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O pesque-pague de Luciano Huck

Ele quer concorrer à Presidência do país, mas apenas se tiver certeza de que vai ganhar

Em 2021 parece que finalmente temos uma decisão: Luciano Huck quer concorrer com a certeza de que vai ganhar a Presidência da República. Aqui nós chegamos à alusão que está no título. Para quem não conhece, o pesque-pague é uma modalidade de pescaria em que você vai pescar com a certeza de que pegará o peixe. Você vai a uma fazenda ou lago, onde os peixes estão esperando para ser fisgados, lança sua isca, e paga depois por aqueles que conseguiu fisgar. Esqueça os desafios, as aventuras e o desbravamento da natureza, o importante é ter o peixe nas mãos. Nada contra a atividade, mas, para Presidência da República, essa “certeza” parece extremamente nebulosa. E ela se torna ainda mais difícil porque, depois que Jair Bolsonaro se tornou chefe do Executivo, a profissão tão sonhada de jogador de futebol foi substituída pelo desejo do cargo máximo da nação: todo mundo quer ser presidente do Brasil.

Não é de hoje que o apresentador global Luciano Huck vem flertando com a política. Desde 2018, Huck faz articulações, emite opiniões na internet e principalmente publica fotos com aqueles que ele acredita que vão fornecer uma espécie de capital político no futuro. Aliás, Luciano Huck parece uma espécie de Samara de O Chamado, filme de 2002. No filme, quem assistisse à fita da garota amaldiçoada morria no sétimo dia. O mesmo parece acontecer com Huck quando decide tirar uma foto com alguma figura importante: embora não chegue à morte, como no filme, o coadjuvante na cena geralmente tem a reputação jogada num abismo profundo.

Podemos comparar Luciano Huck com o youtuber Felipe Neto. O apresentador se parece muito com nosso cancelador oficial do Twitter: ambos são críticos do governo, têm soluções para qualquer problema, mas o passado da dupla santificada por boa parte da grande mídia a condena. Quando a decisão de se candidatar à Presidência da República for tomada, a vida inteira de Huck será revirada de cabeça para baixo por seus adversários. Sua fama de bom moço estará posta em xeque — “talvez você não seja tão iluminado quanto pensa” —, e chegamos ao questionamento acerca dessa possível candidatura: será que Luciano vai aguentar?

O ponto fraco da frágil candidatura tem um nome: casca. Duvida-se muito que o global, cercado de benesses e paparicos por trabalhar na emissora mais poderosa do país, tenha casca, estofo e demais escudos para aguentar uma campanha eleitoral. Ele tem inúmeras relações com políticos e personagens que sofrem processos, acusações ou até mesmo estão presos. Tudo isso será amplamente exposto. Até o momento, a única satisfação pública que Huck se viu obrigado a dar diz respeito ao jatinho adquirido com financiamento de banco público — brinquedo que custou 14 vezes o valor do capital social de sua empresa.

Façamos um exercício da candidatura de Luciano Huck. Vamos fingir estar em 2022 e o apresentador está confirmado para o pleito tão aguardado por muitos, inclusive por alguns governadores. Qual seria o partido da filiação? Podemos, Cidadania, PSB são grandes possibilidades dentro da carteira de investimentos de Huck. Mas que diferencial poderia ser suficientemente poderoso para a candidatura, de modo a garantir a “certeza” da vitória?

Um “conselheiro abençoado”, sempre com posicionamento blasé e pouca firmeza

O discurso anti-Bolsonaro não parece um grande diferencial. O presidente é chamado de genocida, negacionista, obscurantista e responsável por tudo o que acontece de ruim no país. Se sua bicicleta quebrar no caminho do trabalho ou da escola, fique tranquilo: culpe o presidente e você será abraçado. Esqueça as responsabilidades individuais de cada cidadão, a Câmara dos Deputados, os partidos, o Senado e até mesmo o STF. (Aliás, vamos lembrar que o próprio STF deu autonomia para que prefeitos e governadores pudessem determinar todas e quaisquer medidas contra o vírus chinês sem autorização do governo federal.) Continuaremos a culpar Jair Bolsonaro por tudo, certo? Dá like e também sobra uma vaga para ir ao Roda Viva, da TV Cultura. É um excelente começo de campanha.

O problema é que a maioria dos futuros candidatos está tentando a mesma fórmula, mas ela não está funcionando como todos pensavam. Mandetta, Sergio Moro, Doria, Ciro e, claro, Lula estão fazendo exatamente a mesma coisa de maneiras diferentes. Luciano Huck também segue o mesmo script, mas de forma menos afrontosa, menos direta. E aqui nós voltamos à pergunta-chave da eventual candidatura de Huck: como se diferenciar dos outros candidatos? Talvez o vocabulário ou o sapatênis. Esse é o desafio daquele que quer ter a “certeza” de que vai comandar a nação brasileira neste terceiro turno eterno.

A certeza fica menos assegurada quando dados apresentados pela Paraná Pesquisas mostram o presidente liderando com 30% as intenções de votos em cinco cenários. Parece que boa parte do povo não está comprando a cartilha do culpado por tudo. Qual seria o plano B de Luciano Huck? Ele continua sendo uma espécie de conselheiro abençoado do governo no Twitter, sempre com posicionamento blasé e pouca firmeza. Esqueça esquerda e direita, o importante é sempre parecer muito polido. Será que é isso que o povo brasileiro procura?

A eleição de Jair Bolsonaro no Brasil pode ter conferido ao cargo uma característica que muitos dos candidatos não têm: é preciso ter fibra para falar o que pensa, sem se importar muito com as palavras, estando certo ou não. Boa parte do povo admira isso — o establishment concordando ou não. Luciano Huck não tem o perfil de um estadista com coragem para dizer o que pensa porque isso custaria sua reputação ou comprometeria sua boa relação com empresários. Pelo menos é o que parece até aqui.

Huck é aquele tucano com nariz empinado, que fala bonito, mas não tem contundência e não passa verdade. É um candidato normal, um político boa-praça que quer estar bem com todo mundo e ao mesmo tempo acenar para a plateia dizendo que está fazendo o seu. Vamos esperar a hora “H” (sem trocadilhos) da decisão acerca da candidatura. Mas lembremos que para chegar perto da “certeza de ganhar” é necessário ter coragem de enfrentar todo o passado, o presente, e explicar muita coisa. Ou ir para Trancoso. Eu, se fosse Luciano, preferiria ficar em Trancoso.


Alba Expider é integrante do programa Pânico, youtuber e humorista palpiteiro

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37 comentários

  1. Boa análise. Mas acho que ele não vai não. O amigo dele, o Lula, voltou a carga e será o candidato da esquerda. Para enfrentar Bolsonaro, acho que a única saída seria alguém de direita. Ou o pp Bolso pode vir com Tarcisio de vice. Ai ninguém segura a dupla.

  2. Que bom ter citado o Learjet comprado com financiamento do BNDS,e com a “ajuda” do padrinho
    No caso (FHC ).
    Pois é .
    Agora vejam se o apresentador medíocre precisava disso ,mas ainda a intervenção do padrinho no
    BNDS.
    Lamentável ,
    Mas esse fato nos mostra algo simples e claro :
    A que veio o apresentador medíocre .

    Ótima matéria Alba !
    Parabéns

  3. Aeeeeee, cara!!! Mandou muito bem. Vejo vc denote lá no pânico, me divirto, mas não conhecia essa sua capacidade toda! Parabéns!! Muito bom tê-lo por aqui! Abs
    Silvia

  4. Cachorro de dois donos, o santo desconfia. Huck e suas platitudes de candidato clean ninguém aguenta mais. Quem acreditaria que desse lago sairiam bons peixes?

  5. Muito bom Alba. Boa escolha.
    Eu acho Huck só jogo de cena. Nada mais. Jogada pra enganar tonto ou desavisado.
    Tudo o que leio hoje uso a premissa follow the money… E não dá outra! Até com os cancelamentos. O establishment já cooptou até as plataformas que estão fazendo o mesmo joguinho que antes era reservado aos grandes órgãos da imprensa. Só que antes eles conseguiam fazer por debaixo dos panos. Hoje está escancarado. E isso tudo está tirando as máscaras de muitos. Acredito que o Huck não seria louco de se desnudar tanto. Por mais que a globo o cerque e o coloque numa redoma… Eso no ecxiste más!

  6. Que texto bom do Alba Expider! Além de ótimo humorista, escreve bem e com boa argumentação! Ademais, escolheu assunto muito pertinente e interessante.

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