Revolução Constitucionalista de 1932
Revolução Constitucionalista de 1932

O cavalo constitucionalista

A indústria do cavalo movimenta no Brasil mais de 16 bilhões de reais ao ano e gera 610 mil empregos diretos

“O cavalo é a mais nobre conquista do homem.”
Georges-Louis Leclerc
Conde de Buffon

Em São Paulo, o movimento da Revolução Constitucionalista de 1932 é relembrado, particularmente, no mês de julho. No cotidiano dos paulistanos, as avenidas 9 de Julho e 23 de Maio evocam duas datas relevantes. A sigla M.M.D.C., acrônimo com os nomes dos quatro mártires do Movimento Constitucionalista (Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo), nomeia uma escola no bairro da Mooca, ruas, praças e designa importante distinção do governo paulista: a Medalha M.M.D.C. O monumento funerário dos heróis de 1932, com seu imponente obelisco no Ibirapuera, marca um dos corações paulistanos. O outro bate entre a Catedral da Sé e o Pateo do Collegio.

Uma participação pouco conhecida do mundo rural no Movimento Constitucionalista se deu com o cavalo Mangalarga. Esse cavalo de lida, trabalho e lazer assumiu o emprego militar em 1932. E, nesse e em outros destinos, segue até hoje. Dada a qualidade da tropa equina da região nordeste do Estado e o idealismo de sua gente, ao irromper a Revolução Constitucionalista, constituiu-se o Regimento de Cavalaria Rio Pardo. Voluntários de Orlândia, São Joaquim da Barra, Barretos, Colina, Sales Oliveira, Morro Agudo, Jardinópolis, Ribeirão Preto e Cravinhos combateram por São Paulo. Além dos cavalos da raça Mangalarga, recursos financeiros e mantimentos foram doados por fazendeiros dessas cidades.

A raça nacional Mangalarga teve como formador principal o cavalo Alter de Portugal. Com o deslocamento da família real para o Brasil, em 1808, vieram também os melhores espécimes da raça Alter da Coudelaria Real de Alter do Chão. Segundo a Associação Brasileira dos Criadores de Cavalo da Raça Mangalarga, o início da seleção da raça Mangalarga deu-se em 1812 na fazenda Campo Alegre, em Baependi, Minas Gerais, onde o Barão de Alfenas se instalou. Ele recebeu de presente do príncipe regente um cavalo Alter. E passou a usá-lo como garanhão em suas éguas.

Os animais oriundos desses acasalamentos foram os formadores da raça Mangalarga. No século 19, os responsáveis por essa criação mudaram-se para São Paulo e trouxeram suas montarias. No início do século 20, muitos criadores introduziram, esporadicamente, no Mangalarga, as raças Árabe, Anglo-Árabe, Puro-Sangue Inglês e American Sadle Horse. A raça Mangalarga constituiu-se principalmente em São Paulo, graças à família Junqueira, e nada perde para outras estrangeiras. Hoje, ela possui cavalos de alto valor zootécnico, adquirido em mais de cem anos de seleção de marcha trotada, resistência e rusticidade.

O negócio dos equinos emprega seis vezes mais do que a indústria automobilística

Apesar de seu papel fundamental na atividade pecuária, a criação de cavalos ainda é vista por muitos como algo elitista, hobby de bem-sucedidos, símbolo de ostentação social e até como uma máquina de triturar dinheiro. Não é bem assim. Nem aqui nem alhures.

O rebanho mundial de equinos é de cerca de 60 milhões de cabeças. Os EUA reúnem 9,5 milhões, a China quase 7 milhões, o México 6,4 milhões e o Brasil quase 6 milhões, dos quais apenas 9.000 registrados em associações hípicas. A maioria desses animais trabalha no campo, na lida com o gado, de norte a sul do Brasil. E a posição do Brasil no ranking mundial de equinos se deve sobretudo à raça Mangalarga marchador.

Os elos da cadeia produtiva do cavalo, além de haras e coudelarias, da cria e recria, associam diversos segmentos industriais e de serviços. Empregos são gerados em atividades com produtos veterinários, rações, feno, selaria, casqueamento, ferrageamento, transporte, leilões, rodeios, vestimentas, exposições e concursos, exportação e importação, seguros etc. E também em atividades de equoterapia, hipismo, trote, polo, vaquejada, turismo equestre, emprego militar, escolas de equitação, carne e curtumes, além do trabalho direto de jóqueis, tratadores, veterinários, adestradores, zootecnistas etc. Todos esses elos, na montante e na jusante das fazendas, constituem o agronegócio do cavalo, sempre em crescimento.

A indústria do cavalo movimenta no Brasil mais de 16 bilhões de reais ao ano, gera 610 mil empregos diretos e 2,5 milhões empregos indiretos. São cerca de 3 milhões de postos de trabalho. O negócio dos equinos emprega seis vezes mais do que a indústria automobilística, segundo estudo da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da USP.

Outro estudo recente, conduzido por três anos, por 47 cientistas de 14 países e publicado na Nature, alterou os conhecimentos sobre os equídeos. A ciência acaba de provar: não existe mais nenhum cavalo selvagem na Terra. Até os míticos cavalos de Przewalski, ainda protegidos em reservas naturais da Mongólia, descendem de cavalos domesticados há 5.500 anos.

Cavalo de Przewalski, nativo dos desertos da Mongólia | Foto: Shutterstock

Algo parecido ocorreu, mais recentemente, com os mustangues dos Estados Unidos. Esses cavalos assilvestrados descendem de animais levados à América por exploradores espanhóis no século 16. Na ausência de grandes predadores, eles proliferaram nas planícies dos EUA. Chegaram a 2 milhões. Foram reduzidos pela caça a cerca de 300 mil. E hoje têm o estatuto de espécie protegida.

Cavalo da raça mustangue | Foto: Shutterstock

O mesmo sucedeu com o cavalo lavradeiro de Roraima. Animais levados por portugueses escaparam e multiplicaram-se livremente nos lavrados nos últimos 300 anos. Num processo natural de seleção, genes desfavoráveis naquele ambiente (clima equatorial, alimentação de baixo valor nutritivo, isolamento geográfico e genético) foram eliminados. Os mais fortes e adaptados sobreviveram. Além da natureza, esses animais são conservados em núcleos de criação pela Embrapa. Os cavalos lavradeiros são pequenos (1,40 metro), com alto índice de fertilidade, velozes (correm por 30 minutos a 60 quilômetros por hora), resistentes ao trabalho árduo e tolerantes a doenças e parasitas. Algo semelhante ocorreu com o cavalo pantaneiro ao longo de séculos.

Os cavalos domésticos, sejam árabes, puros-sangues ingleses ou lavradeiros, estão órfãos. De quem descendem então? A origem do cavalo tornou-se mais complexa após esse estudo internacional. As pesquisas apontam para novos sítios arqueológicos a oeste dos Urais, do lado dos rios Volga e Dom. E mais a oeste ainda para o sítio arqueológico de Dereivka na Ucrânia, de 4.500 a.C., e outros locais em volta do Mar Cáspio. Haverá muita pesquisa até se ter clareza sobre a verdadeira origem dos cavalos.

Cavalo puro-sangue inglês | Foto Shutterstock

O cavalo fez a história da humanidade. De Alexandre, o Grande, a Gengis Khan, ele portou conquistas e ritmou batalhas. E permitiu disseminar genes, línguas, culturas e doenças. Sua domesticação constituiu um instante fundamental. O resultado dessa pesquisa sobre a origem do cavalo é tão chocante como se descobríssemos que o homem não surgiu na África.

O cavalo é mesmo a mais nobre conquista do homem, como dizia o conde de Buffon, naturalista francês do século 18. Suas teorias influenciaram duas gerações de naturalistas, entre os quais Jean-Baptiste de Lamarck e Charles Darwin. Aqui, a frase tornou-se definitiva: o cavalo conquistou, fez e faz a história do Brasil.

As fazendas mantêm tropas especializadas, tratadas e treinadas para exercer sua função de formas muito diferentes na pecuária da pampa, pantanal, caatinga, Amazônia, cerrado ou nas montanhas da Mata Atlântica. O cavalo é fundamental na lida com nossos 215 milhões de bovinos, o maior rebanho comercial do planeta. E o Brasil não seria o maior exportador de carne sem a nobreza de seus cavalos e cavaleiros. E sem o Mangalarga marchador, o cavalo constitucionalista.

Leia também “O campeão da proteção florestal”


Evaristo de Miranda é doutor em Ecologia e chefe-geral da Embrapa Territorial.

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