<i>Outdoor</i> 'Novo dia para a Virgínia', do candidato Glenn Youngkin | Foto: Rosemarie Mosteller/Shutterstock
Outdoor 'Novo dia para a Virgínia', do candidato Glenn Youngkin | Foto: Rosemarie Mosteller/Shutterstock

O preço do radicalismo

O resultado da eleição na Virgínia mostra que a agenda radical de políticas identitárias e segregacionistas vem incomodando milhares de americanos

Há algum tempo venho publicando aqui em Oeste artigos que analisam como o Partido Democrata nos Estados Unidos deu uma guinada radical à esquerda nos últimos anos. As políticas e as crenças de John F. Kennedy, um dos nomes mais celebrados dentro do partido, jamais fariam parte da atual cartilha do presidente norte-americano Joe Biden.

Desde a campanha presidencial em 2020, havia uma expectativa entre os norte-americanos sobre as políticas que seriam implementas pelos democratas se conseguissem derrotar o malvadão do século Donald Trump. Numa eleição cheia de perguntas sem respostas, Joe Biden foi eleito o 46º presidente dos Estados Unidos, mesmo não tendo saído do porão de sua residência, nem para debates com o seu oponente. No imaginário de milhões de cidadãos, pairava a dúvida das acusações dos inimigos de Biden sobre a guinada radical do partido para o lado extremo da esquerda americana. Sabe-se que o nome do ex-vice de Barack Obama não foi empurrado para fora das primárias democratas à toa. Ele poderia, tranquilamente, derrubar a retórica inflamada de que o partido flertava com políticas radicais como a agenda de identidade de gênero, big government, socialismo na América e até um dedinho mais pesado no controle social e econômico por parte da esfera federal.

Bem, o que era flerte virou casamento. E dos mais pomposos! Em apenas dez meses, nunca na história da nação mais próspera do mundo um presidente viu seus números de aprovação derreterem em tão pouco tempo. E não é por suas gafes nem perdas de memória ao vivo. Há alguns artigos aqui em Oeste cheios de detalhes sobre os passos da atual administração que faz Jimmy Carter parecer um bom presidente: o desastre da retirada caótica das tropas americanas do Afeganistão; a crise imigratória sem precedentes na fronteira sul com a entrada de quase 2 milhões de ilegais apenas neste ano; a estagnação e a inflação combinadas e firmadas como caminho econômico (stagflation), mesmo com a recuperação econômica em curso deixada por Trump; a crise nos portos e as prateleiras vazias em todo o país; os sinais de fraqueza militar diante do mundo; a interrupção da independência energética; o desemprego nas alturas… and counting.

Tudo isso poderia fazer parte de uma crise “compreensível” dentro de uma pandemia global (análise dos democratas mais ferrenhos) se não fosse a continuação da agenda no novo radical Partido Democrata que prega, dia sim e outro também, que forças policiais são malvadas e desnecessárias, que toda pessoa branca é racista por natureza, que todo menino que “se sente” como menina tem o direito de usar o banheiro feminino, que aborto até o último mês de gravidez é questão de “saúde pública”, que assassinos, estupradores e criminosos que estão na prisão deveriam ter o direito de votar; entre outros pontos surreais que são parte de uma agenda ideológica nefasta.

Em 20 de janeiro de 2021, em seu discurso de posse, Joe Biden prometeu “unir” uma América dividida pelo bufão nazista-fascista que estava prestes a acabar com a democracia nos EUA. Pois bem, depois de dez meses na Casa Branca, pouquíssimas aparições e muitas gafes, Joe Biden conseguiu mostrar as verdadeiras cores de seu governo, que em nada, absolutamente nada, refletem as palavras proferidas em janeiro.

A agenda marxista de “negros versus brancos”, “mulheres versus homens”, “ricos versus pobres”, “filhos versus pais”, “vacinados versus não vacinados” está a todo vapor desde 21 de janeiro de 2021. E essa agenda assustadora que inclui a aceitação obrigatória de 47 gêneros, não apenas masculino e feminino, não ficou restrita à esfera de debates políticos vazios ou às castas de abastados desmiolados em Hollywood. Ela chegou com uma força avassaladora, impulsada pelo governo federal, às escolas.

Em vários distritos escolares nos Estados democratas, professores tentam aplicar cursos como “Explorando e Compreendendo a Branquitude” e “Como Ser um Educador Antirracista”, em que os militantes disfarçados de educadores empurram barbáries baseadas na doutrina conhecida como Critical Race Theory, ou CRT, algo como “Teoria Racial Crítica”. Esses cursos pregam o “pecado original” de crianças brancas que, teoricamente, nascem sem saber que são racistas por natureza (mas são!) e, por isso, ajudam a sociedade a “assassinar o espírito das crianças negras”. Chocados? Apertem o cinto.

A política norte-americana, assim como no Brasil, é hoje muito bem delimitada. Não é difícil identificar quem vota em democratas ou republicanos. No entanto, há um ponto de convergência entre eles que parece não acompanhar o pêndulo político-ideológico. Filhos. Você pode até ter uma simpatia por políticas mais invasivas do governo na economia ou em programas sociais, mas essa simpatia acaba quando o assunto é a invasão do governo na esfera da educação familiar e o que os pais podem ou não demandar das escolas públicas pagas com dinheiro desses pais, republicanos e democratas.

Enquanto no Brasil o vermelho simboliza a cor de partidos de esquerda, nos EUA é o oposto. O vermelho é a cor dos republicanos e o azul a dos democratas. No cenário eleitoral no país, os Estados são divididos entre os blue states (que votam nos democratas), os red states (que votam nos republicanos) e os purple states (os Estados roxos, que votam em candidatos dos dois partidos).

Nesta semana, o pêndulo político de um desses Estados azuis mudou de maneira surpreendente. Talvez surpreendente para muitos democratas, mas não para milhões de americanos que acompanham a política nacional com o pragmatismo característico ianque. A Virgínia, um Estado considerado deep blue, ou seja, que vota fervorosamente com os democratas há muitos anos, elegeu um novo governador, uma nova vice-governadora (eleita separadamente) e um novo procurador-geral do Estado. Todos do Partido Republicano. A corrida, que aconteceu em 2 de novembro, foi a primeira prova do governo Joe Biden e pode ser um termômetro para as eleições legislativas em 2022, os chamados midterms, quando republicanos podem reconquistar a maioria na Câmara e no Senado.

Em maio, um garoto, autointitulando-se uma pessoa do gênero oposto, entrou no banheiro feminino e estuprou uma menina

Glenn Youngkin, Winsome Sears e Jason Miyares não derrotaram apenas candidatos do partido oponente que domina o Estado desde 2003, mas uma agenda bizarra que saiu das cabeças desmioladas dos justiceiros sociais em Washington e está sendo empurrada em parques e escolas.

É fato que essa agenda radical de políticas identitárias e segregacionistas vem incomodando milhares de pais, e, se ela tivesse ficado restrita à redoma hollywoodiana e seus parquinhos-satélites, talvez democratas continuariam tranquilos em seus gabinetes nos Estados deep blue. O problema é que jacobinos, como escrevi em meu artigo da semana passada sobre o linchamento do jogador de vôlei Maurício Souza, não conseguem se desvencilhar do radicalismo vil. Há quase cinco anos escrevo sobre os perigos da agenda impositiva e sem o menor debate sobre transexuais no esporte e no universo feminino. E um dos perigos é a normalização de homens biológicos que “se sentem” como mulheres invadindo espaços particularmente sensíveis para nós, espaços que vão além de quadras e campos esportivos. Falo de banheiros, vestiários e dormitórios.

E não foi por falta de tantos alertas feitos por tantas mulheres. O resultado que mais temíamos dessa agenda lúgubre aconteceu. Em maio deste ano, um garoto, usando saias e se autointitulando uma pessoa do gênero oposto, entrou no banheiro feminino de uma escola do Condado de Loudoun, na Virgínia, e estuprou uma menina menor de idade. Em junho, durante uma reunião do conselho das escolas públicas do condado, Scott Smith, pai da menina estuprada, pediu satisfação à escola em público e, sem obter resposta, elevou o tom da voz e foi preso por questionar enfaticamente se a escola sabia do ocorrido. O vídeo do pai sendo derrubado no chão e algemado por policiais viralizou. Além de Smith, os pais presentes na reunião escolar estavam protestando contra a proposta do conselho de liberar o uso de banheiros e vestiários para qualquer aluno que se identificasse como transexual, mesmo sem nenhuma avaliação. Os questionamentos foram totalmente ignorados, e, logo após o término do recesso escolar de julho, o conselho aprovou a proposta que autorizava o uso de banheiros e vestiários de acordo com “a identidade social” de cada aluno.

Diante dos vídeos que correram as redes sociais da reunião em que Smith foi preso, a escola em questão soltou um pronunciamento oficial sobre o alegado estupro, afirmando que jamais houve tal crime cometido por um aluno transgênero em nenhuma das escolas do Condado de Loudoun. No memorando, distribuído para os pais e para a imprensa, membros do conselho escolar afirmaram que “nossos estudantes não precisam ser protegidos, e eles não estão em perigo. Por acaso temos ataques regulares em nossos banheiros e vestiários?”, dizia o documento. O superintendente do distrito, Scott Ziegler, chegou a afirmar que não havia nenhum registro de estupros ocorrido nos banheiros da escola, completando que essa “pessoa predatória que se identifica como transgênero não existe”.

E aqui, nesse ponto, o pêndulo democrata desaparece. A política não chega aonde filhos estão desprotegidos e pais enfurecidos. Com pouco menos de um mês das eleições para o governo estadual da Virgínia, o candidato democrata Terry McAuliffe disse: “Eu não deixarei que os pais entrem nas escolas e tirem livros e tomem suas próprias decisões. Não acho que os pais devam dizer às escolas o que elas devem ensinar”. O sinal havia sido dado. Imediatamente, a Associação Nacional de Conselhos Escolares enviou uma carta ao presidente Joe Biden pedindo que os pais que se colocassem contra a obrigatoriedade dos cursos que “promovem a luta contra o racismo” fossem considerados “terroristas domésticos” pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos da América. Sim, você leu corretamente.

Não parou por aí. O pedido “caiu” na mesa do procurador-geral dos Estados Unidos, Merrick Garland, e o resultado foi um comunicado oficial do Departamento de Justiça para que agentes do FBI se reunissem com as polícias locais para discutir como conter o “número crescente de ameaças contra membros de conselhos escolares, professores e outros funcionários da educação”. O impacto inicial foi, obviamente, o aplauso fácil da turba ridícula de militantes jacobinos. Não durou muito. No mesmo dia, pais se reuniram em um número muito maior — dessa vez por todo o país — e Garland foi chamado para uma audiência no Senado Federal em que foi massacrado com perguntas retóricas dos senadores republicanos. O assunto, que até ali estava na esfera da mídia estadual, tomou proporções nacionais, e pais por todo o país estavam furiosos por terem sido chamados, mesmo que indiretamente, de “terroristas domésticos”.

Nesse meio tempo, um juiz da Virgínia, diante de provas concretas, condena o rapaz autointitulado transexual que estuprou a menina no banheiro feminino da escola. Provas de que a escola acobertou o fato aparecem e a política, mais uma vez, desaparece. O sistema educacional e a segurança dos filhos unem pais de todos os espectros políticos. Glenn Youngkin, o candidato republicano, se colocou ao lado dos pais e focou sua campanha no perigo da agenda de políticas segregacionistas raciais e de identidade de gênero, ganhando força em todos os setores eleitorais em que democratas reinavam. Youngkin levou com folga condados democratas de grupos negros e latinos, assim como em grupos de mães solteiras. O resultado da imposição de um manual vil de destruição de parte do tecido social que alimenta uma sociedade moralmente saudável foi a perda do controle de um Estado vital para os democratas.

Glenn Youngkin, um rico empresário, conseguiu devolver o governo da Virgínia para os republicanos em uma corrida que teve o maior comparecimento entre os eleitores do Estado na história recente. A participação eleitoral nessa eleição foi maior do que em qualquer outra eleição para governador na Virgínia desde 1997. Winsome Sears, a vice-governadora eleita, imigrante, ex-militar e também republicana, é a primeira mulher negra na história do Estado a ocupar um cargo no Executivo estadual. Jason Miyares, eleito procurador-geral do Estado pelo partido republicano, também entra para a história como o primeiro latino a ocupar o cargo na Virgínia.

Parece que o Estado que nos deu George Washington, Thomas Jefferson e James Madison, Pais Fundadores da América, está agora sob o comando dos pais.

Leia também “Este homem é uma lutadora”

-Publicidade-
* O espaço para comentários é destinado ao debate saudável de ideias. Não serão aceitas postagens com expressões inapropriadas ou agressões pessoais.

28 comentários Ver comentários

  1. Ana Paula excelente artigo! Moro ha mais de 30 anos aqui nos EU, e sempre havia votado nos democratas, porem este partido democrata nao e mais o que era. Na ultiam eleicao apesar de nao gostar do jeito do Trump votei nele pois este partido democrata mudou e mudou para pior. Basicamente e um PSOL que fala ingles. Com muitos anos aqui nao tenho duvida que as eleicoes de mid-term no ano que vem vao modificar tremendamente o congresso. Biden e uma versao do Jimmy Carter mas muito pior. Os Estados unidos e de amneira geral um pais conservador, porem um grupo “selecto” quer empurrar uma agenda radical e se pode sentir um sentimento de revolta da classe media. Interessante e ver que a midia por aqui esta fazendo o mesmo que no Brasil, porem creio que esta onda de reacao a estes radicais de esquerda e inevitavel e vai vir muito forte nos proximos dois anos.

  2. Excelente, Ana Paula. Essa coluna acrescenta muito como base para o debate com pessoas que seguem à mídia tradicional e acreditam ser um poço de virtudes por defenderem supostamente a tolerância e integração. Numa roda de amigos, o meu argumento que a liberação de banheiro feminino para pessoas do sexo masculino elevaria o risco de estupro para mulheres de todas as idades foi considerado fora da realidade, quase um absurdo. Além do mais, demostravam ter dó do constrangimento de um ou outro rapaz (que eu até tenho também), mas não se ligavam no constrangimento de milhares de meninas e mulheres.

  3. Excelente texto Ana. ” Pelo Maurício, pela FAMÍLIA, pelo Brasil “. Basta boicotarmos Políticos, Empresas, Mídia……….que ousem se meter nesta imposição à família.

  4. Só estamos desse jeito, porquê deixaram ficar assim. Essas situações ridículas, deveriam ter sido combatodas desde o início. Agora é tarde!!

    1. Maravilha, Ana. Obrigado por nos tirar da obscuridade que esse mídia tirana tenta impor. Brilhante matéria, que abre grandes possibilidades de discussão. Muito satisfeita com a assinatura dessa revista. Gratidão.

  5. Tãp bom ter alguém que explica o que acontece nos Estados Unidos. Moro na Flórida, e casa vez que vou ao Brasil, me dá preguiça explicar o que acontece por aqui. Os amigos dizem “Trump?! como assim?!”. Bocejo.

  6. É aquela história do jogador de vôlei. Hoje é superman gay. Amanhã são mulher maravilha lésbica, o Batman gay, a Branca de Neve trans, os anoezinhos gays, a vovozinha lésbica etc. Só personagens infantis assim. Mas podem ir além, dizendo que pedofilia faz parte do desenvolvimento da criança e é bom. Tivemos recentemente uma CPI com gente que pensa assim. Os pais ou calam a boca ou vão para a cadeia por intolerância à pedofilia. Talvez proibiram os brancos de se relacionarem com brancos. Os brancos só poderão se relacionar sexualmente só com negros para começarem a criar uma raça “pura”. Já li sobre isso em livros sobre a Alemanha Nazista. Exagero? Vai vendo Brasil, vai vendo. Tudo isso com anuência da Fiat e Gerdau que com certeza demitirao aqueles funcionários que por qualquer ração não quiserem ou não poderão se vacinar. Triste um mundo onde brancos, negros, amarelos, indios, homossexuais, etc. estão proibidos de conviver em paz por causa de uns militantes jacobinos.

  7. Paula, fantástica como sempre em sua articulação literária sobre fatos que nos tocam bem de perto, mostrando a atual realidade da, ainda, maior democracia do planeta.

  8. Enquanto Rússia e China pintam o demônio pra se segurar nos estribos e manter o status quo ideológico, EUA fazem black-friday daquilo que têm de melhor. É sempre bom lembrar de uma regrinha básica do livro A Arte da Guerra, que diz mais ou menos assim: “Não adianta pensar que o inimigo não vem, porque um dia ele vem”. E pelo jeito virá.

  9. Texto simplesmente belíssimo e necessário para nos manter informados. Tempos difíceis estamos vivendo, mas a certeza de que o bem sempre vencerá é o que nos conforta.

  10. Surreal o que está acontecendo. Pelo menos nos EUA há uma sociedade civil atuante, capaz e com coragem de enfrentar o poder instituído. Que tudo isso sirva de exemplo para o Brasil.

  11. Essa política de que tudo é normal e correto, independentemente de características físico- genéticas é o caminho certo para Sodoma e Gomorra.

    1. Essas aberrações sobre costumes, opções sexuais, linguagem do “tudes”,exagero sobre cotas de raça nas universidades brasileiras, já saíram dos limites do aceitável.A sociedade em geral tem medo de expressar o que realmente pensa ou emburreceu de vez.

      1. fico com a primeira possibilidade, teresa. estamos com medo. vi e ouvi, recentemente, a equipe de esportes da JP, sim da jovem pan, amarelar, comentando o caso Mauricio/tenis clube. De maneira constrangida deram razão aos lacradores/patrocinadores. Esqueceram que os “donos” do clube são os seus associados e torcedores. Alem da tristeza, casos assim preocupam.

  12. Muito interessante a sociedade geral perceber o erro político na questão desses pais que decidiram defender os seus filhos! A sociedade norteamericana tem dessas particularidades que muito dos brasileiros não compreendem.
    Torço para que os brasileiros compreendam o que é o socialismo e decidam dar um basta nas próximas eleições!

Envie um comentário

Conteúdo exclusivo para assinantes.

Seja nosso assinante!
Tenha acesso ilimitado a todo conteúdo por apenas R$ 23,90 mensais.

Revista OESTE, a primeira plataforma de conteúdo cem por cento
comprometida com a defesa do capitalismo e do livre mercado.

Meios de pagamento
Site seguro
Seja nosso assinante!

Reportagens e artigos exclusivos produzidos pela melhor equipe de jornalistas do Brasil.