas.

A funkeira Anitta tomando aulas com a advogada e professora Gabriela Prioli: uma nova “pensadora” para o país

Contorcionismos desse tipo vêm se tornando mais flagrantes desde a eleição do ex-presidente Lula. Antes de sua longa ficha de crimes vir a público, uma das polêmicas que o cercavam girava em torno, como se recorda, de sua linguagem tosca, com o recurso ocasional a distorções como “menas” ou “seje”, e o hábito de vangloriar-se por desprezar a leitura. Na época, esse estilo popularesco era louvado como expressão benfazeja da chegada do povo ao poder. Quem ousasse discordar era acusado não apenas de intolerância ou reacionarismo, mas de uma forma recém-categorizada de discriminação — a linguística, apontada como tão funesta e inadmissível quanto a racial e a de gênero.

Um artigo da jornalista Dora Kramer, no qual ela sugeriu tratar-se de mera tática demagógica, visto que Lula já demonstrara há tempos o domínio da língua, causou clamor e virou objeto de várias teses, uma delas a cargo de um certo Laboratório de Estudos de Intolerância da Universidade de São Paulo, a USP. Pode parecer um despropósito. Mas essa suposta forma de discriminação já ganhou até nome, glotofobia, e há movimentos para criminalizá-la legalmente — embora pareça difícil entender como esse tipo de transgressão seria tipificado na prática. Será que um professor que corrija os erros de português de um aluno poderia ser incriminado?

O que essa linha de pensamento representa não é apenas extravagante. No limite, ela questiona a própria educação formal, baseada no ensino da norma culta da língua, considerada por linguistas militantes como um instrumento ideológico de dominação. “Toda e qualquer maneira de falar vale ouro na luta contra o fascismo”, argumenta por exemplo o filólogo Marcos Bagno, professor da Universidade de Brasília, ao defender o vale-tudo no uso da língua. “A norma culta que se lasque, que se dane, que se esboroe! Saber falar o ‘bom português’ nunca permitiu a ascensão social de ninguém, ao contrário do que prega a propaganda enganosa da pequena, pequeníssima burguesia”.

O paradoxo é evidente. Adotar um tipo de educação para os filhos dos pobres diferente do das demais crianças não seria, afinal, a verdadeira e mais efetiva forma de discriminação? Como se espera que eles possam competir com os egressos das escolas de elite sem a competência básica de se comunicar, pressuposto para a aquisição de todas as outras?

O jovem historiador marxista pernambucano Jones Manoel, que cresceu nas favelas do Recife, parece não comprar esse embuste e começa a abrir uma cunha na narrativa que o sustenta. “Certas perspectivas de educação popular são anticientíficas”, rebate, com conhecimento de causa, numa das aulas de marxismo de seu popular canal no YouTube. “São uma ideologia irracionalista, uma forma de entender a educação que trata o povo como burro, como imbecil.” Militante do PCdoB que ganhou fama como novo guru político de Caetano Veloso, Jones se assume como um revolucionário radical. Quando trata de educação, no entanto, pauta-se pela racionalidade e bom senso. “A verdadeira educação popular”, defende, “tem que socializar ao máximo o conhecimento, o patrimônio cultural da humanidade.”

O Brasil tem 11 milhões de analfabetos

O baixo nível cultural no país, como se vê, tem raízes profundas e bem sedimentadas. Não pode ser atribuído às mídias sociais, ultimamente responsabilizadas por todas as mazelas. Nem à nossa tardia abolição da escravatura, como pretendem líderes do movimento antirracista. Ele é fruto de uma mentalidade distorcida, que levou a uma série de escolhas equivocadas, entre as quais a ideologização do ensino. Só isso explica o descaso histórico do poder público e da sociedade em relação à educação, denunciado dias atrás, de forma arrasadora, pelo ex-ministro da Educação Cristovam Buarque, criador do Bolsa Escola. Em um artigo antológico publicado por O Estado de S. Paulo, o ex-petista que ficou apenas um ano no cargo e foi demitido por Lula pelo telefone sugere que ele próprio, como todos os governantes, desde a Proclamação da República, devem desculpas ao país pelo atual estado de descalabro da educação.

Defensor da federalização do ensino fundamental, sob o argumento de que essa etapa decisiva não deveria ficar à mercê dos orçamentos e da gestão das prefeituras, Buarque mostra que o investimento na universalização do ensino de qualidade — R$ 15 mil anuais por aluno — é relativamente pequeno. Sobretudo quando se considera a alternativa: a perpetuação da miséria e da ignorância. “Não teremos futuro sem escola com máxima e igual qualidade para todos.”

Somos todos, de certa forma, ignorantes, no sentido estrito do termo, o da insciência, e do enunciado, atribuído a Sócrates, “só sei que nada sei”. Enxergamos apenas um horizonte estreito da realidade, e ainda assim com distorções. Desde que saímos das cavernas, contudo, cada nova geração ilumina um pouco mais o caminho, amplia o entendimento do mundo, galga novos patamares de conhecimento. Ao desprezar esse imenso legado da civilização, o Brasil não desperdiça apenas vidas, cérebros e talentos. Condena-se a fenecer à margem da História.

Leia também a reportagem de capa desta edição, “A formação que deforma”


Selma Santa Cruz foi editora e correspondente internacional do jornal O Estado de S. Paulo e da  revista Veja, na França e nos Estados Unidos, antes de se dedicar à comunicação corporativa como sócia-diretora da TV1, grupo de agências especializadas em marketing digital, conteúdo, live marketing e relações públicas. É mestre em comunicação pela USP e estudante permanente da História.

 

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