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O palácio bilionário de Vladimir Putin

O 'czar' da Rússia usa dinheiro de suborno e do Estado para construir um gigantesco e delirante palácio, muito maior que Versailles. Mas Alexei Navalny é seu maior pesadelo

Novichok é uma arma química desenvolvida na extinta União Soviética. Pode ser usada em forma líquida, em pó ou aerossol. Causa espasmos musculares, fluidos nos pulmões, parada cardíaca e um estrago no sistema nervoso da vítima. É proibida por leis e tratados internacionais.

A arma voltou ao noticiário em agosto do ano passado, quando o dissidente Alexei Navalny foi internado em Berlim com sinais evidentes do veneno após uma viagem à Sibéria. Passou 18 dias em coma e cinco meses internado. Seu envenenamento talvez tenha sido o maior erro do “czar” da Rússia, Vladimir Putin.

Alexei Navalny nasceu de uma família de militares em uma vila próxima a Moscou há 44 anos. Advogado, dedicou-se a investigar falcatruas nas grandes empresas estatais russas. Uma carreira política era inevitável para Navalny, que em 2013 pegou o segundo lugar na eleição para prefeito de Moscou. Em 2017 concorreu a presidente, mas sua candidatura foi barrada pelo sistema eleitoral sob domínio do “putinismo”.

Navalny sabe usar a internet muito bem. Conseguiu 6 milhões de seguidores no YouTube, 2,5 milhões no Twitter e 4,2 milhões no Instagram. Tem pinta de galã, movimenta-se à vontade nas redes sociais, quase sempre ao lado de sua bela família — mulher e um casal de filhos. Consegue dar uma leveza pop inédita ao ambiente carregado da política russa. Já é uma personalidade global e um dos candidatos ao Prêmio Nobel da Paz deste ano.

O governo russo criou armadilhas jurídicas para tentar conter Navalny, e o condenou até agora a pequenas penas condicionais. No mês passado, Navalny saiu de sua recuperação do Novichok na Alemanha e partiu para Moscou, sabendo o que o esperava. Foi imediatamente preso e acusado de não se apresentar às autoridades duas vezes por mês conforme determinava sua pena. O réu respondeu o óbvio: não podia se apresentar porque estava em coma, recuperando-se do envenenamento provocado pelo próprio governo. Foi condenado a quase três anos de cadeia fechada.

A prisão levou às ruas de Moscou cerca de 100 mil manifestantes, que gritavam “Liberdade para Navalny” e “Putin é um ladrão”. Segundo o jornal britânico The Times, foi a maior manifestação de rua desde que Putin subiu ao poder, há 21 anos. As passeatas se repetiram em mais de uma centena de outras cidades, espalhadas pelo país inteiro. Foram reprimidas com violência. As cenas da brutalidade policial provocaram ainda mais revolta.

Antes de voltar a Moscou, Alexei Navalny havia deixado uma bomba dirigida para o atual presidente: um documentário de 112 minutos chamado Um Palácio para Putin. É uma sólida peça jornalística, muito bem documentada e com surpreendente senso de humor, narrada em ritmo de metralhadora pelo próprio Navalny.

O início da caminhada de Putin rumo ao poder absoluto começa em 1975, quando ele entra na KGB, a todo-poderosa agência de inteligência soviética. Em 1985, atua como “tradutor” em Dresden, na Alemanha Oriental, então um satélite da URSS. O documentário mostra fotos de uma festa na cidade em homenagem a dois dos mais temidos aparelhos de repressão do mundo — a KGB e a Stasi, da República “Democrática” Alemã. A submissão da Alemanha Oriental à URSS era tão descarada que Putin, mesmo sendo russo, tinha direito a uma carteirinha da Stasi (número 217.590).

Já naquela festa em Dresden estão presentes colegas e amigos de Putin (como Nikolai Tokarev e Sergey Chemezov) que vão ser indicados anos depois pelo “czar” como diretores de grandes empresas estatais. O evento tinha como lema celebrar “a vitória iminente do socialismo em todo o mundo”. Alguns anos depois, o domínio comunista na Europa desabaria, junto com o Muro de Berlim. Em 26 de dezembro de 1991, a própria União Soviética seria dissolvida, e a bandeira vermelha da foice e do martelo, substituída pelo estandarte tricolor da velha mãe Rússia.

O regime mudou, mas Vladimir Putin continuou por cima em sua cidade natal, Leningrado. Lá, ele formou o sólido círculo de amigos que o acompanharia pelo resto da vida. Segundo o documentário, um desses amigos, Nikolai Egorov, abriu as portas para Putin do Comitê de Relações Externas da prefeitura da cidade (que havia voltado a se chamar São Petersburgo).

Em seu novo emprego, Putin emitia licenças para a exportação de insumos russos. Ele estava interessado especialmente no porto de São Petersburgo, controlado por um mafioso conhecido como “Antiquário”. Segundo o exportador Maxim Freidon, que usava o porto nessa época, o processo era simples e direto: o interessado numa licença entrava no escritório de Putin e ouvia um discurso sobre a importância das parcerias econômicas. Em seguida, o futuro “czar” escrevia num pedaço de papel a quantia desejada — nada muito escandaloso, algo entre US$ 10 mil e US$ 20 mil — e indicava que ela deveria ser entregue ao seu assistente Alexei Miller. Miller hoje preside a gigantesca Gazprom, uma espécie de Petrobras russa.

Logo Vladimir Putin foi indicado por outro amigão do peito (o prefeito de São Petersburgo, Anatoli Sobchak) para um cargo de muita responsabilidade: reestruturar o pequeno Banco Rússia. A instituição virou um gigante financeiro. E, coincidentemente, seus principais acionistas eram grandes amigos de Putin na prefeitura. Um deles, Dimitri Medvedev, se tornaria primeiro-ministro. Todos os conselheiros iniciais do Banco Rússia acabaram presidentes de colossais empresas estatais, assessores do governo, ministros etc.

Em meados da década de 1990, a Rússia era governada por Boris Yeltsin. Yeltsin havia tido um momento de heroísmo ao resistir a uma tentativa de golpe de Estado iniciado por comunistas inconformados com o fim do regime. Tentou criar uma sociedade democrática e de economia de mercado, mas a condução do processo foi um desastre. Escândalos de corrupção brotavam por todos os lados no governo Yeltsin. Era preciso colocar um “homem forte” no departamento de controle interno do governo. O nome indicado foi o de Vladimir Putin. A raposa no galinheiro.

Ninguém pode se aproximar do palácio sem autorização. Até o espaço aéreo é interditado

Putin deu um upgrade pessoal imediato. Mudou-se para um apartamento de 286 metros quadrados em Moscou. Cartas de sua mulher, Lyudmila, datadas da segunda metade da década de 1990, descrevem longas férias na Riviera francesa, onde se hospedavam com amigos — que ganhariam grandes privilégios estatais no futuro.

Em 22 de julho de 1998, Vladimir Putin teve de deixar Cannes às pressas para retornar a Moscou. Ele havia sido nomeado diretor do FSB, o serviço de segurança nacional que sucedeu à KGB. A foto da posse mostra Putin ainda bronzeado pelos dias de folga na Côte d’Azur. Segundo o documentário de Alexei Navalny, como chefão do serviço de inteligência russo, Vladimir Putin salvou a família de Boris Yeltsin de um escândalo. Foi pago com o cargo de primeiro-ministro da Rússia. Em 1999, o errático (e constantemente alcoolizado) Yeltsin renunciou e foi substituído na Presidência por Putin.

O novo presidente soube criar uma mitologia pessoal bem ao gosto dos russos. Explorou sua imagem de macho alfa, lutando judô ou cavalgando sem camisa nas montanhas da Sibéria. Martelou a ideia de que o país precisava de um “homem forte” para recuperar a força militar perdida na crise do fim do comunismo. Funcionou. Putin nunca mais perdeu uma eleição. A cada mandato, tornou a Justiça eleitoral mais obediente. Recentemente sugeriu uma mudança na lei para que pudesse esticar seu mandato até 2036.

Agora, com os botões de mísseis nucleares ao alcance dos dedos e uma fortuna clandestina que ninguém consegue medir, Vladimir Vladimirovitch Putin passou a mirar bem mais alto. Escreveu outro tipo de pedido no metafórico pedacinho de papel. O tempo dos US$ 10 mil ou US$ 20 mil ficou para trás. Agora ele quer um palácio.

Não é um palácio qualquer. Navalny descreve o sonho de Putin como “um reino”. Está sendo construído no Cabo Idokopas, na costa do Mar Negro. Ocupa uma área maior que a de cinco países. Ninguém chega perto sem autorização. Embarcações estão proibidas de se aproximar. Seu espaço aéreo é interditado pela zona de exclusão código URP116.

Os operários não podem entrar com o celular e estão expressamente proibidos de falar sobre a obra. O que se sabe sobre o palácio é fruto de fotos tiradas clandestinamente. Fazem parte do megaprojeto uma igreja (desmontada e transportada da Grécia), uma estufa de 2.500 metros quadrados, uma ponte de 80 metros e um anfiteatro sendo constantemente reformado. Uma quadra de hóquei no gelo foi instalada no subterrâneo. Do palácio sai um longo túnel blindado que leva à praia particular. Ou pode servir de refúgio em caso de ataque.

No porão estão o spa, o salão de massagem e beleza, o cabeleireiro, a academia de fitness, piscina, saunas, banhos turcos e uma sala de “lama medicinal”. Ao ar livre foi construída uma “aquadiscoteque”. Existem salas separadas para abrigar os funcionários fixos: médicos, gerentes, cozinheiros, garçons. O palácio inclui um açougue, padarias, cocktail lounge, bar, boate (com poste de pole dance), home theater, adega, sala de leitura, sala de música, jardim de inverno, vários salões e quartos de hóspedes, um cassino, salão de dança e uma pista para carros elétricos. Um dos 47 sofás custou o equivalente a US$ 27 mil. A escova para limpar o toalete foi comprada por € 700. Um porta-papel higiênico vale € 1.038.

A menos de 10 quilômetros do palácio está um château (ou casa de campo) para que Putin possa tomar um vinho ao pôr do sol. Vinho não vai faltar, pois um grande vinhedo faz parte do complexo. Além de uma vinícola completa, a Divnomorye JSC, igualmente envolvida em negociatas com o presidente há duas gerações.

O palácio é um monstruoso monumento à cafonice. Ninguém teria nada a ver com o mau gosto de Vladimir Putin, se o empreendimento fosse construído com dinheiro honesto. Não é. O complexo, do tamanho de 39 principados de Mônaco, foi oficialmente adquirido por um laranja por míseros US$ 350 mil. “Preço de um apartamento de dois quartos nos arredores de Moscou”, informa o documentário. A propriedade é oficialmente “administrada” em rodízio por alguns dos amigões de Putin.

 

O documentário calcula que o palácio custou até agora 100 bilhões de rublos — o equivalente a US$ 1,3 bilhão de dólares. “É por isso que o chamamos de o maior suborno do mundo”, diz Navalny. “Os amigos de Putin, que receberam dele o direito de roubar o que quisessem na Rússia, agradeceram muito, mas também contribuíram, coletaram 100 bilhões de rublos e construíram um palácio para seu chefe com esse dinheiro. Chegamos a um ponto em que não é mais um grupo de pessoas que rouba o Estado, mas o próprio Estado se tornou um instrumento de roubo.”

O documentário aponta o financiador involuntário dessa orgia de corrupção: os russos que trabalham honestamente e pagam seus impostos. Para o cidadão comum cansado dos escândalos de Putin, Alexei Navalny surge como uma alternativa atraente para a Presidência.

Ele já previu a possibilidade de ser “suicidado” dentro da prisão: “Por via das dúvidas, estou anunciando que não planejo me enforcar numa grade de janela ou cortar minhas veias ou minha garganta com uma colher afiada”. Se acontecer algum “acidente” com Navalny, seu dedo já está apontado para o maior responsável.

Fechado numa gaiolinha de vidro durante seu julgamento, Navalny se transformou em acusador: “Metade de Moscou está isolada porque esse homenzinho está enlouquecendo em seu bunker. Esta não é uma demonstração de força, mas de fraqueza. Você não pode prender milhões ou centenas de milhares. Quando as pessoas perceberem, isso tudo vai desabar”. Representantes de mais de uma dúzia de embaixadas estrangeiras (incluindo os Estados Unidos e o Reino Unido) estavam presentes ao julgamento. A pressão internacional por sua libertação já começou.

Alexei Navalny agora está preso no brutal sistema penitenciário russo sob a originalíssima acusação de ser um “agente da CIA”. E o governo já está preparando uma lei específica para proibir que a mulher de Alexei, Yulia Navalnaya, o substitua nas próximas eleições presidenciais, em setembro. Mas nem tudo está sob controle do czar: o explosivo documentário de Navalny passou dos 110 milhões de visualizações no YouTube e foi visto por um quarto da população russa. As noites de Vladimir Putin no Kremlin já foram mais tranquilas.

Leia também o artigo “O perigoso jogo antidemocrático da Rússia”

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