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A supervacina

Imunizante da Pfizer usa tecnologia que abre caminho para o tratamento de diversas doenças

Na última quarta-feira, 16, Antonio Ferreira dos Reis, de 68 anos, zelador de um condomínio na região de Campinas, no interior do Estado de São Paulo, bateu de porta em porta questionando os moradores — segundo ele, mais “letrados” — sobre uma resposta que ninguém que vive na mais populosa e rica unidade da Federação ainda tem: quando e qual vacina eu devo aceitar para que a vida volte à normalidade? A dúvida do seu Antonio é também a de milhões de brasileiros. Entre as candidatas, há centenas de laboratórios usando metodologias distintas no desenvolvimento de uma vacina anticovid capaz de salvar a população da desgraça. Em meio a tanta desinformação e teorias da conspiração sem sentido algum, é natural que as pessoas estejam receosas sobre qual caminho seguir nesta reta final da pandemia.

Se no Brasil ainda não há sequer uma vacina aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), países como Reino Unido, Canadá e Estados Unidos já iniciaram o programa de vacinação. E a escolhida para imunizar a população contra o novo coronavírus é uma só: a vacina do laboratório norte-americano Pfizer, em parceria com a farmacêutica alemã BioNTech. Até o momento, foi a única a receber a chancela para uso emergencial da mais respeitada agência reguladora de medicamentos do mundo — a FDA, órgão equivalente à Anvisa nos Estados Unidos —, além do aval dos demais órgãos regulatórios dos países que já iniciaram a vacinação.

Apesar de ser conhecida como vacina da Pfizer, quem está por trás da tecnologia inovadora é o discreto laboratório de biotecnologia alemão BioNTech, fundado pelo casal Ugur Sahin e Ozlem Tureci. Os cientistas, descendentes de turcos, são cofundadores da primeira empresa privada da Europa a proceder testes clínicos de uma vacina para covid-19, depois de ensaios bem-sucedidos em macacos e ratos. O financiamento das pesquisas foi bancado pela sócia Pfizer. O governo alemão entrou com US$ 445 milhões.

Nunca antes uma vacina passou por todas as etapas exigidas pela ciência em tão pouco tempo. O time de cientistas da BioNTech começou a desenvolver o produto no dia 10 de janeiro de 2020, quando os pesquisadores chineses publicaram a sequência do genoma do novo coronavírus. “A ciência andou muito rápido. E andou rápido porque tivemos uma mudança de paradigma na maneira de fazer ciência. Passamos a ser mais colaborativos, objetivos e focados, pois havia uma urgência por resultados”, explica o médico-diretor de Ensino e Pesquisa do Hospital Sírio-Libanês, Luiz Reis. 

A tecnologia inovadora por trás da vacina da Pfizer

Entre a idealização, o desenvolvimento e a testagem, foram 11 meses. Além da rapidez, o que surpreende no caso da Pfizer é a metodologia empregada na produção da vacina. Muitos imunizantes utilizam a técnica de injetar um vírus inativo, também chamado de morto, para que o sistema imunológico identifique a ameaça e crie formas de defesa. É o caso da vacina chinesa CoronaVac e de imunizantes contra a raiva e a gripe. Outro método envolve a aplicação de um vírus atenuado, como o empregado na vacina do sarampo. Mas a Pfizer e a BioNTech optaram por um caminho que, apesar de inovador, está em desenvolvimento constante desde os anos 1990: o uso de vacinas gênicas, a partir do RNA mensageiro (RNAm). A farmacêutica norte-americana Moderna também escolheu esse método para desenvolver seu produto. Em vez de injetar um vírus ou parte dele no organismo, a ideia é fazer o próprio corpo produzir a proteína do vírus. Mas como essa tecnologia funciona? Os cientistas criam em laboratório um RNA mensageiro sintético, que contém uma cópia de parte do código genético do coronavírus. O RNAm nada mais é do que uma molécula responsável por transportar informação genética para a célula, onde são fabricadas as proteínas. “Tudo que essa tecnologia faz é empacotar esse RNA viral dentro de uma gotícula de gordura e levar esse material para o interior das células”, explica Luiz Reis. As células, então, fabricam uma proteína característica do coronavírus. É isso que vai alertar o sistema imunológico e produzir anticorpos na pessoa vacinada.

Fonte: UOL

“Essa técnica traz algumas vantagens importantes. Primeiro, a segurança. Como ela não utiliza o vírus, não há perigo de causar infecções em pessoas com a imunidade muito baixa, como pode acontecer em vacinas como a da febre amarela ou a da pólio, por exemplo. Todos podem tomar a vacina de RNAm”, diz Norbert Pardi, imunologista e professor da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, em entrevista ao portal UOL. Além da segurança, especialistas apontam outras vantagens do processo: como o RNA utilizado é sintético, não é preciso manter culturas celulares em laboratório para usá-las como matéria-prima. Em comparação com outros métodos tradicionais, como o emprego de vírus atenuado, a produção da vacina gênica é mais rápida.  “Justamente por não mexer diretamente com o cultivo do vírus e só com sua sequência genética [que foi decifrada], a fabricação em larga escala é sempre mais fácil e rápida”, avalia a médica hematologista Regina Kiyota. 

Mas, se há tantas vantagens, por que só agora foi possível criar um imunizante com essa técnica? Muito investimento em tecnologia e financiamento de empresas e governos, somados ao cenário de pandemia da covid-19, que acelerou a corrida entre os laboratórios. As pesquisas com RNAm em vacinas começaram faz cerca de vinte anos. Mas só há pouco tempo os cientistas aprenderam a manipular o RNA para que ele não causasse a inflamação exacerbada que até então impedia seu uso. Além disso, outro obstáculo superado foi criar uma “capa de gordura” mais resistente, capaz de envolver o RNAm e manter a molécula intacta no caminho até as células. O investimento deu certo. De acordo com estudos científicos publicados, a vacina da Pfizer atingiu 95% de eficácia com a aplicação de duas doses. O imunizante foi testado em 43,5 mil pessoas e os ensaios foram realizados em 152 centros de pesquisa espalhados por seis países, incluindo o Brasil. Até o momento, quatro países aprovaram o produto: Reino Unido, Estados Unidos, México e Bahrein.

Embora a parceria entre Pfizer e BioNTech seja um sucesso, a descoberta traz um desafio inédito para o mundo: os frascos exigem refrigeração a 70 graus negativos. Na logística brasileira, não há, hoje, ultracongeladores para isso na chamada “rede de frio”. E, mesmo em outros países, o padrão de manutenção de vacinas é feito em refrigeradores, com temperaturas que variam entre 2 e 8 graus Celsius. De acordo com a Pfizer, na ausência dos ultracongeladores, a vacina pode ser armazenada por até 15 dias em uma espécie de contêiner com gelo seco, desenvolvido pela própria fabricante. Mas especialistas em saúde pública temem que a questão da temperatura seja um empecilho para que a vacina consiga sair dos grandes centros e chegar aos rincões do país.

Vacina de RNA marca nova era nas ciências biológicas

Vai ser a primeira vez que um imunizante com essa metodologia será testado em larga escala no mundo. Antes que alguém pergunte — não, vacinas genéticas não vão alterar o DNA das pessoas vacinadas. “Vacinas baseadas em RNA foram construídas de uma maneira que toda a atividade de produção de antígenos e imunógenos aconteça no citoplasma da célula. Esse RNA não entrará no núcleo, não vai alterar a genética”, explica o médico virologista Paolo Zanotto. Portanto, as histórias segundo as quais essas vacinas causam defeitos genéticos, câncer e mutações que podem ser passadas para as próximas gerações não passam de boato e desinformação da turma antivacina. O que não se sabe ainda, e isso só descobriremos mais tarde, é por quanto tempo os anticorpos produzidos pela pessoa vacinada permanecerão no organismo.

Estima-se que os estudos da vacina da Pfizer devam durar dois anos. Segundo a médica infectologista e mestre em Ciências pela Unifesp Patrícia Rady Muller, nesse período os voluntários serão monitorados para que se analise a quantidade de anticorpos que permanecem no organismo. “E uma coisa importante é avaliar se esses anticorpos têm a capacidade de neutralizar o vírus, o que chamamos de anticorpos neutralizantes, ou seja, se esses anticorpos conseguem amarrar as mãos do vírus e paralisá-lo para não produzir doença grave.”

O desenvolvimento de uma vacina a partir de material genético abre caminho para novos campos nas ciências biológicas. “Imagine que o novo coronavírus sofra uma mutação. É possível decodificar aquela parte do material genético, colocá-la dentro da bolinha de gordura e já está pronta a vacina para outro tipo de vírus”, explica Patrícia. Ou seja, o próximo coronavírus poderá ser atacado muito mais depressa. Uma das grandes vantagens das vacinas de RNAm é que elas podem ser ajustadas a mutações virais ou a eventuais quedas na imunidade. Muitas terapias de câncer com RNAm, imunização para doenças raras e tratamentos contra HIV e doenças autoimunes poderão ser produzidas mais rapidamente. Na Universidade da Pensilvânia, nos EUA, cientistas já testaram a tecnologia para o desenvolvimento de vacinas contra cerca de trinta doenças. Foram promissores os resultados iniciais dos testes em animais para imunizantes contra gripe, herpes genital e malária.

O cenário das vacinas no Brasil

No Brasil, a discussão sobre vacinas virou uma campanha de exploração política entre governantes mais interessados em dividendos eleitoreiros do que na saúde da população. O governador do Estado de São Paulo, João Doria (PSDB), já anunciou o Plano Estadual de Imunização, a começar no dia 25 de janeiro de 2021. Curiosamente, o início da vacinação proposta pelo governo paulista coincide com o aniversário da cidade de São Paulo. “Por que iniciar a imunização em março se podemos começar em janeiro? Toda vida importa”, disse Doria, ao sair à frente na disputa.

A pressa do governador paulista põe em xeque uma regra sempre cumprida com rigor científico por aqui: qualquer medicamento, pela lei, só pode ser aplicado no Brasil se for aprovado pela Anvisa. Entretanto, a CoronaVac ainda não recebeu o aval da agência reguladora brasileira. Aliás, a Anvisa não autorizou o uso de nenhuma das três vacinas — a norte-americana da Pfizer, a britânica da AstraZeneca, em parceria com a Universidade de Oxford, e a chinesa da Sinovac. A urgência em anunciar um programa de vacinação sem nem mesmo ter a autorização da agência reguladora acirrou ainda mais os ânimos entre o Estado paulista e o governo federal, que exige que a CoronaVac, ou qualquer outra vacina, receba essa licença para ser utilizada no país. A exceção, em razão da pandemia,  é a lei federal 13.979/2020, que autoriza o uso de produtos de saúde sem a aprovação da Anvisa, desde que eles tenham obtido o registro nas agências dos Estados Unidos, União Europeia, Japão ou China. 

Diante de tamanha afobação do governo de São Paulo para disponibilizar uma vacina no mercado, causa espanto uma notícia divulgada na última segunda-feira, 14. Os resultados do ensaio clínico da fase 3 da CoronaVac foram adiados. A entrega dos estudos finais da vacina à Anvisa estava marcada para a terça-feira 15 e foi adiada para 23 de dezembro. Segundo nota oficial, o Instituto Butantan desistiu de pedir liberação para uso emergencial e pretende enviar estudos conclusivos na próxima semana à Anvisa e agências reguladoras de outros países. Entretanto, em mais uma reviravolta, o governo de São Paulo mudou de estratégia e disse ontem que também vai solicitar o registro para uso emergencial. Sim, está difícil acompanhar a novela. De acordo com o diretor do Butantan, Dimas Covas, o estudo clínico da vacina foi concluído e o número de voluntários contaminados com a covid-19 já foi atingido. Entretanto, diferentemente de outros laboratórios que divulgaram resultados assim que finalizaram seus estudos — como fez a Pfizer —, a CoronaVac continua um mistério. E o que poderia ser sanado com a ampla divulgação e transparência que o assunto merece foi prorrogado para a semana que vem, acentuando incertezas em torno do produto chinês.

Ainda sem data marcada para início, o plano nacional de vacinação contra o coronavírus apresentado pelo governo federal na última quarta-feira tem previsão de 16 meses de duração. Em mais um episódio de judicialização de um tema que deveria ficar restrito a especialistas, o programa foi uma resposta à decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal Ricardo Lewandowski de estipular o prazo de 48 horas para o governo federal anunciar as datas de vacinação, ainda que não haja vacina aprovada até o presente momento. Para complicar o estresse político, a maioria do STF votou ontem a favor de medidas restritivas para quem se recusar a vacinar-se contra a covid-19. Para os ministros, a vacinação obrigatória não é vacinação “forçada”, sabe-se lá o que isso significará na prática.

A aposta do governo federal no laboratório da AstraZeneca com a Universidade de Oxford atrasou. A iniciativa global Covax Facility prevê que o Brasil poderá escolher uma das nove alternativas que integram o portfólio do programa. Dentre as opções, estão a da AstraZeneca e a da Moderna, ainda sem autorização de uso. A Pfizer e a parceira BioNTech ensaiam uma entrada no mercado brasileiro para 2021. Mas, até o momento, o país não adquiriu uma dose sequer da vacina mais promissora do mercado. A cientista, epidemiologista e vice-diretora do Sabin Vaccine Institute nos Estados Unidos, Denise Garrett, acredita que o Brasil perdeu o timing na negociação de vacinas. “Mesmo que o governo resolva, e agora está fazendo acordo, não terá acesso à quantidade necessária”, disse Garret em entrevista ao programa Roda Viva na última segunda-feira. A intenção do governo de comprar 70 milhões de doses da Pfizer foi frustrada com uma proposta bem menos ambiciosa. “Só 500 mil em janeiro, 500 mil em fevereiro e 1 milhão em março. Essa foi a proposta inicial. A segunda proposta, só mudou a caixa de isopor”, disse o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, ontem. Parece que o Brasil, com mais de 184 mil vítimas da covid-19, ficou para o fim da fila.

Enquanto isso, na penúltima casa do condomínio, seu Antonio recolheu o lixo e acenou para o morador, devidamente usando máscara, e desejou bom dia. A resposta foi rápida:

— Vamos tomar a vacina!

Seu Antonio sorriu e respondeu:

— Tomara!

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