Foto: Montagem Revista Oeste/Shutterstock
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A era das pandemias

As palavras também têm suas biografias, autorizadas e não autorizadas, e ambas esclarecem muitas coisas

Eça de Queiroz mostrou com deboche e graça impagáveis as contradições da República francesa, que, em nome da República e da Liberdade, proibiu Termidor, drama escrito por Victorien Sardou mostrando quanto tinham sido cruéis os atos de certos líderes da República praticados no século anterior em nome da Liberdade e da República. A peça teve uma única exibição e foi imediatamente proibida pelo governo, em nome da República e da Liberdade, como funesta para a República e para a Liberdade.

Cecília Meireles, na obra-prima que é Romanceiro da Inconfidência, dirá: “Ai, palavras, ai, palavras, que estranha potência a vossa! / todo o sentido da vida principia à vossa porta; / o mel do amor cristaliza /
seu perfume em vossa rosa; / sois o sonho e sois a audácia, /
calúnia, fúria, derrota..
.”

Prezados leitores, vocês sabem em que ano estamos? Em que ano estavam os fascinantes autores citados que, em séculos diferentes, transfiguraram cada qual em seu estilo temas e problemas do terrível século 18? Pois o Brasil atual vive um contexto semelhante, e as palavras parecem ser outras, ainda que sejam as mesmas.

Ora, estamos em 2021, mais de dois séculos depois da famosa Revolução Francesa e da Inconfidência Mineira. O ano de 2021 é fruto de um erro consolidado, uma fake news avant la lettre, que se tornou verdade ao contar o tempo a partir do ano do nascimento de Jesus Cristo. Há fake news que pegam e fake news que não pegam. E naturalmente há entre elas erros de designação, pois algumas são tratadas como fake news sem o ser e outras são designadas como verdades inquestionáveis, mas podem ser fake news. Elas se tornaram abundantes nesse tempo que pode ser contado de outro modo.

A História foi dividida entre a.C. (antes de Cristo) e A.D. (iniciais em latim de Anno Domini, Ano do Senhor), cujo maior representante na Terra é hoje o papa Francisco. O Sumo Pontífice, nomenclatura herdada do poderoso Império Romano, assim como diocese e paróquia, bispo, padre, pastor, presbítero etc., e o mundo que os cristãos criaram, seus usos e costumes, é também seu líder e o maior influencer do mundo, com mais de 1,4 bilhão de seguidores.

Ainda assim, representam pouco mais de 60% do povo cristão, hoje na marca de 2,3 bilhões de pessoas. É bom que sobretudo as autoridades saibam com quantos e com quem estão mexendo quando mexem em coisas sagradas para esse formidável exército de forças aparentemente desarmadas.

Podemos dizer, entretanto, que vivemos em 2021 uma dupla era, convivendo aos trancos e barrancos. A era das fake news e a era da pandemia.

Jesus Cristo nasceu entre os anos 8 e 4 a.C., dizem respeitáveis historiadores. De resto até o papa emérito Bento XVI sabe e atestou por escrito que Jesus de Nazaré nasceu em outra data, provavelmente no ano 15 do reinado do imperador Tibério, embora os Evangelhos digam que foi no de Otávio.

Pandemia, quando surgiu, designava público, não doença ou peste

Há outras formas de contar o tempo no Brasil, com ou sem pandemia. Compulse qualquer decreto do presidente da República e você lerá ao final dele: Brasília, tantos de tal mês de 2021, 200º da Independência e 133º da República. Você viu uma das duas por aí recentemente, a primeira com seus penachos e sua coragem, obra da monarquia luso-brasileira, e a segunda com a notória separação de Poderes que marca o que a palavra dizia originalmente em latim para não ser fake news, ser de fato república, isto é, res publica, coisa pública?

Todos haverão de concordar, porém, que o Brasil e o mundo em que vivemos estão no terceiro ano da pandemia, a não ser que a pessoa viva no mundo da lua e ainda não se tenha dado conta de que tudo mudou com a doença que inicialmente foi designada por covid-19.

Pandemia é palavra que veio do grego, passou pelo latim, fez escala no francês e chegou ao português. No berço, como indica seu étimo, designava apenas o público, pela formação pan, todo, e demía, de demos, povo, como é também o caso de democracia, palavra que tem o mesmo étimo acrescido de cracia, de kratía, de krátes, poder; outra vez pelo francês démocratie. Pandemia, quando surgiu, designava público, não doença ou peste.

Se a palavra pandemia veio da Grécia antiga, aquilo que ela designa veio, porém, da China atual. Com escalas em outros países antes de chegar ao Brasil, o vírus mais temido hoje no mundo foi batizado pelos cientistas  Sars-CoV-2, abreviação em inglês de síndrome respiratória aguda grave-coronavírus-2, causada por doença designada por covid-19, abreviação em inglês de coronavirus disease 2019. A covide, palavra já aportuguesada, assim como covidar e covidário, ameaçou levar meio mundo para a cova. São velhos conhecidos dos cientistas esses vírus, agora em edições revistas, atualizadas, consideravelmente ampliadas e perigosas.

Também seu nome veio de longe. Somos filhos das antigas Grécia e Roma, não saímos do mundo greco-latino e ele não sai de nós. Corona e virus são palavras latinas, coroa e coisa nociva, respectivamente, e disease, grega, significando doença, do latim vulgar dolentia, que dói, que o latim culto designava por morbus, e está no português morbidez, mórbido, morbosidade etc. É do mesmo étimo de mordere, morder no sentido de matar ou causar dano.

As palavras também têm suas biografias, autorizadas e não autorizadas, e ambas esclarecem muitas coisas. Vírus veio do latim virus, sumo de plantas prejudicial à saúde. Os antigos gregos o chamavam iós, veneno, e o tomaram da raiz indo-europeia weiss, fluir, escorrer.

Entre as voltas que as palavras dão, vírus já foi sumós, não um veneno, mas um caldo escuro, mélas sumós, feito com carne de porco fervida no sangue do animal, temperada com azeite e vinagre. Muito apreciada pelos soldados, a sopa foi servida a seu senhor em Roma por um escravo que tinha sido cozinheiro em Esparta. “Agora sei por que eles não temiam a morte”, disse ele ao experimentá-la e cuspir.

O cientista russo Dimitri Ivanovski, que em 1892 identificou pela primeira vez o que entendemos por vírus, recorreu ao latim para designá-lo, mas às vezes preferimos dar outros nomes às realidades. Um dos exemplos é a preferência pelos pseudônimos do Diabo, cujo nome é substituído por Coiso, e Coisa Ruim, entre outros.

Outras vezes, palavras-chaves mudaram de significado. A primeira quarentena de uma pandemia, imposta a viajantes que chegavam a Veneza, foi de 14 dias, embora o étimo da palavra indique o número 40. Outras quarentenas atualmente podem ser de meses ou mais tempo ainda.

Lembremos, por fim, que na era das pandemias também as fake news podem matar, às vezes a verdade, por inconveniente.


Deonísio da Silva é professor e escritor, autor de Avante, Soldados: para Trás e De Onde Vêm as Palavras

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