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O paradoxo da linguagem “inclusiva”

O jargão de gênero neutro é uma idiotice com o único propósito de identificar os progressistas como “virtuosos”

Em um golpe pelo “progresso” que ninguém pediu, políticos nos Estados Unidos estão em guerra pela linguagem neutra. Como parte de um movimento por “diversidade e inclusão” liderado pelos democratas, termos de gênero neutro em pouco tempo podem ser eliminados das regras da Câmara dos Representantes. Não apenas expressões como “homem de negócios” e “homem do mar” estão com os dias contados, ao que parece, mas também todos os substantivos e pronomes com gênero definido.

Depois de uma reação negativa por parte dos republicanos, Jim McGovern, democrata e presidente do Comitê de Regras da Câmara — que apresentou as propostas com a presidente da Casa, Nancy Pelosi, há duas semanas —, criticou a “extrema direita” por fazer alvoroço sobre as propostas destinadas a tornar a Câmara mais “inclusiva” ou “sucinta”. Mas, enquanto trocar “ele” ou “ela” por um pronome neutro, como as regras propõem, possivelmente simplificaria um pouco as coisas, o mesmo não pode ser dito pela troca de “sobrinha” e “sobrinho” por “sobrinhe”, nem “tia” ou “tio” por “tie”, como também é proposto.

Antes, as discussões sobre linguagem neutra se concentravam em garantir que o vocabulário do cotidiano não fosse excessivamente sexista nem prepotente — usando docente, em vez de professor, por exemplo, para evitar sugerir que esse seja um trabalho para determinado sexo. Agora, ao que parece, o jargão neutro trata de eliminar por completo o sexo da nossa fala e das nossas interações, referindo-se a todos com expressões abrangentes e, muitas vezes, desajeitadas.

O manual proposto para a Câmara tem sido considerado mais inclusivo em relação às pessoas trans. Que a maior parte delas preferiria, supostamente, ser reconhecida no gênero do qual sentem fazer parte parece não ter passado pela cabeça dos democratas. Mas, até aí, a nova febre da linguagem neutra não tem a ver com inclusão de fato, como se costuma dizer.

Muitas organizações sérias se expuseram à zombaria ao fazer pronunciamentos absurdos sobre linguagem, quando na verdade deveriam estar se ocupando de outras questões. No ano passado, a ONU publicou uma declaração encorajando as pessoas a abandonar termos com o gênero definido, incluindo “namorado”, “namorada”, “marido” e “esposa”, “se não tiver certeza do gênero de alguém ou estiver se referindo a um grupo”. Isso, dizia o texto, “ajudaria a criar um mundo mais igualitário”.

Tais prognósticos, até não muito tempo atrás, eram reservados às associações estudantis e aos funcionários de universidade. Em 2017, noticiou-se que a Cardiff Metropolitan University tinha lançado um novo código de conduta, tornando obrigatórias alternativas politicamente corretas para expressões com o gênero definido. Se você estiver em dúvida, “esforçado” deveria ser substituído por “diligente”; “trabalhadores” por “força de trabalho” e “homem de confiança” por “braço direito”.

A incorporação desses contorcionismos politicamente corretos por parte da classe política é, na melhor das hipóteses, um pouco idiota. A linguagem de fato muda com o tempo, refletindo uma mudança de atitudes. Mas é absurdo sugerir que a liberação das mulheres, por exemplo, fará progressos consideráveis banindo da memória o uso de “os homens” para se referir à humanidade. Além disso, as pessoas trans que os democratas parecem tão empenhados em “incluir” provavelmente têm coisas maiores com que se preocupar do que se alguém usar a palavra “tia” numa plenária da Câmara dos Representantes.

Essas propostas parecem ser basicamente sobre divulgar as virtudes daqueles que as elaboram. Elas não fazem nada de concreto para melhorar a vida das pessoas. E existe um lado perverso nisso. Atos ostensivos de promoção da virtude meio que pressupõem que todos os demais não são virtuosos — que precisamos ser repreendidos ou conscientizados por figuras superiores, quer gostemos ou não.

Nesse sentido, a linguagem “inclusiva” na verdade é um marcador social que distingue o woke — aquele que está ciente dos acontecimentos da cultura e da política — do não woke. Na verdade, o fato de tantos termos neutros serem basicamente impronunciáveis demonstra quanto são excludentes. Vejamos “latinxs” — a alternativa neutra e não binária para “latino/latina”. Para a vasta maioria das pessoas, trata-se de um erro de digitação.

Na verdade, expressões como essa quase não são conhecidas, quanto mais usadas, por aqueles a quem se destinam. De acordo com o Centro de Pesquisa Pew, apenas 23% dos norte-americanos de origem hispânica tinham ouvido falar do termo “latinx” e só 3% o usam para se referir a si mesmos. Enquanto a palavra se tornou popular nos círculos ativistas, mais de três quartos da população “latinx” não faz ideia de que ela exista.

Esse é o paradoxo da linguagem inclusiva: ela não tem nada de inclusiva. Ela exclui a vasta maioria, além de confundir aqueles que deveria “ajudar”. E que isso tenha se tornado uma questão em si revela quanto a nossa cultura política tem um foco míope e psicótico no policiamento da linguagem da virtude performativa.

Leia também o artigo “Rumo à utopix socialistx intersecionxl!”


Tom Slater é editor-adjunto da revista Spiked. Siga-o no Twitter: @Tom_Slater_

 

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5 comentários

  1. Já era para ficarmos incrédulos ao perceber propostas como estas circulando em Diretório Estudantil de colégios secundaristas. Quanto mais notarmos que está sendo discutido no Congresso Nacional dos EUA!

    1. Idiotas sempre existiram. Sempre se expressaram. Mas, jamais foram tantos, tão respeitados ou levados a sério como agora. Acho até que já são maioria e, como tal, são de fato o “novo normal”. Eles se reconhecem, se agrupam e, empoderados, avançam implacáveis contra o que resta da, digamos, “antiga civilização”. Como bons soldados, recebem suas medalhas e condecorações virtuais em suas redes sociais. São agora a classe falante, obediente e adestrada. São os tais “idiotas úteis”. Úteis para uma elite bilionária que de idiota não tem nada. E esse é o novo mundo, a nova ordem mundial. Só funcionará com a hegemonia dos idiotas numa espécie de ditadura da cretinice. Triste fim !

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