Emicida, Anitta e Maurício Souza e a cultura <i>woke</i> | Foto: Montagem Revista Oeste/Divulgação
Emicida, Anitta e Maurício Souza e a cultura woke | Foto: Montagem Revista Oeste/Divulgação

Capitalismo antilacrador

Organização nos EUA trabalha para que empresas produzam lucro, bons serviços e caridade. E não militância histérica

“As pessoas estão cansadas de companhias woke, cansadas da lacração em geral e cansadas de empresas que colocam seu ativismo de justiça social acima da geração de lucros para seus acionistas.”

Quem disse isso foi Dan Grant, ex-banqueiro e executivo-chefe de uma empresa/organização americana chamada 2ndVote Advisers (ou “conselheiros do segundo voto”). “Estamos dizendo aos CEOs para parar de fazer o que a esquerda os pressiona a fazer”, resume Grant.

A 2ndVote Advisers jura que sua atuação não é política. E que eles apenas apoiam a ideia do economista (e ícone do liberalismo) Milton Friedman. Friedman dizia que a única responsabilidade de uma empresa é fazer dinheiro. Segundo essa visão, um empreendimento deve lucrar, gerar riqueza, impostos, filantropia e bons serviços. O que eventualmente beneficiará a população como um todo. Já quem lacra beneficia apenas bolhas militantes.

A área de atuação da 2ndVote Advisers é monitorar as empresas americanas segundo o grau de ativismo político. O grupo criou ETFs (fundos de ações) direcionados para empresas não lacradoras. E pode se tornar uma arma poderosa. Só neste ano, segundo reportagem da revista Bloomberg Businessweek, US$ 720 bilhões no total foram aplicados em ETFs. “Nossos fundos promovem corporações focadas no valor dos acionistas, no lucro e na caridade tradicional — não na agenda do capitalismo progressista”, afirma em seu site.

Lacrar pode ser um tiro no pé. Vamos pegar o caso exemplar do Nubank. Criado em 2013, é uma empresa pioneira no Brasil. Estabeleceu entre nós o conceito de fintech. E tirou o poder dos quatro grandes bancos (do Brasil, Bradesco, Itaú e Santander) que operavam em regime de quase oligopólio. O Nubank surgiu com seu cartão roxo e estabeleceu práticas inéditas de abertura de conta, com uma agilidade que os grandes bancos, imersos na burocracia, não conseguiam oferecer. A base de clientes explodiu em pouco tempo. As pessoas abriam suas contas em casa, através do celular, durante qualquer hora do dia.

A caminhada da vergonha

Até junho deste ano, o Nubank havia incluído 3,8 milhões de brasileiros no sistema bancário — brancos, negros, mulatos, orientais, ruivos, indígenas, mas essencialmente de parcelas mais pobres da população. Pipoqueiros, faxineiras e vendedores de guarda-chuva agora tinham um banco para facilitar suas vidas.

O “rosto” do Nubank ficou sendo o de Cristina Junqueira, cofundadora da fintech. Tudo caminhava muito bem para a empresa até o dia 19 de outubro de 2020. Cristina foi entrevistada pelo programa Roda Viva, da TV Cultura. Durante a entrevista, uma jornalista (branca) fez a pergunta lacradora: “Que tipo de ações afirmativas vocês estão planejando para colocar mais negros na liderança do Nubank e o que estão fazendo para tratar o racismo algorítmico?”. A ativista de redação não se deu ao trabalho de explicar o que vem a ser esse tal “racismo algorítmico”.

Cristina Junqueira deveria ter dado uma resposta curta e irônica à militante da revista Forbes e seguir em frente. Mas cometeu o erro de tentar responder com argumentos lógicos. Cristina disse, entre outras coisas, que o Nubank tinha investido “em formação para garantir que o acesso que a gente está tendo no pool de candidatos seja o mais diverso possível”. Mas, para ser bem-sucedido (e alcançar os resultados que tinha alcançado), o banco tinha de seguir um alto grau de exigência profissional.

A jornalista woke não se satisfez. Perguntou se esse grau de exigência não era uma “barreira para negros”. Cristina Junqueira disse o óbvio: “Não dá para a gente nivelar por baixo”, afirmou. “Por isso fazemos esse investimento em formação gratuita para ensinar a ciência de dados, e a gente vai capacitar essas pessoas. Não adianta a gente colocar alguém para dentro que não vai ter condição de trabalhar com nossas equipes. Em vez de resolver um problema, vamos criar outro.”

A personagem Cersei, de Game of Thrones | Foto: Divulgação

No dia seguinte, como a personagem Cersei Lannister, da série Game of Thrones, Cristina Junqueira teve de enfrentar a “caminhada da vergonha”. Para pagar por seu pecado, foi metaforicamente cuspida, agredida, ofendida na escadaria da mídia esquerdista pela frase “não dá para a gente nivelar por baixo”, dolorosamente arrancada de seu contexto.

“300 anos de escravidão oficial”

Já não importava mais o que Cristina Junqueira tinha dito na entrevista. Mas, sim, como outros jornalistas militantes distorciam o fato em manchetes como “Após fala racista, Nubank promete reparação histórica”; “Fundadora do Nubank diz que é difícil contratar negro e que não quer ‘nivelar por baixo’”; “Nubank vai de ‘queridinho’ a acusado de racismo após fala de cofundadora”.

Em questão de dias, o banco inovador abandonava sua racionalidade econômica e se desculpava num comunicado ao público que parecia (mal) escrito por um militante do Psol: “Ficamos acomodados com o progresso que tivemos nos nossos primeiros anos de vida que se refletia em algumas estatísticas relativas à igualdade de gênero e LGBTQIA+, por exemplo, que, repetidas, mascaravam a necessidade urgente de posicionamento ativo também na pauta antirracista. Avançar, dentro e fora de casa, com uma agenda de reparação histórica e de combate ao racismo estrutural”.

As manchetes começaram a mudar: “Nubank anuncia R$ 20 milhões em medidas contra o racismo após polêmica”. Para onde iriam esses R$ 20 milhões? Para “uma série de iniciativas de combate ao racismo estrutural”, para uma “agenda de reparação histórica” e para o contato com “ativistas e instituições que trabalham combatendo o racismo”. Uma pergunta idiota num programa a que quase mais ninguém assiste colocou a empresa de joelhos.

O mea-culpa continuou em junho deste ano, com o convite para a cantora Anitta virar “membro do Conselho de Administração do Nubank”. Anitta, até então mais conhecida por suas ousadias eróticas no palco, logo conseguiu sua carteirinha virtual de “progressista” se aconselhando com a comentarista política Gabriela Prioli (da CNN Brasil) e com o deputado federal Alessandro Molon. Hoje já é fluente na linguagem do antibolsonarismo e repete chavões contra o “racismo sistêmico”. Mas isso ainda era pouco.

Em 7 de outubro, o Nubank anunciou uma “parceria de conteúdo” com o “rapper, empresário, escritor e apresentador” conhecido como Emicida. Não sabemos quanto Emicida ganhou nessa parceria. Mas sabemos que ele é petista convicto, fiel devoto do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e autor de frases como: “O Brasil tem 300 anos de escravidão oficial”.

Essas ações ajudaram o Nubank? Ou atrapalharam? O que se sabe é que a instituição lucrou no mercado brasileiro R$ 76 milhões no primeiro semestre deste ano. Um número bem modesto para um banco que tem 41 milhões de clientes no Brasil. Segundo documentos oficiais da empresa citados pela revista Época Negócios, a cantora vai ganhar exatamente R$ 35.950.617 durante os próximos cinco anos em serviços de “marketing e publicidade”. Conclusão: a lacração aparentemente ajudou — e muito — duas pessoas: Anitta (que vai embolsar quase metade do lucro atual da empresa) e Emicida. Além, claro, de “ativistas e instituições que combatem o racismo”.

Mente aberta e consciência histórica

Outro caso que mostrou o poder da militância em grandes empresas aconteceu no dia 12 de outubro. O jogador de vôlei Maurício Souza, do Minas Tênis Clube, publicou numa rede social uma ilustração mostrando o novo Superman beijando outro homem e se declarando bissexual. Maurício publicou junto à ilustração o seguinte texto: “Ah, é só um desenho, não é nada demais. Vai nessa que vai ver onde vamos parar”.

Imediatamente a rede de lacradores da mídia entrou em ação e Maurício virou o “jogador homofóbico” do Minas Tênis Clube. A primeira reação do clube foi publicar nas redes um “Comunicado Oficial: o Minas Tênis Clube está ciente do posicionamento público do atleta Maurício Souza, do Fiat/Gerdau/Minas. Todos os atletas filiados à agremiação têm liberdade para se expressar livremente em suas redes sociais”. Essa declaração de princípios durou pouco tempo. Logo, a Fiat e a Gerdau conseguiram a exclusão de Maurício Souza do clube. E, na prática, a destruição de sua carreira.

Não se trata de tentar calar as vozes esquerdistas, mas de estabelecer um equilíbrio maior de ideias

Os exemplos de submissão do Nubank, da Fiat e da Gerdau à ação de ativistas formam um retrato de parte do capitalismo brasileiro. Algumas empresas respeitam mais os grupos histéricos de ativistas de esquerda do que seus clientes e acionistas. Ou, em linguagem técnica, valorizam mais os stakeholders (todas as partes interessadas: consumidores e fornecedores, por exemplo) do que os shareholders (acionistas). Como reagir a essa situação? Os americanos da 2ndVote Advisers estão usando o mercado de capitais para premiar empresas que não se submetem ao controle desses grupos. No Brasil, por enquanto, estamos indefesos.

Não se trata de, como aconteceu durante o regime militar, tentar calar as estridentes vozes esquerdistas, mas de estabelecer um equilíbrio maior de ideias — em forma de livros, cursos, peças de teatro, aplicativos, sites, blogs, séries de streaming, jornais, revistas, o que for possível para arejar o cenário hoje dominado pela esquerda, em que o dinheiro jorra sem parar.

Criar essa contraposição tem seu custo, e, por coerência de quem defende a livre iniciativa, os recursos não devem vir do aparelho estatal. Empresários de mente aberta e consciência histórica poderiam ajudar a mudar esse panorama cultural sufocante. Para isso, precisam decidir se são empresários de verdade ou simples linhas auxiliares da turma do “racismo algorítmico”. Se as coisas seguirem no rumo atual, a caminhada da vergonha espera sua próxima vítima.

Leia também “A guilhotina do bem”

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16 comentários Ver comentários

  1. A maior falha das vítimas dos lacradores e mídia de merda é, pedir desculpas para tentar corrgir o “erro” , se é que foi erro!!!!

  2. Vocês falam, falam, falam e depois caem no mesmo erro crasso do que estão criticando no texto…TOTALMENTE DESNECESSARIO falar no final “não estamos tentando fazer como o regime militar para calar a esquerda……”
    AAAFFFF …..vocês foram capturados e nem se aperceberam. Tratem essas pessoas (WOKE) como merecem serem tratadas. Ridicularizadas e banidas da sociedade. Só assim essa modinha passa. CONSTRANGIMENTO desemprego e ostracismo. Sem dó ou piedade.

    1. Danton, parece que eu e você somos as duas únicas pessoas nesse país que entenderam a situação e propomos a mesma coisa. Parabéns pelo seu comentário.

    2. De pleno acordo, perfeita sua colocação, é tal e qual uma multidão ficando acuada por um punhado de mal feitores que só rosnam. Há de se parar de ter medo dessa gente e ficar se desculpando para tudo que se pensa ou fala.

  3. No fim tudo é uma questão de quem vai lucrar mais. Enquanto uns se calão e aceitam toda e qualquer ideia idiota, outros enchem as burras de dinheiro.

  4. Esse Nubank é mesmo uma piada. Contratar uma QI de ostra como a Anitta? Alguém que publica vídeo fazendo tatuagem na rosca?
    Será que a Natura, que elegeu a/o Tami Miranda como o “pai”do ano tem conta no Nubank?

  5. Extremamente importante a divulgação de iniciativas como esta. Espero realmente que as empresas compreendam que não há liberdade nem futuro no atendimento de pautas intransigentes desses grupos radicais. Cumprimentos pela matéria.

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