Foto: Montagem Revista Oeste/Shutterstock
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Enfim, a liberdade

O que vamos fazer depois não é uma questão de saúde pública. É uma questão do que queremos que a sociedade seja depois que tudo isso acabar

Ao soar da meia-noite, a Inglaterra se tornou o país mais livre da Europa. Desde 27 de janeiro, não temos mais máscaras obrigatórias, passaportes da covid-19 nem orientações do governo para trabalhar de casa. As restrições do chamado “Plan B” puderam expirar.

Vale a pena apreciar isso por um momento. A grande maioria das restrições extraordinárias sob as quais vivemos por quase dois anos ficou, pelo menos por ora, no passado.

Claro que as restrições do inverno foram muito menos onerosas do que as dos dias mais sombrios de lockdown. Aquelas regras — como lembramos diariamente toda vez que o primeiro-ministro desobedece a elas — eram desnecessárias e imperdoavelmente duras. O contato social, uma das nossas necessidades humanas mais fundamentais, foi considerado não essencial e ilegítimo pelas autoridades. As crianças foram tiradas da escola. Famílias foram destruídas. Pessoas amadas foram deixadas para morrer sozinhas.

Então, apesar de ser compreensível que nada esteja à altura da alegria — e do alívio — do primeiro Dia de Liberdade em julho de 2021, o relaxamento de hoje é digno de celebração. Se, antes de março de 2020, uma doença tão leve quanto a variante Ômicron da covid-19 tivesse atingido uma população com tanta imunidade quanto a britânica, você seria motivo de escárnio por simplesmente sugerir a mais amena das restrições sociais. As do “Plan B”, como máscaras obrigatórias e apresentação de uma identificação digital de saúde para participar de um encontro grande de pessoas, só parecem toleráveis porque nós naturalmente as comparamos com o que veio antes. Então, o relaxamento das regras de agora é, no mínimo, mais digno de nota do que tem sido.

A liberdade é tratada como sinônimo de morte e doença, enquanto medidas que restringem nossas vidas são consideradas defensoras da vida, saudáveis e corretas

Em parte, isso se deve ao fato de que o governo que está devolvendo as nossas liberdades está atolado demais em seus próprios escândalos para aproveitar esse acontecimento. E, quando não está criando problemas para si mesmo com as festas regadas a muito álcool do primeiro-ministro durante o lockdown, conhecidas como PartyGate, ele está se metendo nas questões de outros países. Mas, na realidade, a administração de Boris Johnson fez um esforço consistente para se beneficiar de seus raros rompantes de liberalismo. Ele sempre foi cauteloso demais, lento demais para reabrir os espaços. E, até este inverno, rápido demais em reagir às profecias apocalípticas do Sage, o grupo de “peritos em imunização” encarregado de aconselhar a OMS sobre políticas e estratégias globais destinadas a combater a pandemia.

Ficou cada vez mais óbvio, desde os primeiros dias de 2021, que o programa de vacinação ia romper a relação entre os casos de covid-19 e uma doença séria. Ele demorou tempo demais para se ajustar a essa nova realidade. Não podemos esquecer que, apesar da vasta aceitação das vacinas, o primeiro Dia de Liberdade não só foi adiado de junho para julho, ele também foi condenado por muitos no lobby da saúde pública como um “experimento perigoso e antiético” e uma “ameaça ao mundo”. Mesmo agora, depois da implementação da dose de reforço, em uma nação em que 98% da população tem anticorpos para a covid, a liberdade é tratada como sinônimo de morte e doença, enquanto medidas que restringem nossas vidas são consideradas defensoras da vida, saudáveis e corretas.

Olhando para o outro lado do canal, fica claro que as decisões que tomamos a esta altura da pandemia têm pouco a ver com o controle do vírus. Alguns dos países com regimes de passaporte da vacina e lockdown mais rigorosos tiveram as curvas de casos de covid mais extremadas, quase verticais, enquanto a Inglaterra escapou da onda da Ômicron ilesa com muito menos restrições.

E, enquanto alguns países, como a Dinamarca e a Holanda, decidiram reabrir as atividades apesar da quantidade recorde de casos, outros, como a Áustria, a Grécia e a Alemanha, estão pegando um caminho muito mais sombrio, adotando a vacinação obrigatória e desbravando novos territórios de autoritarismo, mesmo depois de todo esse tempo. O que vamos fazer depois não é uma questão de saúde pública. É uma questão do que queremos que a sociedade seja depois que tudo isso acabar.

Aqui na Inglaterra a coisa ainda não se resolveu, claro. Algumas restrições permanecem, como as regras de autoisolamento. Testagem em massa significa que a pandemia vai se manter visível, mesmo enquanto sua ameaça recua. Além disso, esse relaxamento só se aplica à Inglaterra. A Escócia, o País de Gales e a Irlanda do Norte ainda mantêm a obrigatoriedade das máscaras.

E, obviamente, esse não é o nosso primeiro “Dia de Liberdade”. O mapa “irreversível” para sair do lockdown sofreu um desvio neste inverno. Cada nova variante, talvez cada novo inverno vá trazer uma nova incerteza. A preocupação é que a nossa reação-padrão a essa incerteza não seja esperar para ver, mas introduzir novas restrições. Então não podemos ser complacentes. A luta por liberdade ainda não terminou, e as vitórias até o momento revelaram ser frágeis. Mas ainda podemos comemorar os avanços que fizemos e quantas coisas mudaram para melhor.

Leia também “A tirania dos passaportes de vacina

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