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Philip Roth (1933–2018) | Foto: Fred R. Conrad

A histeria passa. Philip Roth fica

Postumamente, um dos maiores escritores contemporâneos é cancelado pela militância feminista

Há uma nova e esperada biografia no mercado literário. Ou melhor, havia. Trata-se do livro de Blake Bailey sobre Philip Roth, um dos maiores escritores contemporâneos. O biógrafo estava se aproximando do que parecia ser o ápice de sua carreira literária no começo deste mês. As resenhas de sua aguardada biografia de Roth apareceram antes de o livro ser lançado, com histórias importantes em revistas e publicações literárias. Ele foi parar na lista de mais vendidos do The New York Times esta semana.

Mas tudo mudou num piscar de olhos. Surgiram alegações contra Bailey, com 57 anos, incluindo acusações de que ele abusou sexualmente de duas mulheres, uma delas recentemente, em 2015, e que ele se comportou de maneira inadequada com alunos do ensino médio quando era professor nos anos 1990.

Sua editora, W. W. Norton, tomou uma atitude rápida e incomum: interrompeu as remessas e a promoção do livro. “Essas alegações são sérias”, disse em um comunicado. “À luz deles, decidimos interromper o envio e a promoção de Philip Roth: The Biography, enquanto se aguarda qualquer informação adicional que possa surgir.” Faz sentido isso?

Deixemos de lado o fato óbvio de que, no momento, temos apenas alegações, e que todos são inocentes até prova em contrário. Vamos partir da premissa de que o autor realmente fez aquilo de que é acusado. No que isso interfere na qualidade de seu trabalho biográfico? Não temos boa literatura produzida por autores que, como seres humanos, foram pessoas terríveis? Não temos até prêmio Nobel que flertou com o nazismo ou o comunismo?

É preciso separar a obra do autor. Crápulas podem escrever ótimos livros. A obra não deixa de ser boa porque foi produzida por um lixo de pessoa. Isso já foi ponto pacífico no passado. Hoje nem é motivo de muita controvérsia, pois a imensa maioria já parte para o “cancelamento” precipitado, condenando a obra ao mesmo tempo. Tentaram “cancelar” Woody Allen, entre tantos outros, pelo mesmo motivo.

Claro que, no caso específico envolvendo Roth, as acusações de abuso contra mulheres pesam ainda mais. Afinal, o próprio autor já foi retratado por feministas como misógino ou machista. A era do politicamente correto não permite mais arte independente. A postura de Roth, assim como a de um Clint Eastwood, é tida como “masculinidade tóxica”, e não há nenhuma tentativa de contextualizar: o revisionismo precisa impor ao passado os conceitos “modernos”. Apenas os homens “sensíveis” passarão, e os machos serão eliminados.

Na revista Salon, de esquerda, Lucian Truscott escreveu um texto tripudiando não só sobre o biógrafo, mas também sobre o biografado. Ele parece vibrar com o fato de Roth ter sido “cancelado” mesmo da tumba. Usando um comentário do próprio Roth sobre os tempos puritanos atuais, Truscott conclui que ambos formariam um belo par na “prisão feminista”. O movimento feminista quer sangue, quer vingança, pois no fundo parece odiar os homens.

Já na britânica Spiked, Frank Furedi lembrou que alguém como Philip Roth não pode ser “cancelado”, e que a horda identitária tenta destruir a reputação de um dos maiores escritores norte-americanos. Sobre o livro suspenso, Furedi diz: “Ele contém detalhes dos casos de Roth, seu uso de prostitutas e o que muitos estão interpretando como seu mau tratamento às mulheres. Parece que a qualidade da escrita de Roth é menos importante para aqueles que agora estão tentando destruir sua reputação do que a extensão em que sua vida pessoal pode ter violado as sensibilidades #MeToo”, referindo-se ao movimento radical feminista.

Roth morreu sem receber o Prêmio Nobel, uma evidente injustiça

São tempos estranhos e perigosos. Se descobrirem que, na vida pessoal, Mario Vargas Llosa não foi um ícone de “homem” pela ótica feminista, isso por acaso vai diminui a qualidade de sua obra literária, seu talento como escritor? O fato de Gabriel García Márquez ter sido um sujeito cuja ética seja para lá de duvidosa, e um amigo bajulador de um tirano assassino como Fidel Castro, anula a qualidade de sua obra, por acaso?

Mas os modismos tendem a ser efêmeros, enquanto a boa obra de arte perdura, é atemporal. Furedi conclui em tom otimista: “Não acho que Roth estará perdido. Muito depois de #MeToo ter se tornado uma nota de rodapé na história do narcisismo ocidental, as pessoas ainda estarão experimentando aquele burburinho único que vem da leitura desse mais vital dos romancistas”. Eu acompanho o relator.

Roth conquistou em 1998 o Prêmio Pulitzer por seu aclamado romance Pastoral Americana, que integra a trilogia política junto com Casei com um Comunista (1998) e A Mancha Humana (2000). Ele é autor de uma obra prolífica de mais de 30 livros. Morreu sem receber o Prêmio Nobel, uma evidente injustiça, talvez porque essa premiação tenha se tornado politicamente correta demais, priorizando “minorias”, e um judeu norte-americano é tido como representante do lado “opressor” nessa visão distorcida de mundo. Ainda mais se for considerado machista.

Li de Roth seis livros. São eles: Homem ComumComplô contra a AméricaA HumilhaçãoNêmesisO Animal Agonizante; e Patrimônio. Gosto muito de seu estilo, da força de suas palavras, sempre econômicas. Também sou atravessado pelo tema recorrente de seus livros: o poder de estrago do imprevisível, a mudança repentina na vida das pessoas por acontecimentos inesperados, o encontro com o “real”, como diria um psicanalista, as contingências do destino. Tudo parece certinho, ordenado, bem ao gosto de um típico obsessivo, quando de repente o mundo desaba, o chão desaparece, tudo fica nebuloso. É angustiante. Mas é realista. É a vida.

Foto: Peter Pereira

“Quando você representa o papel de uma pessoa que está entrando em parafuso, a coisa tem organização e ordem; quando você observa a si próprio entrando em parafuso, desempenhando o papel de sua própria queda, aí a história é outra, uma história de terror e medo”, escreve o narrador em A Humilhação. “Dei-me conta do quanto as coisas tinham avançado e como tudo havia se tornado terrivelmente confuso, e compreendi que a calamidade, quando acontece, acontece de repente”, escreve o narrador em Complô contra a América. E acrescenta: “Por ora, nossas vidas estavam intactas, nossas casas permaneciam no lugar e o conforto dos rituais costumeiros quase tinha o poder de preservar aquela ilusão, característica das crianças que vivem em tempos de paz, de que o presente tranquilo é eterno”.

Em Nêmesis, o personagem expressa a mesma angústia: “Algumas pessoas têm sorte, outras não. Toda biografia é uma questão de chance e, a partir do momento da concepção, a sorte — a tirania da contingência — comanda tudo. Acredito que era a isso que o Sr. Cantor se referia ao condenar o que chamava de Deus”.

Até que ponto há o livre-arbítrio? Até que ponto somos capazes de controlar nosso destino? Qual o real poder do imprevisível, do acaso em nossa vida? São questões filosóficas interessantes, e a literatura de Roth nos gera esse desconforto saudável que nos coloca em contato com o inevitável desamparo do que não podemos prever ou mudar, por mais que tentemos seguir uma vida regrada. Buscamos ordem, mas o caos parece muitas vezes inevitável.

Se foi o destino ou Deus que deu a Roth o talento, a paixão e a condição de escrever excelentes livros, não sei dizer. Só sei que os livros são excelentes, para mim e milhões de leitores. As feministas tentam cancelar de forma póstuma Roth, mas não vão conseguir. A histeria de nossa época vai eventualmente arrefecer. E a obra de Roth ainda estará lá, como os filmes de Woody Allen, para quem gosta de apreciar boa arte, sem levar em conta se seus autores foram ou não maridos perfeitos ou homens “sensíveis”, segundo a concepção moderninha.

Em tempo: o efeito dessa campanha de assassinato de reputação tende a ser o oposto em muitas pessoas. Eu mesmo, assim que terminei esta coluna, fui imediatamente comprar a biografia de quase mil páginas, para garantir meu exemplar. O livro está na lista dos mais vendidos da Amazon.

Leia também “O ‘cancelamento’ contra a arte”

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