Herbert Marcuse, sociólogo e filósofo alemão
Herbert Marcuse, sociólogo e filósofo alemão

A tolerância repressiva de Herbert Marcuse

Ou você concorda comigo, ou você é um grande ignorante preconceituoso

Sempre dizem que não devemos julgar pelas aparências, mas com muita frequência não temos muitas outras opções. Um homem que nunca julgou pela aparência não sobreviveria muito tempo neste mundo perverso: ele ficaria tão vulnerável quanto um caranguejo-eremita sem sua concha.

Por outro lado, as aparências em geral enganam. Por isso, devemos sempre ter em mente duas coisas que não são estritamente contraditórias, mas muitas pessoas têm dificuldade de levar consigo ao mesmo tempo: precisamos julgar pelas aparências, mas estar preparados para mudar de ideia se isso se mostrar um erro.

Por exemplo, se eu lhe mostrasse fotos do finado Herbert Marcuse, você poderia pensar, pela expressão de contentamento dele ao baforar seu charuto, por seu modo de se vestir, e assim por diante, que se tratava de um próspero dono de embarcação de Hamburgo nas férias de verão. Nada disso: ele era um professor de filosofia marxista com um toque de freudianismo, cujas ideias inflamaram uma geração de estudantes norte-americanos e europeus totalmente mimados que confundiam suas frustrações pessoais com injustiças sociais.

As ideias de Marcuse eram tão bobas que teriam sido engraçadas se ninguém as tivesse levado a sério. Apesar de ele estar quase esquecido hoje em dia, uma de suas ideias mais tolas e perniciosas, a da tolerância repressiva, está voltando, se não na teoria, na prática. De acordo com esse conceito, a repressão praticada pelos conservadores é intolerável, mas a repressão praticada pela esquerda é na verdade uma forma de libertação, e não representa repressão nenhuma. (É incrível a frequência com que a palavra liberação é usada por teóricos radicais sem especificar exatamente do que as pessoas são liberadas. Aliás, a expressão liberação total não é nada incomum.

Enquanto escrevo este texto no terraço do meu jardim na França, desejo ardentemente ser liberado das moscas, que estão bastante numerosas e irritantes este ano. Também quero ser liberado do Imposto sobre Valor Agregado e da necessidade de consertar meu carro. Na verdade, até amarrar os cadarços de manhã é uma obrigação; o literato anglo-americano Logan Pearsall Smith afirmou ter conhecido um homem que cometeu suicídio porque não suportava ter de amarrar seus cadarços milhares de vezes mais antes de morrer. Supondo que essa tarefa leve trinta segundos, e que o homem teria vivido mais quarenta anos se não tivesse se matado, ele teria gastado 120 horas, cinco dias inteiros sem dormir, sem fazer nada além de amarrar cadarços, ou dez dias com tempo para dormir, tomar banho, comer etc. A futilidade de uma existência em que amarrar cadarços de sapato requer tanto tempo o oprimiu; naqueles tempos, não havia sapatos sem cadarço que pudessem ser uma alternativa viável ao suicídio.)

Mas vamos voltar a Marcuse e à sua tolerância repressiva. Nunca pareceu a esse professor, que deu aula nas melhores universidades dos Estados Unidos, que quase todo mundo tolera aquilo com que ele concorda, exceto os ditadores mais loucos, para quem até mesmo a concordância parece uma espécie de lèse-majesté, implicando, como tal, a possibilidade de que se pense por conta própria. Tampouco a tolerância significa a aprovação daquilo que é tolerado; ou seja, na verdade, ela é a aceitação e a manutenção dos limites de comportamento da discordância ou da antipatia em relação às opiniões e aos gostos de outros. O tolerante não é aquele que não tem nenhuma desaprovação, mas aquele que se controla diante daquilo de que não gosta. Isso é tão perfeitamente óbvio e banal que são necessários muitos anos de formação e ensino superior para não perceber.

Sou repressivamente tolerante demais para ser tolerável

Nos Estados Unidos e cada vez mais na Europa, que acompanha os Estados Unidos nessas questões como um cachorro bem adestrado, está cada vez mais na moda negar-se a ouvir aqueles de quem se discorda, exatamente em nome da verdadeira tolerância. Ou você concorda comigo, ou você é um grande ignorante preconceituoso, e não quero que a ignorância preconceituosa seja ouvida porque isso espalha a intolerância. (Claro, os verdadeiros preconceituosos são as pessoas que discordam de mim.) Marcuse teria ficado encantado com esse desdobramento, se tivesse vivido para vê-lo.

Não faz muito tempo, fui convidado para participar de um debate na Oxford Union Society. A moção a ser debatida era que os conservadores não podiam representar as questões dos trabalhadores. Não me pareceu uma moção muito bem estruturada, porque ela suscitava muitas questões. Quem, por exemplo, pode decidir quais são de fato os interesses da classe trabalhadora, mesmo supondo que a classe pudesse ser claramente demarcada e tivesse interesses totalmente uniformes, sem nenhum conflito seccional? A propósito da história eleitoral, os conservadores muitas vezes representaram a classe trabalhadora, de modo que qualquer um que afirme que os conservadores não poderiam representar os interesses da classe trabalhadora também teria de afirmar que a classe trabalhadora não sabe ou não entende quais são seus interesses. É um argumento possível, mas corria o risco de transformar o debate em uma disputa sobre definições.

No entanto, concordei em participar. Acredito que seja obrigação de pessoas mais velhas atender os estudantes o máximo possível.

Algumas semanas depois, porém, recebi uma carta da pessoa que havia me convidado, para me dizer que o convite havia sido desfeito. Em uma carta escrita em um inglês tão abominável que teria envergonhado um estudante evadido setenta anos atrás (sinto muito pelos meus tradutores e peço desculpas de antemão, uma vez que é muito mais difícil traduzir prosa ruim do que boa), ela escreveu:

Precisamos garantir que haja bom equilíbrio de opiniões e experiências na escalação para garantir o tipo de debate robusto e provocador pelo qual somos conhecidos.

Em outras palavras, não queremos que ninguém ouça o tipo de coisa que você provavelmente vai dizer.

Não sou um extremista e costumo ser educado. Sou apaziguador, e não agressivo, em pessoa, se não sempre por escrito. Mas ficou claro que, ao contrário de muitas pessoas que conheço, sou repressivamente tolerante demais para ser tolerável. Como Marcuse afirmou, a tolerância na verdade é intolerância; como disse Orwell (em 1984), a liberdade é escravidão, e ignorância é força. Mas Marcuse estava falando sério.

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Theodore Dalrymple é o pseudônimo do psiquiatra britânico Anthony Daniels. Daniels é autor de mais de trinta livros sobre os mais diversos temas. Entre seus clássicos (publicados no Brasil pela editora É Realizações), estão A Vida na Sarjeta, Nossa Cultura… Ou O Que Restou Dela e A Faca Entrou. É um nome de destaque global do pensamento conservador contemporâneo. Colabora com frequência para reconhecidos veículos de imprensa, como The New Criterion, The Spectator e City Journal.

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