Ilustração: Sergey Nivens/Shutterstock
Ilustração: Sergey Nivens/Shutterstock

Sonhos sob controle

A descoberta do “sonho lúcido” pode nos levar a uma viagem pela nossa própria mente

Esta noite eu tive um longo sonho. No fim, estava no corredor lateral de um cinema gigante. É todo acarpetado em vermelho, com paredes aveludadas na mesma cor. Quase sou capaz de sentir o cheiro de naftalina. Vejo uma senhora no pé da escada. Flutuo até ela, percebo que é minha querida tia Rina — que faleceu há décadas.

Chamo pelo nome. Ela não atende. Toco em seu ombro. E tia Rina continua sem perceber que eu existo. Concluo que ela está viva. Eu estou morto. E meu espírito vaga pelo auditório de um cinemão que não existe mais. Mas não fico chocado. Por uma razão que muda tudo.

Eu sabia que estava sonhando.

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Até 1953, mesmo a percepção de que a gente sonhava podia passar imperceptível para o mundo “acordado”. Naquele ano, pesquisadores da Universidade de Chicago conseguiram provas ligando o que ficou conhecido como REM (Movimento Rápido dos Olhos) com sonhos agitados e vívidos. Nossos globos oculares se movem sob as pálpebras como se quisessem olhar para todos os lados ao mesmo tempo. Se você tem um cão ou um gato em casa, sabe que eles também manifestam o REM.

Despertados durante o REM, cerca de 80% dos voluntários descreveram sonhos visuais. Mas a realidade surge distorcida em cores e formas. E existe uma espécie de “edição mental dos sonhos” que nos faz num momento caminhar pela sala e no momento seguinte viajar num ônibus à beira do abismo. É o chamado D-state (“estado de sonho”). Essa “realidade” existe dentro de nossas mentes, segue uma lógica própria, fora de nosso controle. Pelo menos até agora.

“Sonhos nos levam a uma realidade diferente, um mundo alucinatório tão real quanto qualquer experiência no estado desperto”, definiu a Enciclopédia Britânica. Existem muitas teorias, mas ainda não temos uma resposta exata para o fato que sonhamos desde o ventre de nossa mãe. Sabemos que é uma necessidade. Pessoas submetidas à privação de sono entram num estado de alucinação. O recado é simples: se a gente parar de sonhar, enlouquece.

Estrada real para o inconsciente

Sonhos costumam ser mais complicados em algumas das fases mais delicadas de nossas vidas. Segundo a Britânica, os piores pesadelos costumam acontecer entre os 4 e 10 anos de idade, e em seguida dos 12 aos 14 anos. Existe uma teoria segundo a qual esses pesadelos nos treinam mentalmente a enfrentar os terrores da infância e da adolescência. É quando o futuro parece especialmente assustador e imaginamos que existam monstros debaixo da cama ou dentro do armário.

Tentar compreender os sonhos é uma tarefa tão antiga quanto a própria humanidade. Na Antiguidade, egípcios, gregos, hindus, babilônios, hebreus, todos acreditavam que os sonhos podiam prever o futuro ou nos fazer entrar em contato com divindades.

Segundo Jung, a gente sonha 24 horas, mas só durante o sono esse fluxo chega à superfície de nossa consciência

Uma concepção mais científica surgiu quando Sigmund Freud lançou, em 1899, seu clássico A Interpretação dos Sonhos. Ele dizia que os sonhos eram “a estrada real para o conhecimento de atividades da mente inconsciente”. Ou seja, sonhar era como “mandar uma carta para nós mesmos”, dando pistas sobre questões não resolvidas em nossa vida consciente. É parte integrante da terapia freudiana ligar elementos aparentemente desconexos de nossos sonhos.

Seu colega Carl Jung tinha uma visão diferente. Segundo ele, a gente sonha 24 horas por dia, mas só durante o sono esse fluxo chega à superfície de nossa consciência. Sonhos não esconderiam desejos proibidos (como acreditava Freud), mas chamariam a atenção para áreas de nossa mente que precisam de cuidados especiais. Ao analisar os sonhos de seus pacientes, Freud e Jung dependiam de seus depoimentos já despertos. Muita coisa ficava esquecida, ou distorcida. Eram duas vidas — a realidade e o sonho — em mundos paralelos.

A revista BBC Science Focus publicou uma reportagem mostrando que estamos conseguindo estabelecer um canal de comunicação entre esses dois estados, antes incomunicáveis. Esses estudos existem desde a década de 1980, mas estão tomando um impulso entusiasmado agora em vários institutos de pesquisa. A reportagem destaca o estudo de dois cientistas da Northwestern University na área do chamado “sonho lúcido”.

Um sonho é lúcido quando você sabe que está sonhando. Cria no sonhador uma consciência dessa condição que o torna um elemento ativo dentro desse universo. Os doutores Ken Paller e Karen Konkoly pesquisaram o sonho lúcido de 36 voluntários de países diferentes. E estabeleceram com eles um contato através de movimentos dos olhos e contrações faciais.

Pesadelos interrompidos

O que vários cientistas da área estão fazendo é permitir que a gente consiga se expressar para o mundo externo enquanto sonha. Os doutores Paller e Konkoloy descreveram a conquista como “falar com um astronauta que está em outro mundo, inteiramente fabricado com base nas lembranças armazenadas no cérebro”.

As pesquisas ainda estão em estágios iniciais, mas hoje ninguém duvida que essa possibilidade de comunicação é real. Um caso conhecido é o do ex-comediante inglês Dave Green, que, trancado em casa durante a pandemia, se dedicou à técnica de imaginar imagens durante seus sonhos lúcidos. Desperto, ele reproduz as figuras de sua memória. Seus desenhos são no mínimo estranhos. Mas o que ele gosta de fazer mesmo é voar em seus sonhos. E Dave decide quando quer voar.

Desenhos feitos por Dave Green em seus sonhos | Foto: Divulgação

Além de ser uma possibilidade fascinante em si, o sonho lúcido promete aplicações práticas para o futuro. Uma é incrementar nossa capacidade de estudo e criatividade com a exploração de áreas ainda desconhecidas de nossa mente. Outra é inaugurar uma nova fase na psicoterapia. A técnica faria inveja a Freud e Jung — o terapeuta poderá “entrevistar” seu paciente enquanto ele está sonhando. As perspectivas são infinitas. Com a técnica do sonho lúcido, você poderá se tornar capaz de interromper, por exemplo, um pesadelo recorrente e sair dele por vontade própria.

Entrar no estado de sonho lúcido, segundo a reportagem da BBC Science Focus, é uma questão de treinamento e disciplina. O interessado precisa estabelecer, quando desperto, um atalho para seu inconsciente. Estas são três técnicas simples apresentadas pela revista:

  1. Teste de realidade – Transforme em hábito checar se certas coisas simples são possíveis. A reportagem sugere que você mantenha as mãos afastadas e tente apertar a palma de uma mão com os dedos da outra. No mundo desperto, é impossível. E, quanto mais você tentar esse gesto impossível enquanto estiver acordado, mais provavelmente vai tentar realizar quando estiver sonhando. Quando perceber que está conseguindo realizar o que não conseguia fazer acordado, terá a consciência de que está sonhando.
  2. WBTB (Wake Back to Bed, ou Acorde de Volta para a Cama”) – Sonhos lúcidos acontecem durante os sonos REM, que ocorrem geralmente duas a três horas antes que você acorde. Esta técnica consiste em colocar o despertador para tocar duas ou três horas antes do momento em que você precisa se levantar. Se você for despertado no meio de um sonho, volte a dormir desejando conscientemente retornar a ele. Com algum treino, você poderá retornar em modo lúcido.
  3. Mild (Mnemonic Induction of Lucid Dreams, ou Indução Mnemônica de Sonhos Lúcidos) – É mais simples ainda: antes de dormir, repita muitas vezes a frase: “Da próxima vez que eu sonhar, vou lembrar que estou sonhando”. Ensine seu cérebro a se tornar consciente. O artista/comediante Dave Green costuma ir para a cama repetindo mentalmente a si mesmo: “Hoje eu vou ter um sonho lúcido e criar um desenho”.

O sonho lúcido traz uma nova perspectiva. Viajar pela mente, conhecer os próprios segredos, decifrar enigmas que se repetem noite após noite. E, se possível, entender por que minha tia Rina não atendeu ao meu chamado naquele imenso cinema todo vermelho.

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