O liberalismo transverso

Atenção para a turma que ficou em silêncio durante os dois anos de politicagem de Rodrigo Maia fabricando manchetes contra a equipe econômica

Os liberais de boa-fé ligaram o alerta para checar se a troca de comando na Petrobras significaria intervenção indevida do governo — especialmente na política de preços. Já os liberais de cativeiro, sempre mais rápidos no gatilho, pularam nas tamancas para decretar, maldizer e repudiar a intervenção governamental na Petrobras. Esses estão sempre à frente do seu tempo. Em janeiro de 2019 eles já estavam em fevereiro de 2021, sentenciando que chegava ao poder um novo PT vestido de Posto Ipiranga, que Paulo Guedes era fachada e não ia durar etc.

E agora não deu para disfarçar a excitação triunfal com a confirmação do vaticínio: a troca do presidente da Petrobras era a comprovação do anacronismo subpetista instalado no Planalto.

Houve só um percalço de roteiro: após os primeiros dias da decisão de substituição do presidente da estatal, ninguém tinha elementos para afirmar que se tratava de uma intervenção — nem na política de preços nem na gestão de energia da empresa. Os interessados no fortalecimento da agenda liberal continuarão atentos, examinando o desenrolar da medida presidencial. Já os acionistas do contra lamberam os beiços. Para eles, o importante era o pretexto para berrar a palavra “intervenção” e fermentar a sensação de crise. É gente que pensa grande.

Por isso é que fizeram cara de paisagem na Reforma da Previdência. É meio chato quando você está há uma década dizendo que aquela reforma é a única saída contra o colapso nacional e de repente a reforma é feita sob a condução daqueles que você diz que não prestam. É melhor mesmo fingir que não viu. Enfiar o bisturi no Estado inchado e operar um sistema previdenciário com privilégios e incongruências que sugam o sangue da sociedade… O que isso tem a ver com a pauta liberal?

Para quem enterrou a cabeça no buraco da avestruz, nada. Debaixo do chão é tudo muito escuro, só dá para ver a obsessão pelo fracasso.

As ações ininterruptas no Ministério da Infraestrutura — desde 2019 e durante a pandemia — para abrir os gargalos e remover os coágulos da produção no Brasil correspondem à agenda nacional de libertação contra os atravessadores e os inoperantes. Não é uma invenção do governo atual. Ele só entregou o setor a um comando firme e operativo. A iminente conclusão da lendária Ferrovia Norte-Sul é um símbolo desse enfrentamento direto do Custo Brasil — portanto um símbolo da agenda liberal.

E o que você vê por aí? “Liberais” por todo canto fazendo cara de nojo para tudo. Não tente explicar isso. Você vai tirar o emprego dos psicanalistas.

A equipe do ministro Paulo Guedes está buscando a inclusão da Eletrobras na pauta de reformas — que já incluíram a abertura do setor de gás da Petrobras, a venda de mais de R$ 150 bilhões em ativos e outras ações — e você só escuta murmúrios de que a privatização está lenta. Sobre os dois anos de politicagem de Rodrigo Maia fabricando manchetes amigas contra a equipe econômica você não ouviu um pio dos liberaloides de plantão.

Eles ficaram até amigos do primeiro-ministro cenográfico e sancionaram com seu silêncio a tentativa de golpe no STF para dar a reeleição inconstitucional ao presidente da Câmara dos Deputados. Os liberais de cativeiro que lideraram o chilique contra a suposta intervenção na Petrobras sonharam com mais dois anos de Rodrigo Maia sabotando as reformas — agora com apoio formal do PT. Modernidade é isso aí.

A agenda liberal no Brasil teve oportunidade de atravessar o cerco dos parasitas em meados da década de 1990 (aproveitada), em 2003/04 (jogada fora), em 2016/17 (parcialmente aproveitada) e a partir de 2019. Muitos dos que contribuíram para os resultados concretos na década de 90 estão hoje no bloco da cara de nojo: não acham graça nas medidas de desburocratização, não deram uma unha de apoio à legislação da liberdade econômica, não movem uma palha pela reforma tributária. Preferem denunciar o juízo final amazônico e o apocalipse fascista, ou vice-versa.

Os picaretas fantasiados de revolucionários, com estrelinha no peito e demagogia terceiro-mundista, você já conhecia. Agora você precisa aprender a distinguir os oportunistas de cabelo penteado e boas credenciais. Por ostentarem mais verossimilhança na suposta missão de “fazer o bem”, eles são piores que seus antecessores.

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27 comentários Ver comentários

  1. Excelente, Fiuza !
    Os afobadinhos já concluíram que o
    atual governo está abandonando a
    agenda liberal…
    Quem não sabe que a Petrobras está
    infestada de petralhas, altíssimos salários
    e outras barbaridades?
    Agora vai ter um general duro é competente
    lá! Que o diga a Itaipu !

  2. Será que o Guzzo leu seu texto Fiuza? Gosto muito do Guzzo, mas estou sentindo cheiro de new left em seus últimos textos ( do Guzzo, bem entendido).

  3. A intervenção do governo na Petrobrás não só é indevida, já que o PR avisou dias antes que não interferiria, mas uma intervenção burra, desnecessária, já que bastaria aguardar o término da presidência do Castelo Branco e fazer a troca. Sem desgaste para o governo e o PR.

  4. Sabe aquele texto q vc acerta na “mosca” e no ‘mosquito’; é esse do Fiuza. Tem q acrescentar uma nova categoria de ‘liberais’. Tem os de “boa-fé”, os de “cativeiro” e existem os liberais de ‘mentirinha’. Talvez seja a junção dos dois primeiros!!

  5. Fantástico Fiuza, foi resumidamente isto que quis comentar nos infelizes artigos do mestre Guzzo (Para que serve a Petrobras), e do economista Ubiratan Iório (O atraso é nosso). Mas fui cancelado, portanto agradeço tua excelente contribuição nesta semana a revista oeste, que ainda admiro, até porque demonstra o pluralismo de opiniões.

  6. Não consegui ainda ver se o presidente da petrobrás tem mandato definido e se pode ser reconduzido. Estaria terminando seu mandato o que seria natural a sua troca se a União quisesse. É assim, ou estou errado?

    1. Artigo de grande lucidez e alcance. RMaia atuou mesmo com a agenda da esquerda, como apontou PGuedes. Teve sucesso barrando reformas necessárias, sem dúvida. Ao cair fora, um ex-presidente do BNDES de FHC, modernoso e rico, afirma, em artigo, que Guedes não entendera que só Maia poderia ajudá-lo com a agenda liberal. E não esse Lira. Isso publicado no Valor, AINDA tem repercussão. Imagina!

  7. Muito bom Fiúza. Mais um vez, merece nota dez. Vai passar de ano com média 10 e muito louvor.
    Ah! A propósito, aproveita e dá uma cola pro GUZZO aí do seu lado, senão ele vai acabar NO SEGUNDO GRUPO. Ele decidiu EXAGERAR. Entrou numa “FANTASIA” de MEGA-LIBERAL, para “desfilar numa Escola cujo o enredo era tão somente “O LIBERALISMO”… o “bicho pegou” geral. A galera que assistia CAIU DE PAU EM CIMA DELE , com muita razão (veja os comentários na coluna dele).
    Explico: acho que, além de exagerada, a fantasia era uns 3 números acima do dele. Claro que não deu para cobrir o que “estava por baixo”. A “pele” verdadeira dele foi percebida. Ele destoou COMPLETAMENTE do enredo, “atravessou o samba” e perceberam que ele não “TINHA NENHUM SAMBA NO PÉ”… aquela situação antiga do “tem branco no samba” ? Pois é a torcida da escola não foi na onda, descobriu e ficou muito mal p’ra ele. Inclusive eu mesmo, fiquei P…. da vida, me senti logrado… como o cara que comeu carne de bode o tempo todo pensando que era um cordeiro maravilhoso. Triste, muito triste. Vale dar uma olhada por lá. Abs.

  8. Pois é, Fiuza! A única Lei que nos resta é aquela conhecida como Lei do Retorno. Aquí se faz, aqui se recebe. É só com essa que podemos contar contra esse tipo de chupim…gente que embrulha nosso estômago. Haja dramim.
    Ahhhh e bora, com nossa rebeldia, boicotar lockdown! Fui

    1. …..e tem gente que acha que a troca de comando na Petrobras é intervenção.
      Quando o presidente do PT virou presidente da Petrobras isso não foi?
      A partir daí a coisa degringolou e só está parando agora, não é?

      1. Excelente análise dos liberais de ocasião e oportunistas de plantão. Parabéns Fiúza, pela coerência e precisão.

  9. É orgulho ferido dessa turma.
    Se indignam: como pode um “tosco” estar conduzindo tudo isso, e sobrevivendo, até zombeteiro, aos ataques contínuos dos ilustrados “do bem”? Essa tuba babante está até reforçando a fama mitológica do seu alvo, que se tornou obstinação desvairada.

    Não dá para dizer que é divertido ver esse vale tudo, mas quase o é.

    Mas, pelo menos até aqui, os cães ladram e a caravana passa.

      1. O Brasil era roubado pelos mesmos do stableshiment que agora o sabotam

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