O outono da confiança

O desafio de tocar os negócios e planejar o futuro pós-pandemia quando o componente fundamental da equação econômica deixa de existir

Em meio à voragem da crise, parece existir um consenso: este é um dos momentos mais delicados da história econômica dos últimos tempos e mesmo a bibliografia disponível não dá conta de oferecer perspectivas para que se possa vislumbrar uma saída do cadafalso. A questão que se impõe é: como retomar a atividade econômica, ou mesmo planejar o futuro dos negócios, num cenário em que a confiança se desintegrou?

Como se sabe, confiança é o componente indispensável para que o empresário decida expandir seu negócio, o consumidor resolva fazer uma compra em doze vezes e o fornecedor entregue a seu cliente uma encomenda robusta com pagamento a perder de vista. Hoje, em meio ao pânico generalizado, o pequeno ou médio empresário vê o capital de giro se extinguir, enquanto seu fornecedor exige pagamento à vista em razão das incertezas. Há insegurança jurídica, com liminares autorizando o não pagamento de dívidas e impostos em benefício de indivíduos que não podem ser qualificados de “vulneráveis”.

No quadro macro não é diferente. “Nesta crise atual, a reversão das expectativas quanto ao crescimento da economia brasileira é muito superior ao que aconteceu com a greve dos caminhoneiros e com a crise de 2008”, diz o economista Bruno Carazza, autor do livro Dinheiro, Eleições e Poder. “O ambiente é muito incerto. Haverá uma série de repercussões para os governos e para os mercados que, neste momento, é difícil de mensurar.”

O fato de o futuro próximo não se apresentar de forma objetiva tem provocado tensão em relação ao cumprimento de contratos firmados.

Para além do medo de ser infectado, existe o temor de que os empregos não resistirão à ruptura econômica que está às portas. Em colégios e universidades da rede privada, por exemplo, já há pressão de pais para que as mensalidades tenham desconto. Houve escolas, inclusive, que adiantaram as férias de seus professores, numa espécie de quarentena para preservar o fluxo de caixa.

Se até mesmo o ecossistema inabalável dos altos salários dos atletas de futebol já absorve as desventuras da crise, seria ingênuo imaginar que esse cálculo não iria chegar às relações econômicas da classe média. E o que se nota é um dilema: ainda que as pessoas desfavorecidas e um bom número de empresas possam contar com recursos emergenciais do governo, não é certo que o dinheiro será posto em circulação imediatamente em razão das medidas de distanciamento social. “Isso acaba gerando um efeito que vai além dos mercados financeiros. O fluxo de comércio está afetado”, comenta Carazza. Como se vê, não será nada simples reerguer a dinâmica da economia neste outono da confiança.

Desobediência civil

Antes da pandemia de covid-19, embora estivesse se recuperando lentamente, a economia brasileira dava sinais de retomada nos últimos meses. A tempestade perfeita de março não somente diminuiu a expectativa como comprometeu a performance do país. Também pôs em dúvida a retomada do emprego, peça central em qualquer equação econômica de longo prazo.

E, de fato, repousa no mercado de trabalho a chave para compreender o que vai acontecer nos próximos meses. Para a economista Cristina Helena Mello, reitora de Pesquisa e Pós-Graduação Stricto Sensu da Escola Superior de Propaganda e Marketing, em São Paulo, esse cenário de incerteza faz com que as empresas reajam apenas de modo emocional, algo totalmente desaconselhável em momentos como este. Assim como não é recomendada uma reação agressiva nas mídias sociais, tampouco pode ser indicado adotar comportamento de manada, aumentando ou reduzindo preços, sem refletir a respeito das consequências sobre o faturamento ou sobre o relacionamento com o cliente.

“Buscar informação é fundamental para agir de modo racional”, diz Cristina, em entrevista à Revista Oeste. Para ela, muito embora o cenário não permita uma leitura cristalina do futuro próximo, é possível trabalhar com outros instrumentos de dados. Exemplo disso são os indicadores antecedentes. “Com o aumento de pequenos assaltos em supermercados de periferia, conseguimos saber que a taxa de desemprego vai aumentar. Da mesma forma, quando o consumo de luz cresce, sabemos que o PIB vai subir.”

Na avaliação de Cristina, ainda que o futuro não seja previsível, se as empresas conseguirem manter liquidez, preservando seus fluxos de caixa e, com isso, cumprir seus compromissos, elas não precisarão demitir.

“Vamos voltar com as pessoas querendo consumir, com a economia recuperando-se aos poucos.”

E ela completa: “Apesar da enorme insegurança e das expectativas pessimistas em relação ao PIB e ao desemprego, não creio que as relações comerciais estejam sofrendo abalo de confiança”.

A percepção momentânea do cidadão comum, no entanto, permanece sendo alimentada pelas sensações de choque e pavor. De acordo com levantamento recente realizado pelo Datafolha, 69% dos entrevistados acreditam que perderão renda nos próximos meses. Esse entendimento alcança não somente os mais pobres, mas também aqueles que se imaginavam blindados em relação ao impacto da crise.

Em um ambiente tão hostil, o emprego pode ser a última trincheira contra uma situação que se aproximaria da desobediência civil. Numerosos empresários já declaram em grupos de WhatsApp a decisão de simplesmente não pagar mais impostos. Se os cidadãos seguirem o mesmo caminho, haverá ainda mais incerteza e insegurança.

A extinção da confiança não constitui um fenômeno restrito ao Brasil.

Os Estados Unidos enfrentam o extremo da voragem da crise econômica, que já ceifou mais de 3 milhões de empregos. “A duração da crise depende da extensão das falências, que, como a incidência da doença, também depende parcialmente da intervenção do governo no apoio a trabalhadores e empresas”, diz Michael Klein, editor-executivo do site EconoFact, especializado em análises relacionadas ao debate econômico e a políticas públicas nos Estados Unidos. “É provável que muitas pequenas empresas que dependem de interações pessoais, como restaurantes e varejistas independentes, não sobrevivam. Já o destino das grandes empresas, especialmente propensas a abalos por esta crise, não pode realmente ser conhecido.”

Em que pesem as nuvens de desconfiança quanto ao futuro, uma das principais empresas de consultoria de risco político do mundo, o Eurasia Group, aponta para um cenário de estabilidade quando se observa o quesito saúde no Brasil. Ainda de acordo com a Eurasia, enquanto a economia argentina representa alto risco neste momento, o Chile está em uma posição mais segura — e isso tem mais a ver com as reformas liberais implementadas nos anos 1980. Ou seja: mesmo com as recentes tensões em razão das deficiências do sistema previdenciário nacional, o Chile tem uma condição de retomada superior à brasileira. Eis um sinal de que as administrações que miram o longo prazo na economia se provam resilientes mesmo em momentos de incerteza. É também um sinal de que o Brasil deve seguir priorizando as reformas estruturais, mesmo neste momento de insegurança extrema.

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6 comentários Ver comentários

  1. Excelente comentário.Chama a atenção para a gravidade da atuação dos parlamentares e seus líderes imbecilizados no Congresso Nacional.A FARRA FISCAL, O CHEQUE EM BRANCO PARA GOVERNADORES E PREFEITOS GASTAREM, SEM CONTRAPARTIDA COM A UNIÃO,AS DÍVIDAS PERDOADAS E AS COMPRAS COM CORRUPÇÃO EM ANO ELEITORAL, QUEBRAM O BRASIL.Se o grito de Bolsonaro abortou o golpe do parlamentarismo, só trazendo os Militares pra linha de frente do governo evitaria a aprovação destas medidas.Ou alguém acredita naquele valhacouto de bandidos?

  2. No meio de tudo isso, uma coisa é certa: o aparecimento de novos ricos. É sempre assim. Um famoso economista do passado já alertava: em economia não existe almoço grátis; alguém tem que pagar. E neste momento específico de agora, eu penso, infeliz daquele que fizer parte com os que vão pagar.

  3. O economia brasileira será reconstruída, acredito muito nisso. Mas a questão é que temos que voltar URGENTEMENTE a normalizar o sistema produtivo. Quanto antes retomarmos, mais cedo sairemos dessa crise. Mais medidas de reformas estruturais devem ser pautadas, e o povo tem que ajudar nisso, cobrando o Congresso de forma cada vez mais incisiva, pois a vontade popular pela reestruturação do Brasil tem que prevalecer.

  4. SE O CONGRESSO TIVESSE APROVADO AS PROPOSTAS DO GOVERO EM RELAÇÃO AS REFORMAS, PODERIAMOS ESTAR MAIS TRANQUILOS, PORÉM COM ESSE CENARIO DE TROCA DE FARPAS E PARLAMETARES DOIDOS PARA DERRUBAR O GOVERO E ESQUECEDO O PAIS SERÁ BEM DIFICIL.

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