O ministro do STF Dias Toffoli | Foto: Agência Brasil
O ministro do STF Dias Toffoli | Foto: Agência Brasil

Os imperadores do Supremo Tribunal Federal

Dias Toffoli diz que o STF é moderador do 'semipresidencialismo' brasileiro e tenta esvaziar a Praça dos Três Poderes

Artigo 98 da Constituição Imperial de 1824: “O Poder Moderador é a chave de toda a organização política e é delegado privativamente ao imperador, como chefe supremo da nação e seu primeiro representante, para que incessantemente vele sobre a manutenção da independência, equilíbrio e harmonia dos demais Poderes políticos”. O texto foi redigido há quase 200 anos, em benefício do imperador Dom Pedro II. Mas aparentemente continua valendo, segundo o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli, ex-presidente da Corte.

“Nós já temos um semipresidencialismo com controle de Poder Moderador, que hoje é exercido pelo Supremo Tribunal Federal. Basta verificar todo esse período da pandemia”, disse o ministro no 9º Fórum Jurídico de Lisboa, em Portugal.

Na prática, Dias Toffoli vocalizou ao que o brasileiro assiste diariamente há alguns anos: o STF legisla, julga, prende e, sempre que possível, interfere nas ações do Executivo. Boa parte dos senadores está acovardada por processos pendentes nos gabinetes dos ministros da Corte. Basta notar que Rodrigo Pacheco não teve coragem de pautar nem sequer um processo de impeachment contra os magistrados. Mas a fala de Toffoli é mais grave do que parece. Em suma, coloca em xeque o sistema de contrapesos da Praça dos Três Poderes estabelecido pela Constituição de 1988.

“Esse pronunciamento vai contra o que está na Constituição”, afirmou a presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara, deputada Bia Kicis (PSL-DF). “Ela foi até desenhada para o parlamentarismo, mas a opção feita pelo constituinte de 1988 foi o presidencialismo. Temos um presidente eleito. Não existe previsão constitucional de Poder Moderador, como se o STF fosse alçado a uma posição de moderar o Executivo e o Legislativo. Temos de exigir o respeito a nós, que fomos eleitos. Se tiver alguma mudança, ela terá de passar por esta Casa e por esta CCJ.”

O ministro Dias Toffoli afirma não reconhecer o regime presidencialista em curso

Para o jurista e advogado Ives Gandra Martins, o Judiciário não deveria se intrometer na política, já que sua função é preservar a lei. “O Poder Judiciário jamais pode ser Poder político porque, se for, deixa de ser um intérprete da lei e passa a ser um criador da lei”, disse Gandra. “Não existe semipresidencialismo. O Poder Judiciário não é Poder político. O Poder Moderador tem de ser representativo do povo.”

Também consultado por Oeste, Modesto Carvalhosa, professor de Direito, criticou a declaração do ministro afirmando que o Supremo age politicamente. “Não existe Poder Moderador no Brasil. Mas hoje o STF é hegemônico, é quem governa e resolve todas as questões”, disse. “Tudo o que sai do tribunal tem natureza política, e não constitucional, como deveria ser”.

 

A última vez que o modelo presidencialista foi minimamente relaxado ocorreu no curto mandato de Michel Temer. Egresso do Legislativo, onde presidiu a Câmara mais de uma vez e deu as cartas durante muitos anos, Temer delegou decisões ao Congresso para debelar um pedido revanchista de impeachment da esquerda e tentar aprovar sua agenda de reformas.

Ele segue entusiasta da mudança de regime. No mesmo evento em Lisboa, ao lado do ministro do STF Gilmar Mendes, do ex-prefeito Gilberto Kassab, dono do PSD, e de “catedráticos” do Direito moderno, disse que é preciso acabar com a centralização, com o multipartidarismo e com “os impeachments a todo momento”.

Os deuses da Corte

Há, contudo, uma diferença nos discursos. Michel Temer quer mudar o regime por meio do Parlamento — embora o caminho correto seja um plebiscito. Já o ministro Dias Toffoli afirma não reconhecer o regime presidencialista em curso. Disse que o STF manda e ponto final. É possível que falte a ele notável saber jurídico. Afinal, chegou à Alta Corte sem sequer ter sido aprovado num único concurso para juiz de primeira instância. Sua nomeação foi um presente pelos anos em que advogou para o PT de Lula e José Dirceu. Outras tantas decisões arbitrárias saíram de gabinetes contíguos. Como o de Alexandre de Moraes, que impediu o deputado federal eleito Daniel Silveira (PSL-RJ) de dar entrevistas ou usar as redes sociais depois de uma temporada na cadeia pelo intangível crime de opinião.

No ano passado, em meio a uma das tantas turbulências entre o Judiciário e o Palácio do Planalto, o presidente do STF, Luiz Fux, foi provocado pelo PDT sobre a figura do Poder Moderador. Na época, a oposição ameaçava forçar um processo para tirar o presidente Jair Bolsonaro do cargo por causa da pandemia. Ives Gandra Martins discorreu sobre o artigo 142 da Constituição, que trata da convocação das Forças Armadas para garantir a lei e a ordem no país em caso de intromissão entre Poderes. O presidente do PTB, Roberto Jefferson, foi preso — entre outras razões — por ter defendido isso. A Corte concordou que o Exército não pode exercer esse papel.

Na ocasião, Fux foi taxativo contra “intromissões no independente funcionamento dos Poderes” (vide tuíte abaixo) e riscou a ideia da caneta moderadora para quem quer que seja. Não se sabe agora se Toffoli não entendeu o que Fux escreveu, ou se acha que a decisão não vale para o STF.

 

O avanço da toga sobre os demais Poderes tampouco chega a ser novidade. Há anos corre uma piada nos bastidores de Brasília. Segundo ela, alguns ministros da Corte acham que são deuses. Os demais têm certeza.

Leia também “Um deputado é o alvo predileto do carcereiro fora da lei”

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25 comentários Ver comentários

  1. Se o artigo 142 da Constituição trata da convocação das Forças Armadas para garantir a lei e a ordem no país em caso de intromissão entre Poderes e a Corte concordou que o Exército não pode exercer esse papel, então já não está caracterizada a necessidade da intervenção das Forças Armadas, pois o Exército representa as Forças Armadas? Ou é preciso uma reunião de cúpula das Forças Armadas para uma ação conjunta?

  2. O vermelho do STF falou algo que é real. Nossa Suprema Corte é ativista, e contrariando nossa Constituição, pretende controlar os outros dois poderes. No mais, seus integrantes, imbuídos de poderes divinos, quando se consideram ‘vitimas’, podem atropelar o Ministério Publico e prender cidadãos a vontade. Passa da hora do Senado colocar um basta nessa farra.

  3. Slm 22:28  Porque o reino é do SENHOR, e ele domina entre as nações. 

    Slm 47:7  Pois Deus é o Rei de toda a terra; cantai louvores com inteligência. 

  4. Não podemos permitir que 10 medíocres metidos as tiranos determinem a nossa vida! Se as forças armadas não cumprem o seu papel consitucional cabe a nós, o povo, cercar esses malditos, faze-los ter medo e exigir sua imediata renúncia sob penas de serem retirados á força.

  5. O que Dias Toffolli fez foi sinalizar aos globalistas algo do tipo: “… venham, o Brasil é de vocês… nós “garantimos” o seu sucesso…”. É aí que está o perigo, não é à toa que soltaram o Luladrão e ele está fazendo esse tour pela Europa globalista. Esse é o verdadeiro perigo… eles são traidores da Pátria.

  6. Silvio, se provocadas, as Cortes Internacionais não poderiam opinar e condenar essa ilegal intromissão do poder Judiciário nos demais poderes, face ao texto Constitucional de 1988? Nossos grandes mestres do Direito e Constituintes como Ives Gandra Martins, Adilson Dallari e outros não poderiam ser os autores dessa demanda? Afinal, o que esta errado no art.142 da CF? Como as Cortes Internacionais o interpretariam? Por que a covardia de nosso inútil Senado Federal à essas autoritárias e algumas ilegais decisões do STF, como a “descondenação” de Lula para torna-lo elegível?

  7. PRECISAMOS DE PAUTAS REAIS.
    BRIGUEM PELO ESTATUTO DA MAGISTRATURA
    LEIAM O ART. 93 DA CONSTITUIÇÃO!!!!!!!!
    CHORAR NÃO É UMA OPÇÃO VERDADEIRA.

  8. Parabéns Oeste, por mais uma matéria de qualidade. A frase desse vagabundo de toga não sair na imprensa é simplesmente um escândalo. Obviamente eles estão mais interessados em discutir o banheiro inclusivo do McDonalds.

  9. Vale lembrar que Toffoli foi reprovado na PRIMEIRA FASE dos concursos para juiz substituto, que tem três fases. A primeira é para eliminar “paraquedistas”.

  10. Esses canalhas, vagabundos, verdadeiros sanguesugas da nação, precisam ser escorraçados a pontapés, COM A MÁXIMA URGÊNCIA.
    O Brasil que presta não aguenta mais, já passou da hora. Quando é que o verdadeiro poder moderador vai agir?

  11. Só tem um poder, causador de toda a crise institucional que vivemos. Esse poder é o STF. Ligado à esquerda, usa de sua posição para derrubar o governo. Passa por cima da constituição sem preocupação com o Senado, que come em sua mão. Solução: o povo deve atuar como poder moderador, afinal é o patrão. Se para isso precisar recorrer às FFAA, ela deve atender. A eliminação do ministros do STF seria a solução.

  12. Façam um plebiscito sim, mas para ver quem fica e quem sai das cadeiras no STF, envergonhadas desde que o partido mais imundo surgiu e chegou ao governo, o PT. Se eu fosse apostar, 9 dos 10 (sim, porque o 11º está sendo chantageado por um senador que também deveria ser objeto de um plebiscito – e teria de largar o cargo que sujou), nove (!) iriam pra rua! Vergonha. Vergonha!

  13. O juridiquês que seres de diretório acadêmico impuseram à nação a expressão “interpretar a Constituição ou interpretar leis” virou afazer de juízes.
    Mas pelo estudo jurídico aos juízes é atribuída a função de garantir o CUMPRIMENTO DA LEI” pois interpretar deve ser ao máximo evitado e só utilizado quando a lei não for explícita e peremptória sobre o tema. Vale o escrito!
    Ives Gandra devia saber disso. Que vergonha!

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