Niall Ferguson, historiador britânico | Foto: Fronteiras do Pensamento/Greg Salibian
Niall Ferguson, historiador britânico | Foto: Fronteiras do Pensamento/Greg Salibian

Fundamentalista na liberdade de expressão

Não só em universidades, mas também nos jornais, devemos ser livres para fazer as perguntas difíceis, contemplar as hipóteses impopulares, dizer o que algumas pessoas consideram “indizível”

O historiador Niall Ferguson foi o entrevistado do Roda Viva nesta semana. Acompanho seu trabalho faz tempo, e admiro bastante sua capacidade de análise e argumentação. Em determinado momento, quando perguntado sobre o ambiente dos debates na era moderna, Ferguson se disse um “fundamentalista da liberdade de expressão”. Ele explicou que é vital para uma sociedade ter não só liberdade de expressão, mas livre pensamento, livre questionamento, debate aberto.

Para Ferguson, não só em universidades, mas também nos jornais, devemos ser livres para fazer as perguntas difíceis, contemplar as hipóteses impopulares, dizer o que algumas pessoas consideram “indizível”. Há alguma restrição para essa liberdade? Ferguson responde: “Há elementos muito claros para o que pode e não pode ser dito; o que não pode ser dito num espaço público é uma ameaça específica a um indivíduo; mas certamente posso criticar uma ideia sem minha fala ser restringida; discurso não é violência, violência é violência, e quando as pessoas da esquerda — e eles também fazem à direita — tentam censurar certas ideias, pois alegam que são perigosas, meu argumento é que não são as ideias que são perigosas, são os censores, as pessoas que tentam calar o debate que são perigosas”.

Ferguson continua seu raciocínio: “Acho que uma característica bem perturbadora dos últimos dez anos tem sido uma crescente cultura intolerante e iliberal, especialmente em universidades americanas, mas acontece em todo lugar; isso se espalhou por corporações, se espalhou pela mídia, e temos frases vagas, como ‘discurso de ódio’, usadas para justificar a censura. Discurso de ódio é apenas a versão do século 21 para blasfêmia, heresia. As pessoas que se intitulam woke nos Estados Unidos hoje estão engajadas numa espécie de estranha missão religiosa e se comportam como membros de um culto tentando prescrever certas formas de discurso para cancelar ou desconvidar palestrantes de quem discordam. Tudo isso eu considero nojento e uma desgraça. Nada pode ser mais danoso para uma sociedade livre do que calar o livre pensamento e a livre expressão, principalmente em universidades, que são lugares onde essas coisas deveriam ser apreciadas e preservadas”.

No alvo! A história mostra que a liberdade nunca teve muitos amigos sinceros, os tais “fundamentalistas”, pois a maioria a defende até esbarrar em seus interesses. Poucos são os que defendem a liberdade com base em princípios. Defender a liberdade de expressão com a restrição de que ninguém se sinta ofendido com ela, por exemplo, é pregar a censura. Defender a “liberdade” de concordar com a maioria do momento ou o poder estabelecido não é pregar liberdade, e sim o direito de repetir o consenso, de seguir o coro.

Toda tirania, afinal, veio em nome do bem coletivo. Nenhum tirano se apresentou como malvado

Nunca isso ficou tão claro como nessa pandemia. Um clubinho arrogante, que tenta monopolizar a fala em nome da ciência, resolveu barrar até especialistas renomados, médicos sérios ou jornalistas curiosos que simplesmente não repetiam a “versão oficial” sobre a crise sanitária, sendo que essa oscilou bastante, pois a própria OMS se mostrou um tanto errática. O debate foi interditado, os arrogantes rotularam de “negacionistas” aqueles com dúvidas, os verdadeiros crentes dogmáticos que colocaram o Dr. Fauci no papel de profeta passaram a descascar os mais céticos, e as redes sociais suspenderam várias contas suas.

A coisa está tão feia que vemos esse clima asfixiante ao debate nas próprias universidades, sem falar da mídia, um antro de ideologia e arrogância. Um apresentador da CNN Brasil, que se diz liberal, chegou a defender a censura na cara dura, sem nenhum pudor: “A frouxidão do controle interno de conteúdo antivax nas redes sociais no país é, infelizmente, um convite ao controle externo. A autorregulação está falhando miseravelmente. MP e legisladores terão de atuar para preservar vidas.” Stalin, Lenin, Mao, Fidel, Mussolini e tantos outros tiranos não teriam nada a alterar nessa linha de raciocínio.

Toda tirania, afinal, veio em nome do bem coletivo. Nenhum tirano se apresentou como malvado. Era sempre pela raça, pela nação, pelo povo, e, com base nisso, tudo estava permitido. Para proteger o coletivo, quem liga para algumas perdas de liberdade básica individual? Ainda mais quando “sabemos” que esses indivíduos são párias sociais, hereges, negacionistas, sujeitos perigosos que se recusam a aderir ao consenso. Se não é possível persuadi-los, então só resta mesmo calar todos na marra, em prol da saúde geral. Prisão para quem questionar as vacinas vendidas como panaceias! E isso de um suposto liberal…

Além do “jornalista liberal”, uma coordenadora da UFRJ foi na mesma linha, alegando que chegara a hora de as universidades qualificadas criarem estruturas de combate ao negacionismo em seus quadros. Para ela, “não devem ser permitidas palestras tentando travestir de polêmica posições bem estabelecidas na comunidade científica”. Trata-se da Inquisição iluminista! Detalhe: a senhora autoritária publicou outra postagem na virada do ano afirmando que 2022 será uma grande preparação para um 2023 melhor, já que Bolsonaro será derrotado e Lula será eleito para “recolocar o Brasil nos trilhos, revertendo toda a destruição dos últimos anos”. Quem nega a destruição causada pelo PT não é negacionista?

O Ocidente flerta com o crescente abandono dos pilares que fizeram dele a civilização mais avançada de todas. O devido processo legal tem sido substituído pela pressão dos movimentos de minorias; a ciência verdadeira foi trocada pelo dogma da ideologia; a noção do certo e do errado vem sendo esgarçada pelo relativismo seletivo (não há mais verdade objetiva, mas é preciso combater as fake news); e o mais sagrado princípio, da liberdade de expressão, para poder questionar isso tudo, vem sendo atacado justamente por quem deveria ser seu guardião, por jornalistas e professores universitários. Não dá para dourar a pílula: o quadro é assustador.

PS: na mesma entrevista, a apresentadora militante tentou lacrar e arrancar do entrevistado uma denúncia ao governo Bolsonaro. Ela quis saber se muitas mortes poderiam ter sido evitadas caso o governo fosse outro no Brasil. Ferguson, com sutileza, explicou que a direita populista pode pecar em muitos aspectos, mas que dificilmente o resultado seria muito diferente com outro no comando, pois basta ver o que aconteceu no mundo todo, e ainda mencionou os Estados Unidos, com Trump e depois Biden. As causas das mortes transcendem a medida A ou B, isso sem falar que, no caso brasileiro, o presidente teve pouca margem de manobra, por conta do arbítrio do STF. Foi uma bela “lapada” de quem faz análise séria em cima de quem só faz militância partidária.

Leia também “O medo do Dr. Fauci”

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21 comentários Ver comentários

  1. Constantino…bom dia!!!
    O que acabou no Brasil?
    a) – O jornalismo sério?
    b) – Por pressuposto, jornalistas sérios?
    c) – Ou foi o Brasil que está acabando????
    Abraços!

  2. Texto fantástico ! E o arremate da conclusão simplesmente excepcional: “O devido processo legal tem sido substituído pela pressão dos movimentos de minorias; a ciência verdadeira foi trocada pelo dogma da ideologia; a noção do certo e do errado vem sendo esgarçada pelo relativismo seletivo”.

  3. O melhor remédio para essa imprensa marrom, nojenta, asquerosa e decadente é o boicote. Não leio, não vejo, não dou audiência de forma alguma para esses lixos chamados de imprensa séria. Ótimo artigo. Parabéns.

  4. “O Ocidente … a civilização mais avançada de todas”
    UEHAuehauehuAheuAHEUaheuaheuaheU HUAHeuAHe uAHEuHAeuAH uAHEuAHEu AHEUHAUe hUAEHUAehUAehuAheUAHEUAHE uHAUEHAuehAUEhUAhUAehUAHEUHAuehAUehuahAE

    1. Em matéria de desenvolvimento cultural e culto às liberdades individuais, até agora é na civilização ocidental que vimos filosoficamente isto ser mais enfaticamente colocado, deixando as “religiões” de lado.
      Não quero dizer que deu, está dando ou dará certo, mas é onde mais se tenta.
      Daí a expressão “a mais avançada de todas”
      Não vejo razão para seu espanto Jorge Vaz

      1. Hehe não foi espanto. Achei graça mesmo. Se quiseres entrar na minha mente para entender porquê achei graça recomendo procurar no YouTube “palestra Hélio Couto politeísmo“

      2. Ou mesmo este filme que é um espetáculo: “The Man From Earth”

        Enfim: só achei graça na frase mesmo (ri alto heheh, por isso postei)

  5. Obrigado Constantino por nos informar essa importante entrevista que o insuportável programa atual RODA VIVA apresentou, já que não mais assisto desde quando aquela militante da Folha Daniela Lima passou a comandar o programa, até ser substituída por outra figura militante Vera Magalhães. O que você relata sobre sua provocação para o entrevistado falar mal do governo Bolsonaro, é do seu caráter. Lembro que, parece que foi ela quem sugeriu o teu cancelamento na Jovem Pan, em passado recente. Lembro ainda que quando ela entrou na JP, foi elogiada pelo desiquilibrado Reinaldo Azevedo que disse ter sido boa aluna na faculdade de jornalismo. Dá para entender sua qualidade de jornalista.

  6. Abre a matéria (todas desta edição) e se lê dois parágrafos. Aí vem um box dizendo “Continue Lendo” . Você pode clicar 50 vezes ali que o restante da matéria não aparece …. Alô TI da Oeste, vamos resolver esse problema ?

  7. Rodrigo Constantino vai se firmando como referência na imprensa brasileira do colunista responsável – culto, bem informado, pautado pelos princípios que forjaram a civilização ocidental (a mais espetacular criação da humanidade) e a ética jornalística que, se um dia existiu, foi cuspida na lixeira das redações mundo afora -, que se une a pensadores da qualidade do Niall Ferguson no trabalho louvável (e perigoso hoje em dia! – desprezado, inclusive, no meio acadêmico, transformado em um ambiente fundamentalista) de defender o princípio fundamental da cultura clássica: a livre expressão racional e crítica.

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