Alana McLaughlin, antes e depois da transição | Fotos: Reprodução Instagram
Alana McLaughlin, antes e depois da transição | Fotos: Reprodução Instagram

Este homem é uma lutadora

A falsa inclusão de atletas transexuais em esportes femininos significa a exclusão de meninas de seus espaços no esporte

Há duas semanas, escrevi um artigo sobre o silêncio das feministas com a nova velha realidade das mulheres no Afeganistão depois da retirada das tropas norte-americanas e aliados da região. Comandadas pelo Talibã agora, as afegãs sofrerão sob um duro regime de opressão e liberdades cerceadas.

Mas o silêncio das feministas não é exclusivo para o assunto das mulheres do Afeganistão, agora cobertas da cabeça aos pés e sem o direito de trabalhar nem estudar. O feminismo de butique que diz lutar pelas mulheres continua calado em relação ao avanço absurdo de atletas transexuais, homens biológicos comtemplados com anos de testosterona, competindo, invadindo e agora espancando mulheres sob os aplausos dos seguidores do politicamente correto.

Alana McLaughlin, a segunda mulher abertamente transgênero a competir no MMA nos Estados Unidos, venceu sua estreia na semana passada por finalização nas preliminares do Combate Global em Miami, Flórida. A lutadora de 38 anos usou um mata-leão contra Celine Provost para encerrar a partida aos 3 minutos e 32 segundos do segundo round. McLaughlin, que começou sua transição de gênero após deixar as Forças Especiais do Exército dos EUA em 2010, disse que espera ser uma pioneira para atletas transgêneros em esportes de combate: “Quero pegar o manto que Fallon colocou”, disse McLaughlin à Outsports antes da luta, referindo-se a Fallon Fox, que em 2012 se tornou a primeira mulher trans a lutar no MMA. “No momento, estou seguindo os passos de Fallon. Sou apenas mais um passo ao longo do caminho e é minha grande esperança que haja mais coisas para seguir atrás de mim.”

A luta terminou com um mata-leão que McLaughlin deu na adversária, Celine Provost | Foto: Reprodução

Antes da transição, McLaughlin era um soldado das Forças Especiais dos EUA, o que levou alguns usuários de mídia social e até mesmo outros lutadores a questionar a legitimidade de sua competição na seção feminina do MMA. Entre os críticos estão o lutador do UFC Sean O’Malley e o narrador de MMA Angel David Castro. Alana McLaughlin fez a transição cinco anos atrás, o que significa que “ela” viveu 33 anos de sua vida como homem e com o corpo formado em sua totalidade pelo hormônio mais proibido para as mulheres no esporte: a testosterona.

Alana McLaughlin fazia parte das Forças Especiais dos EUA | Foto: Reprodução

Há alguns anos venho tentando trazer um pouco de racionalidade para o debate público sobre transexuais no esporte. Essa falsa inclusão significa a exclusão de meninas e atletas femininas de seus espaços no esporte. A invasão de homens biológicos nos esportes femininos não é apenas errada, é um ataque frontal e um desrespeito às mulheres — a própria discussão é, em si, ultrajante e humilhante. O debate honesto sobre esse assunto não pode ser embasado na identidade social de um indivíduo, que, obviamente, deve sempre ser respeitada. Como as pessoas decidem viver suas vidas é um problema individual. Mas decisões sociais e particulares não criam direitos imediatos. Esse assunto é sobre a clara exclusão de meninas e mulheres no esporte feminino, é sobre ciência e sobre identidade biológica, pilar sagrado e justo nos esportes.

Nessa semana, a Califórnia passou por um processo de recall para o governo estadual. Dentre os candidatos a ocupar o lugar de Gavin Newson estava Caitlyn Jenner, ex-atleta olímpico de decatlo masculino como Bruce Jenner. Jenner se identificou como mulher trans em 2015, é pai das empresárias Kylie e Kendal Jenner, padrasto das Kardashians e é contra meninos biológicos trans competirem com meninas no esporte feminino. Recentemente, ela disse em um vídeo que esse assunto é apenas uma questão de justiça: “Sou contra meninos biológicos que são trans poderem competir com garotas nas escolas. Simplesmente não é justo”. E arrematou: “E nós temos de proteger o esporte feminino nas escolas”. Caitlyn foi devorada pelo tal feminismo que jura por todos os santos proteger e lutar pelas mulheres.

O assunto, para aqueles que querem apreciar a biologia humana, é vasto e muito bem estabelecido na ciência. As diversas vantagens que as mulheres trans possuem devido aos anos de testosterona desde a infância não são amenizadas ao manter a quantidade hormonal recomendada pelo Comitê Olímpico Internacional de até 10 nanomols por litro por 12 meses. Não existe estudo que prove que esse período reverta aspectos como o coração e os pulmões maiores, maior capacidade aeróbica e cardiorrespiratória, além de outros, como nível de oxigênio no sangue, densidade óssea e fibra muscular. Não há absolutamente nenhum estudo que mostre que a genética masculina pode ser revertida em apenas um ano, depois de passar 20 ou 30 anos com altas doses de testosterona. E não para por aí: mesmo pequenas quantidades de testosterona a mais no organismo feminino podem resultar em verdadeiros milagres no esporte, como segundos de diferença em uma prova, o que pode definir uma medalha de ouro ou um recorde olímpico. O teto de testosterona que uma atleta transexual pode ter chega a ser até três vezes maior do que o de uma mulher. No corpo de uma atleta, um pouquinho a mais desse hormônio, considerado o suprassumo do esporte, faz uma grande diferença.

Ao longo de 24 anos como atleta profissional, pude conhecer médicos excepcionais, engajados na proteção do esporte limpo e justo. O ortopedista Bernardino Santi, que já participou de quatro edições dos Jogos Olímpicos como profissional de saúde, foi um deles e hoje desempenha um trabalho importantíssimo na proteção das mulheres. Santi, assim como centenas de outros médicos ligados à fisiologia humana que se calam para o politicamente correto, é categórico em afirmar que ainda não há evidências científicas que levem a um consenso que garanta segurança a todos os atletas, incluindo os próprios esportistas transgêneros, durante as competições. Para ele, as definições do Comitê Olímpico sobre o tema são precipitadas: “Hoje, é muito precoce, não há consenso científico para dizer que uma atleta trans se equipara a uma mulher biológica. Pelo contrário, há muitos trabalhos científicos que rebatem essa argumentação”.

Para os esportes de contato, como o MMA, há ainda maiores inseguranças para as mulheres biológicas sobre sua integridade física

O principal ponto de todo esse debate, que é o fator hormonal e a quantidade de testosterona relacionada a maior massa muscular e óssea, parece simplesmente não existir para a turba político-ideológica que vem gritando “ciência!” ultimamente. Mas Santi ressalta outros pontos além da grande diferença hormonal na resposta muscular, na velocidade, na força e em explosão: “A capacidade pulmonar e o aspecto cardiológico são alguns dos fatores que dão vantagens físicas aos atletas que são homens biológicos. Mas se compararmos apenas a questão da bacia da mulher, por exemplo, que é preparada para a gravidez, há muitas diferenças com relação à do homem. Com isso há um centro de gravidade diferente, uma explosão muscular diferente. Por mais que se atue na parte hormonal, há aspectos que são impossíveis de ser modificados”, ressalta o médico.

Celine Provost e Alana McLaughlin | Foto: Reprodução

Os perigos de tamanha cegueira ideológica não são relacionados apenas às mulheres que estão vendo seus espaços esportivos serem invadidos por homens biológicos. Muitos médicos, como Santi, ressaltam que não se sabe, por exemplo, até que ponto essa mudança hormonal nas mulheres trans levará a outros tipos de doença, pois não há tempo suficiente para estudos conclusivos que possam garantir que daqui a alguns anos a retirada da testosterona nessas atletas trans não possa levar a um problema cardiológico, por exemplo, ou que possa trazer algum risco de morte para a pessoa: “Há muita precipitação em torno do tema e nisso não está se pensando no ser humano”, ressalta Santi.

Para os esportes de contato, como o MMA, há ainda maiores inseguranças para as mulheres biológicas sobre sua integridade física. E mesmo diante de tamanha injustiça, muitas atletas têm sido colocadas em verdadeiras espirais de silêncio e não se pronunciam, com receio de serem rotuladas de preconceituosas ao se manifestar abertamente sobre o assunto. A verdade é que, se essas atletas não se manifestarem, o esporte feminino será tomado por uma turba que demanda que o politicamente correto seja maior até que a ciência e a biologia humana. Atletas trans baterão recordes seguidos com uma clara vantagem biológica que não pode ser ignorada — e, no Ocidente livre para as mulheres, teremos de nos comportar como as afegãs sob o Talibã.

Um homem não pode se tornar uma mulher diminuindo sua testosterona. E os direitos das mulheres não devem terminar onde os sentimentos de alguns começam.

McLaughlin, antes e depois da transição | Foto: Reprodução

Leia também “As mulheres invisíveis do Afeganistão”

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38 comentários Ver comentários

  1. Repara no tempo gasto com estas “diferenças”. São exceções ,e como tais assim devem ser cuidadosamente tratadas.
    Pode haver competição trans de tudo e todos vão ficar felizes.
    Um abraço pra lá de fraternal pra vc Ana, tenho admiração por vc. Menina corajosa.

  2. Essa liberação é covarde e perturbadora. Criem a liga das trans e compitam entre si, suas covardes. Meninas biológicas deixarão de ter oportunidades nos esportes, deixarão de obter bolsas estudantis e uma mudança positiva nas vidas em decorrÊncia dos esportes por que um trans malandro e covarde pegou seu lugar. Vergonhoso!

  3. Perfeita análise, como sempre!!
    Que dó que da do Casagrande.

    As feministas que aplaudiram a Marta porque jogou de batom (que por sinal era feio de doer), defendem trans no esporte feminino sem se tocar que, se um time masculino da série D do Brasileirao se identificar como trans, já vai ser melhor que a seleção feminina. Ou seja, Marta e seu batom nem jogariam mais.

  4. O objetivo é claramente o mesmo dos comandos comunistas, esculhambar o processo social para dominar. Estamos vendo o absurdo aqui no Brasil de inventarem leis onde a minoria se sobrepõe à maioria. Exige-se que se tenha bom senso e se viva a realidade

  5. Ana Paula seria viável pensar em uma categoria só para os atletas trans, ou seja, competição entre eles.
    Parabéns pelo seu trabalho….sua voz me representa….obrigada.

  6. É UMA CRUELDADE QUE SE PERMITE UM TRANSSEXUAL LUTAR COM UMA MENINA,DE TODA E QUALQUER FORMA,BIOLOGICAMENTE ELA ESTÁ LUTANDO COM UM HOMEM,AINDA A PESSOAS QUE FICAM APLAUDINDO ESTA BARBARIE.

  7. Por trás desse tipo de decisão há um motivo econômico: aumentar o interesse do público no esporte. Quem vai pagar a conta são as atletas mulheres pois, não acredito que mulheres transgêneros irão competir nas quadras, pistas e tatames masculinos.

  8. É surreal que se discuta as diferenças entre sexo feminino e masculino! Só pode ser o resultado de mentes doentias da esquerda! Parabéns Ana

  9. Os danos as lutadoras serão graves em breve!
    Quanto ao esporte, a lacração e o dinheiro valem muito mais que o “espirito esportivo”…
    Elas se calam por medo, e vemos aqui repetido o tema da violência contra as mulheres.

  10. Além dos seus há um argumento irrefutável: homens biológicos são em média mais altos que mulheres e ponto. Como ficam esportes como basquete e vôlei? Ficar sem testosterona faria o Shaquille O’Neal encolher, claro que não! Outro ponto, mulheres biológicas não vão em busca de vitórias e recordes em esportes masculinos. Hoje uma pessoa que estava a 40 cm de distância num minúsculo corredor não quis subir no mesmo elevador comigo, onde poderia ficar a bem mais de 1 metro. Jamais perguntaria a ela o que acha disso. Tudo faz parte de uma imbecilidade padrão.

  11. Uma simples sugestão para resolver isto rapidinho. Todas as mulheres deveriam se negar a participar de qualquer esporte que tenham estes trans no meio. Em pouco tempo criarão suas próprias ligas e farão disputas entre si e deixarão nossas mulheres em paz.

  12. Um debate honesto sobre essa alienação nos esportes femininos tem forçosamente que concluir pela criação de entidades esportivas transexuais, onde esses iguais competiriam entre si.

  13. A circunferência do braço da Alana é quase igual ao da cintura da Celine. Como competir em igualdade de condições com essa massa muscular?

  14. Ana, o ajuizamento de algumas pessoas poderá ir em uma direção e, eventualmente, refluir, até, digamos, 180 graus; a biologia, jamais. Faça-se o que quiser com o corpo físico, o DNA e o sistema ósseo, continuarão dizendo se ele é masculino ou feminino, goste ou não o “politicamente correto”!

  15. A mulher trans era um homem forte pra caramba. Usou o quê? Kriptonita? Ridículo querer competir com mulher cis. Categorias diferentes.

  16. Beijos. Gostaria de assistir um luta entre dois trans… Ou, um torneio só de trans. Uma olimpíada exclusiva para trans e outra para normais. Ihhhh, já falei que as escolinhas maternais, escolas de primeiro e segundo grau, grupo de escoteiros tenham uma bandeira asteada indicando que é para heteros ou homos. Assim, cada um ou cada família teria garantias do que está lá dentro…

  17. Engraçado é que a gente não vê nenhum caso de atleta trans que queira competir, por exemplo, na ginástica artística e no nado sincronizado. Somente em esportes de força, velocidade ou contato.

    1. Quando estamos na maternidade, aguardando o nascimento de uma pessoa querida,temos apenas duas opções: Menino ou menina,simples assim. Se a pessoa depois quer mudar de sexo,necessita seguir as regras impostas pela biologia.Homem não pode jogar como mulher e também não pode engravidar e ter filhos.O resto é aberração.

      1. Perfeito Tereza. O fato de nós aceitarmos a transexualidade sem fobias e incluindo normalmente na Sociedade os seus adeptos não quer dizer que esqueçamos a Ciência e a Natureza. A Transexualidade não é uma doença, porém, é uma anormalidade de comportamento que não pode ultrapassar as regras genéticas da Ciência e nem da Mãe Natureza sob pena de, no contexto Esportes de contato, colocar em risco a vida de mulheres biológicas.

    1. Não consigo entender como isso é possível! Está comprovado cientificamente as diferenças o que está faltando são as atletas se recusarem a lutar, pois o que irá acontecer será com certeza como a Ana explica no texto eles irão tomar o espaço feminino e ofuscar e legitimidade dos esportes femininos

    1. Bem lembrado… para empurrar o bêbado ladeira abaixo, aparecem vários candidatos; agora, para empurrá-lo ladeira acima, ninguém… que mundo é esse em que nós vivemos?

  18. Bola pra frente! Ela conhece a “bola” mais do que ninguém. Bonita, Jovem e Inteligente!
    O importante e tê-la atuando. Não a percam de vista.

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