Foto: Divulgação XP Investimentos
Foto: Divulgação XP Investimentos

O ‘cancelamento’ da iniciativa privada

Pedido de indenização de R$ 10 milhões feito por ONGs à XP Investimentos indica ofensiva cada vez mais crescente contra empresas

“Justiça do Trabalho notifica Globo por falta de negros em novela e recomenda mudanças depois de pressão de ONGs.” “Movimentos processam empresa que preferia ‘hétero e magro’ para vaga de garçom.” “Coletivo LGBT+ vai à Justiça contra a CBF por explicações para a falta da camisa 24 e sinaliza pedido de indenização.” Essas manchetes circularam recentemente pelo noticiário brasileiro. Em alguns casos, chamam atenção os pedidos de reparação financeira em detrimento de programas corporativos que possam minimizar o problema que os militantes enxergam nas empresas.

Nesta semana, foi a vez de um gigante do mercado financeiro se tornar alvo de ataques. A juíza Julieta Pinheiro Neta, titular da 25ª Vara do Trabalho de Porto Alegre (RS), acatou uma ação civil pública movida pelas ONGs Educafro, Frente Nacional Antirracista, Visibilidade Feminina e Centro Santos Dias de Direitos Humanos contra a XP Investimentos e o Ávila Associados, escritório credenciado da corretora na capital gaúcha. O motivo: “falta de diversidade” no quadro de funcionários do grupo econômico.

Tudo começou após o Ávila publicar no LinkedIn uma imagem mostrando cerca de 100 de seus colaboradores. A publicação foi prontamente “cancelada” com críticas de racismo, misoginia, homofobia e preconceito contra idosos e deficientes, porque a maioria dos funcionários é de homens, brancos e “héteros” — fora os ataques pelo “não uso de máscaras e aglomeração”. Os movimentos pediram indenização de R$ 10 milhões por danos social e moral.

Equipe do Ávila, escritório credenciado da XP | Foto: Divulgação LinkedIn

Caso vença, o advogado das ONGs, Marlon Reis, disse que o montante milionário será destinado ao Fundo de Defesa de Direitos Difusos, vinculado ao Ministério da Justiça e Segurança Pública e à Secretaria Nacional do Consumidor. A gestão desse fundo é feita por um conselho composto de “representantes da sociedade”, responsáveis por selecionar projetos que serão financiados com os recursos. “Mas existe a possibilidade de se discutir também na Justiça a destinação para finalidades específicas”, informou Reis, em nota, sem dar detalhes.

Em segundo plano, as ONGs pediram “medidas energéticas” para o enfrentamento do que classificaram de “preconceito estrutural”.

As ONGs sustentam que a postagem vira as costas para um passado escravagista.

Os coletivos de esquerda exigiram, entre outras reivindicações: 1) que a composição do quadro de contratados, permanentes ou temporários, tenha a mesma proporção de negros, mulheres e indígenas presentes na sociedade brasileira; 2) cotas para idosos e pessoas com deficiência; 3) prazo de 90 dias para apresentação de um plano de diversificação do quadro de colaboradores; 4) as empresas terão de incorporar ao conselho de administração quatro novos membros, integrantes das “comunidades sub-representadas”; 5) a disponibilização de cursos gratuitos e estágios remunerados para promover a formação e a experiência profissional desses colaboradores.

Por fim, as ONGs vão além e pedem que o Poder Judiciário estipule medidas para evitar que a política de contratação das empresas seja “excludente e discriminatória”, com um “plano de não discriminação” para evitar ocorrências similares no futuro. Em nota, a XP informou que tem ações de inclusão de pessoas negras na empresa. Ressaltou ainda que, no passado, estipulou metas internas para aumentar a contratação, em todos os cargos, de “pessoas negras, mulheres, LGBTQIA+ e deficientes”. Desde 2020, a corretora lidera um programa de inclusão de gays e mulheres na empresa.

Argumentação fraca e excesso de reparação

No processo, as ONGs sustentam que a postagem do Ávila viola tratados internacionais e vira as costas para um passado escravagista, além de remeter ao livro Admirável Mundo Novo. Escrito por Aldous Huxley, a obra antevê a formação de uma sociedade baseada em “clones, todos físico e psiquicamente idênticos, preparados para seguir um pensamento monolítico e para reproduzir mecanicamente atribuições definidas por superiores desconhecidos”.

Adiante, as ONGs citam a “eugenia” que ocorreu na Alemanha e argumentam que “a equipe de colaboradores da referida empresa reproduz um padrão nada natural”.

Vera Chemim, advogada constitucionalista e mestre em Direito público administrativo pela FGV, afirma que é direito das ONGs apresentarem motivos para insatisfações de seus representados, mas vê fragilidade nos elementos expostos. “São argumentos precários”, disse a jurista, ao mencionar que apenas um processo de investigação maior pode constatar se a empresa realmente tem políticas deliberadas de preconceito, o que daria mais força para o processo.

“É preciso atestar se houve vontade de excluir negros, mulheres, gays ou deficientes”, explicou. “A Justiça do Trabalho pode enviar pessoas que tomarão depoimentos de funcionários e diretores da empresa. Dessa forma, será capaz de dar um diagnóstico mais completo.” A especialista salientou que, antes de o processo ser movido, as ONGs poderiam ter procurado a XP e tentado um acordo.

O advogado Felipe Camargo de Araújo, do escritório Montgomery & Associados, vai na mesma linha e avalia que a ação carece de substância. “As ONGs se basearam em apenas uma foto”, disse. “Não sabemos se todos os profissionais estavam ali para dizer se há discriminação.” Para ele, as empresas têm o direito de contratar quem quiserem. “Se a companhia adota uma prática discriminatória evidentemente comprovada, aí é outro problema. Não podemos dizer quem a empresa deve ou não admitir, salvo as exceções legais para pessoas com deficiência e mulheres em cargos políticos.”

O valor pedido pelas ONGs é questionado por Eli Alves da Silva, advogado especialista em Direito empresarial. “Considero algo exagerado”, afirmou. “A rigor, não existe um tabelamento que fixe um dano moral coletivo. Por que não R$ 10 mil, por exemplo? Ou, quem sabe, R$ 500 milhões? Me parece uma tentativa de dar mais repercussão para o assunto.”

Citado na ação, Aldous Huxley afirma em O Admirável Mundo Novo que não basta que palavras sejam boas, é preciso que o que delas se faz também seja bom. Qualquer semelhança com o processo movido contra a XP não é mera coincidência.

Leia também “Os mais recentes ataques da linguagem neutra”

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34 comentários Ver comentários

  1. Trabalhar que é bom vagabundo não quer né? Quer ganhar milhões no mole. Por um lado é bom para essas empresas pararem de acariciar essa gentinha politicamente correta. A propósito consulto um assessor na XP que é negro educadíssimo e extremamente eficiente.

  2. Já virou meio de vida. O mérito não existe mais, basta vc ser negro, mulher ou gay para garantir uma boquinha, isso sim é preconceito, dizer que por certas características a pessoa não tem capacidade de disputar uma vaga no mercado.

  3. Falta muita capacitação e autorresponsabilidade. É mais fácil colocar a culpa em “a” ou “b” do que ir atrás do que quer. Se pudéssemos conhecer a história de cada pessoa que conseguiu ter sucesso profissional, veríamos uma grande dose de esforço individual, independentemente da cor da pele e opção sexual. Estes atributos não definem quem você é, mas suas atitudes sim.

  4. o que faz a crise de abstinência de dinheiro público!!! uma excrecência…sou contra todo e qualquer sistema de cotas na iniciativa privada que tenham um cunho obrigatório…já não basta o altíssimo custo Brasil que pesa nos ombros do empreendedor brasileiro, entre impostos, fiscais corruptos, financiamento caro, segurança e além disso tem que contratar nem sempre quem cumpre com os pré-requisitos da posição, mas alguém vindo das cotas? uma coisa são os incentivos legais para se contratar pessoal do ponto de vista da inclusão social, outra coisa é obrigar a empresa a contratar alguém com base unicamente em cotas…eu já participei da contratação de uma afrodescendente e fui peça chave para ela ser contratada…ela era super promissora (eu participei do treinamento dela depois)…em nenhum momento eu me vi em uma posição de considerar cotas…ela foi contratada em detrimento de vários outros “caucasianos” por ser competente.

  5. Sugiro que os autores dessa infame ação civil pública mapeiem os quadros do Facebook, do Youtube e de outras empresas de TI que estão cancelando os conservadores e liberais das redes sociais.
    Quase certo que vão encontrar coisas muito semelhantes “ou piores” que às da XP e de seu escritório credenciado.

  6. Estou aposentado, mas, quando atuava na PF, fui na Justiça do Trabalho testemunha de uma empresa de segurança privada que estava sendo forçada por um juiz trabalhista a contratar deficientes físicos. Afirmei ao juiz que NÃO era proibida tal contratação, mas, por lei, o candidato tinha antes que ser aprovado em um curso, aprovação esta que era muitas vezes impossibilitada exatamente pela deficiência. Sem a formação do candidato, a empresa é PROIBIDA de contratá-lo, sob pena de multa. O juiz se irritou gratuitamente comigo quando tentei ler o texto da lei, que ele desconhecia, e proibiu-me grosseiramente de ler, encerrando a audiência. Pelo que eu soube, deixou a empresa em paz. É mole?

  7. Conversando com um jurista amigo questionei: “não vai dar em nada.” Ele me respondeu: “será”? Se pensássemos assim, continuou ele, o Brasil ainda seria colônia de Portugal, o negro ainda seria escravo e mulheres não votariam – entre outras coisas – de tanto fomentarem seus desejos, de tanto baterem às portas da justiça, logo, logo, esse pensamento e ou desejo dessas ONGs se tornará realidade.. será???

  8. Um aspecto importante que essas ONGs não consideram : Já passou pela cabeça delas, conseguirem parcerias com Escolas Técnicas e empresas, para capacitarem as pessoas? Ou basta por no currículo a cor, a tendência sexual e o sexo? Precisa estudar moçada. As empresas precisam de mão de obra qualificada.

    1. Concordo inteiramente com seu argumento Bruno, mas infelizmente, da forma como estão sendo desenhados estes “ataques”, trata-se muito mais em angariar fundos e aparecer na mídia do que realmente buscar soluções .

  9. mais uma palhaçada defendida por esse pessoal progressista, agora querem dizer quem o empresário deve contratar…e a justiça do trabalho, como sempre, militando… querem uma empresa mais inclusiva?? abram a sua empresa !! simples!! me falta paciência…

  10. Estamos vivendo um descalabro total, ….um tempo sem noção, com total inversão de valores, ….uma sociedade sendo destruída a cada dia pelo divisionismo imposto por quem se diz democrata…….. Quem cria a divisão e instiga o ódio são exatamente essas ONGs e partidos políticos que tem o único objetivo de fazer sangrar as instituições. A mentira, a manipulação, a vaidade, etc… são estimuladas pelos falsos defensores da democracia…. O Brasil sangra, ….. nossa sociedade está em perigo e sangra pela destruição de valores éticos e morais….. é muito triste tudo isso !!! …. e pensar que um dia, num passado já distante, eu me alinhei a esse tipo de gente acreditando que queriam um Brasil melhor e mais justo….. Ganhamos a mentira, a manipulação, a corrupção em todas as suas acepções…….

  11. Sou branco, hétero, tenho boas condições financeiras, casa própria, pós-graduação, médico, não tenho deficiência física, não estou grávido, não sou idoso, etc… Alguém conhece uma ONG para defender meus direitos? Neste país pessoas como eu estão sendo discriminadas todos os dias. Será que eu posso ganhar uns 10 milhões em algum processo? Ou melhor, troco os 10 milhões por um país realmente LIBERAL!

    PS: Complementando meus adjetivos pejorativos: apoio Bolsonaro, não tenho nenhuma dívida, meu score de crédito Serasa é 965, este não é maior pois há 2 anos comprei um carro financiado, com parcelas sem juros (ótimo negócio).

    Acho que os únicos que gostam de mim são os gerentes dos bancos que ligam sem parar para oferecer aplicações financeiras absurdamente ruins para mim (mas vantajosas aos bancões e aos próprios gerentes para cumprirem as suas metas). Por isto, minhas aplicações financeiras estão na XP (mera coincidência sobre meu comentário desta matéria…)

  12. Sou branco, hétero, tenho boas condições financeiras, casa própria, pós-graduação, médico, não tenho deficiência física, não estou grávido, não sou idoso, etc… Alguém conhece uma ONG para defender meus direitos? Neste país pessoas como eu estão sendo discriminadas todos os dias. Será que eu posso ganhar uns 10 milhões em algum processo? Ou melhor, troco os 10 milhões por um país realmente LIBERAL!

    1. Pois é, sou aposentado e não conheço nenhuma ONG aguerrida para lutar pelo justo valor de minha pensão pelo que paguei mais de 35 anos e muito menos pela manutenção ( Não aumento) no tempo.
      E aí ? Alguma ONG se habilita?
      Mas tem q atuar como estas da reportagem.
      Ou será que só estamos atrás de oportunismos …

  13. Será que alguma ONG vai questionar a não diversidade nos togados das Cortes Superiores? Nunca viram um desfile das togas a caminho do plenário?

    1. Deviam mesmo questionar a saida do unico negro, à epoca, que, misteriosamente (alegou dores nas costas) abdicou de sua cadeira no STF dando lugar a um branco. Essa estoria nunca foi contada direto…..
      Anyway, essas ONG’s eatao sempre querendo chupar o sangue de alguem e agora vao chupar sangue usando as minorias, que, como o nome ja diz, devem ser tratadas como minorias e sem muito alarde. Ou sera que, para estarmos 100% felizes teremos que ter uma sociedade que 100% negra e lgbt+?
      E, foda-se a XP, lacradora do cacete. Vai pedir ajuda ao X-9.

  14. Impressionante a desenvoltura com que as ONGs se atiram contra grupos empresariais, sejam urbanos ou rurais, tentando (e muitas vezes conseguindo) impor suas próprias visões de mundo… todo mundo tem que pensar igual (obviamente com carinhas diferentes, numa pseudodiversidade). É lamentável como essas ONGs encontram espaço e eco entre as pessoas, que absorvem o ‘politicamente correto’ como a quintessência da justiça social. A resposta a essa ‘lavagem cerebral’ claramente aponta para a necessidade de cada um se armar de conhecimento, tornando mais difícil a manipulação. Infelizmente é um processo lento, mas primordial.

      1. Acredito que a iniciativa privada tem o direito de contratar o profissional que julga capaz para ocupar cargos em sua empresa,por isso chama-se iniciativa privada.Essas ONGS que sempre rondam por aí em busca de dinheiro fácil, começaram sim a atacar a iniciativa privada,pois o dinheiro público acabou.Nao se trata de raça,preferências sexuais,mas sim de competência.Quem estudou muito,apresenta boa produtividade ficará sim com o cargo.A empresa que for obrigada a ter vinte e cinco por cento para todos esses grupos que as ONGS incluem vão simplesmente falir ou sair do mercado.A empresa Magazine Luíza (empresa privada)por exemplo decidiu por conta própria contratar estagiários negros para seus cargos.Cada um na iniciativa privada decide o que quiser.Agora a justiça determinar qual o grupo a ser contratado,acho uma aberração para todos que procuram uma vaga de trabalho.

  15. Onde estamos e para onde não queremos ir, só depende de nós
    Essas ONGs e grupelhos ditos protetores das minorias, em alta, na “bolsa de valores” desses agentes/manipuladores hipócritas, VÃO ENRIQUECER SUAS CONTAS BANCÁRIAS achacando as empresas de “brancos”. E quanto mais as empresas se curvarem ao politicamente correto, mais dinheiro elas perderão. Pois nunca se sabe a próxima invenção social que virá por aí.

  16. Vai chegar um tempo que não mais haverá necessidade de se apresentar como um indivíduo capaz de realizar uma determinada tarefa, basta se apresentar como negro ou como LGBT, um binário, etc… E a economia, como é que fica? Ora, a economia a gente vê depois…

  17. Vamos olhar pelo lado positivo: o empreendedorismo sempre ganha. Amigo meu está abrindo uma agência de modelos negros para popular essas fotos em que caucasianos prevalecem. O cardápio (com desconto) inclui asiáticos, índios e esquimós. O app permite, mediante modico pagamento, achar as frações ideais, inclusive quanto aos afrodescendentes, selecionar segundo a região de origem.

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