Foto: Montagem Revista Oeste/Shutterstock
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O tabu sobre as vacinas

Na contramão de países desenvolvidos, o debate sobre o tema se tornou proibido no Brasil

Antes da pandemia de covid-19, ninguém chegava a um posto de saúde no Brasil para tomar vacina e perguntava a marca do imunizante, o país de fabricação, a tecnologia usada, o tempo que levou para ser desenvolvido, se os testes de fase 1, 2 e 3 foram cumpridos rigorosamente, se a refrigeração do produto estava adequada, se algum voluntário morreu pelo caminho. As pessoas simplesmente se vacinavam. Mas os tempos, hoje, são excepcionais. 

Nunca na história as vacinas passaram por todas as etapas exigidas pela ciência em tão pouco tempo. Entre janeiro de 2020, quando os cientistas publicaram a sequência do coronavírus, e dezembro do mesmo ano, quando as primeiras vacinas foram aplicadas no braço da população, passaram-se apenas 11 meses. Além disso, é a primeira vez que a tecnologia de RNA mensageiro, empregada na fabricação de vacinas (caso da Pfizer e da Moderna), é usada em larga escala no planeta. Até o momento, já foram ministrados cerca de 10 bilhões de injeções pelo mundo. Mesmo assim, acompanhamos mais uma onda de contaminações, agora em razão da variante Ômicron. Pessoas vacinadas estão se infectando. É natural a desconfiança de parte da população, sobretudo depois de laboratórios, como a Pfizer, não se responsabilizarem por possíveis efeitos colaterais. Não se trata de negar a ciência. Mas, sim, de questionar e conhecer, com transparência, os fatos. Sem maquiagem. Sem politicagem. Sem interesses financeiros.

Discussão no exterior

Como qualquer remédio, as vacinas de todos os tipos podem causar efeitos colaterais adversos — em casos raros, podem deixar sequelas permanentes ou até mesmo causar a morte. Nem por isso deixam de ser recomendadas, e ainda são a melhor forma de prevenir e reduzir doenças infecciosas. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 3 milhões de mortes são evitadas anualmente pela vacinação. Mas, durante a pandemia, falar sobre as possíveis reações causadas pelos imunizantes se tornou tabu na imprensa e até mesmo na comunidade médica de vários países. 

Apesar disso, o Japão vem dando um bom exemplo de como tratar o tema. O governo investiu em uma campanha de conscientização dos benefícios de estar protegido do coronavírus. Ao mesmo tempo, deixou claro que, como quaisquer remédios, as vacinas podem provocar reações. Embora a população não tenha sido obrigada a se vacinar, o país lidera a vacinação entre os membros do G7.

O Ministério da Saúde japonês decidiu fazer estudos, além de observar trabalhos de outros países, e, no início de dezembro do ano passado, a autoridade sanitária listou a miocardite (inflamação do músculo cardíaco) e a pericardite (inflamação do tecido externo do coração) em jovens do sexo masculino como possíveis efeitos colaterais das vacinas contra a covid-19 da Pfizer e da Moderna.

Em abril do ano passado, a Alemanha e a Noruega publicaram um estudo descrevendo efeitos colaterais associados à vacina da AstraZeneca. O trabalho está na revista científica The New England Journal of Medicine. “Em primeiro lugar, os médicos devem estar cientes de que, em alguns pacientes, a trombose venosa ou arterial pode se desenvolver em locais incomuns, como o cérebro ou o abdômen, e se torna clinicamente aparente entre cinco e 20 dias após a vacinação”, informaram os autores da pesquisa.

Os cientistas mostraram também que, após a vacinação, as pessoas produziram anticorpos que afetaram as plaquetas — um componente do sangue envolvido na coagulação —, reduzindo seu número e favorecendo hemorragias, podendo causar óbito. Na Alemanha, foram estudados 11 pacientes com idades entre 22 e 49 anos.

Na pesquisa norueguesa, os cinco pacientes — com idades entre 32 e 54 anos — também apresentaram coágulos raros em locais incomuns, com redução no número de plaquetas entre sete e dez dias depois da vacinação. Quatro deles tiveram acidentes vasculares graves e três morreram. O estudo fez com que 19 países decidissem suspender o imunizante da AstraZeneca, devido a reações adversas. A aplicação do produto voltou a ser realizada depois de a “Anvisa” europeia (EMA, na sigla em inglês) informar que o benefício da vacina supera possíveis riscos.

Na semana passada, a EMA informou que as vacinas da AstraZeneca e da Janssen podem provocar mielite transversa, uma inflamação vertebral rara que causa fraqueza nos braços e nas pernas de seus portadores. A doença também provoca formigamentos, dormências, dores ou perda da sensação de dor, além de problemas nos sistemas urinário e digestivo.

Até nos Estados Unidos, onde a temperatura do debate sobre vacinação ferve, a “Anvisa” daquele país entendeu ser prudente mudar o rótulo da vacina da Janssen, devido a relatos médicos. Em julho de 2021, a FDA advertiu que pode haver um risco maior de uma condição neurológica rara, chamada síndrome de Guillain-Barré, entre as pessoas que foram vacinadas depois de 42 dias. Doença autoimune, a síndrome de Guillain-Barré provoca paralisia.

“Com base em uma análise dos dados do Relatório de Eventos Adversos da Vacina, houve 100 relatos preliminares após a vacinação com o imunizante da Janssen, depois de aproximadamente 12,5 milhões de doses administradas”, informou a FDA. “Desses relatos, 95 eram graves e exigiram hospitalização. Houve uma morte relatada. A cada ano, nos EUA, cerca de 3 mil a 6 mil pessoas desenvolvem síndrome de Guillain-Barré. A maioria se recupera totalmente do distúrbio.”

Interdição do debate no Brasil

Em países sérios, pessoas que trouxeram à tona os possíveis efeitos colaterais dos imunizantes não foram chamadas de “negacionistas” e de “antivacina”. No Brasil, porém, a história é outra. Quem quer que mencione o assunto corre o risco de ser censurado pelas agências de checagem. É o caso do colunista da Revista Oeste Guilherme Fiuza, que busca dar publicidade ao debate.

Médicos brasileiros que se dispõem a discutir a questão se tornaram alvos de ataques

O jornalista já foi censurado inúmeras vezes pelo Twitter ao citar que as vacinas anticoronavírus podem provocar efeitos colaterais. Entre os casos mencionados por Fiuza, está o do advogado catarinense Bruno Graf, que, aos 28 anos, morreu, em agosto de 2021, depois de tomar a vacina da AstraZeneca. A mãe de Bruno, Arlene Ferrari, conseguiu comprovar que o óbito se deu em razão do imunizante, depois de fazer um exame na Espanha. Mesmo assim, o caso parece não existir na grande mídia, e tampouco no mundo das big techs. A própria mãe de Bruno teve sua conta no Twitter derrubada por narrar a história do jovem nas redes. Outras big techs também puniram Arlene.

O tema foi tão contaminado pela polarização política que médicos brasileiros que se dispõem a discutir a questão se tornaram alvos de ataques. É o caso de Maria Emília Gadelha Serra, que assinou o laudo médico de Bruno Graf. A médica tem sido tachada de mentirosa por agências de checagem, por falar sobre possíveis efeitos colaterais das vacinas contra o novo coronavírus.

Ela já foi alvo da agência Lupa e do Estadão Verifica. “Chamam-me de mentirosa e de médica enganadora”, relatou. “Mas eles não me afetam.” Maria Emília também critica o sistema de registros de efeitos colaterais das vacinas oferecido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Segundo a médica, o site é confuso, e muitas pessoas se queixam de não conseguir concluir o processo.

Além da perseguição, profissionais da saúde se sentem intimidados a falar sobre o tema, como o infectologista Francisco Cardoso. “Só trato desse assunto com colegas que estão pensando como eu”, afirmou. “Fora isso, nem discuto, porque é perda de tempo e virou Fla-Flu.” Segundo Cardoso, a comunidade médica não está dando atenção devida ao debate por medo.

“Quando os pacientes relatam possíveis reações da vacina anticovid-19, os médicos têm reações histéricas”, contou Cardoso. “É obrigação do médico registrar o efeito colateral da vacina, seja leve, moderado seja grave.” O infectologista acredita que não falar das reações também provoca desconfiança na sociedade. 

Entre várias doenças infecciosas que surgiram com o tempo, grande parte pôde ser vencida com o surgimento dos imunizantes. A pandemia vai passar. As vacinas contra a covid contribuíram de maneira decisiva no combate ao coronavírus, principalmente na redução de mortes. Não se trata de guerra antivacina. Mas de luta pelo direito à informação e ao debate amplo. A ciência não pode ser um tabu.

Leia também “Um basta na pandemia”

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29 comentários Ver comentários

  1. Este é o Brasil!!! Sabemos que o direito a informação também salva vidas. Mas preferem a política esquerdista que mata, rouba e sonega informação, enganando e tratando a população como se fosse gado. Não se trata de ser contra a vacina. Trata-se do direito de ter informação sobre possíveis interferências em nossas vidas e em nosso bem estar. Acorda Brasil!!! Vamos responder nas urnas. Nada de políticos esquerdistas ou simpatizantes!

  2. Ótimo artigo. Também nem me atrevo a expressar minha opinião a respeito das vacinas aos meus pacientes. Alguns chegam com dúvidas legítimas e tento esclarecer de forma técnica, fazendo com que tirem suas próprias conclusões. O mais grave é ouvir de pessoas esclarecidas que quem não quer tomar vacinas é Bolsonarista , negacionista e blá blá blá, quando são apenas pessoas cautelosas.

  3. Estou cansado igual ao Dr. Francisco, agora só cuido dos meus e discuto sobre aperfeiçoamento e efeitos adversos de vacinas com quem ainda tem cérebro. Ciência vive de questionamento, não é dogma.
    Aqui no Brasil, infelizmente, não há espaço para o debate honesto, até entre nós médicos. A maioria tem medo de falar sobre o assunto e ser cancelado.

  4. O Brasil nunca foi contra vacinas,pois quem as tomava estava livre da doença, existem ótimas vacinas que pertencem a um grupo seleto e que tomamos até na maternidade.Essas foram testadas e avaliadas durante anos para chegar a um nível de eficácia esperado pela população.O surto de Covid exportado pela China deixou o mundo louco, com medo e pânico,Nesse contexto é difícil pensar e raciocinar.Reportagem extremamente esclarecedora.

  5. Parabéns pelo texto Cristyan. Esclarecedor. Não sou contra vacinas. Não vacinei e não vou vacinar contra a covid. É um direito meu. O que mais me incomoda é essa mídia podre não debater os efeitos colaterais dessas vacinas. Já fui bloqueado diversas vezes no facebook por divulgar vídeos a respeito.

  6. Excelente texto. Parabéns. Eu, particularmente, não dou nenhum crédito e até mesmo audiência a essas falsas “agências checadoras”. Credibilidade zero.

  7. Excelente texto. Muito preciso, claro e esclarecedor ; qualidades em falta na velha mídia. Um convite ao debate honesto e elucidativo. Parabéns, Cristyan!

  8. “As vacinas contra a covid contribuíram de maneira decisiva no combate ao coronavírus, principalmente na redução de mortes.”

    Não sei se a frase é rigorosamente verdadeira. Será que, se a pandemia tivesse seguido seu curso normalmente, como ocorreu com todas as outras pandemias, sem vacina e sem lockdown, já não teria acabado por completo?

    1. Vi em detalhe um estudo estatístico do Dr. Bruno Campello, na qual não se observou efetividade das vacinas no Brasil e pior, que o isolamento forçado aumentou as mortes em 350%, pois as pessoas fechadas em casa se contaminaram mais e por mudar, para pior, as curvas estatísticas esperadas de uma pandemia (prolongando-a).
      Creio que este profissional tem grande prestígio no meio acadêmico. O estudo foi apresentado em um congresso médico em Brasília, no fim do ano passado. Att

  9. Grande Cristyan, sempre nos reconvidando ao bom debate. Sou como o dr. Cardoso, e não por medo do confronto, só exaro meu pensar com quem se atreve a ser esclarecido.
    Quanto às big techs vacineiras? Saibam elas que até as bailarinas peidam!!!

  10. Bem verdade é a piada que diz que Deus jogaria um “povinho” neste lugar chamado Brasil.
    Infelizmente só a história através do tempo pra mostrar a esses “negacionistas” que chamam os do que são o tamanho da merda que fizeram. Esquerdalhas nunca mais! Luta, Brasil!

  11. Excelente matéria! Isso mostra que no Brasil e no mundo o debates não fazem parte da democracia. Sistema esse “CONFUNDE!” A população. A revolução Cultural MARXISTA destruindo o ser humano e fazendo robôs. #Vergonha

    1. Excelente. Se o debate está interditado, então a minha tendência é crer que aquele que interdita é mentiroso e tem interesses inconfessáveis.

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