Adolf Hitler e Joseph Stalin | Foto: Montagem Revista Oeste/ Wikimedia Commons
Adolf Hitler e Joseph Stalin | Foto: Montagem Revista Oeste/ Wikimedia Commons

Os limites democráticos

Tanto o nazismo como o marxismo compartilharam o desejo de remodelar toda a humanidade de cima para baixo

Pode existir um partido nazista numa democracia? E um partido comunista? Essas questões estão na ordem do dia e cabe uma reflexão mais profunda aqui, para fugir do “debate” tribal das redes sociais. O primeiro ponto a ser abordado é o argumento libertário de que não pode haver qualquer restrição à liberdade de expressão, logo, essa ideologia prega o direito de grupos se organizarem para defender as maiores atrocidades e bizarrices.

Quem defende essa posição não está necessariamente endossando cada uma dessas bizarrices, claro, mas, sim, o direito de néscios pregarem estultices, por mais ofensivas que sejam. É um posicionamento que encontra algum espaço na trajetória do liberalismo mais radical, por excesso de medo da censura e do controle. Esses libertários entendem que essa postura vai permitir todo tipo de ideia abjeta no debate público, mas o receio que sentem de abrir exceções e, com isso, delegarem ao Estado o poder de definir o que é ou não permitido supera a preocupação com a circulação dessas ideias nefastas.

Além disso, alguns argumentam que é melhor deixar as ideias nefastas circularem livremente para combatê-las, em vez de mantê-las à sombra com o charme do tabu proibido. Ou seja, traga toda podridão à luz que assim será mais fácil expor a podridão e rebater as ideologias totalitárias. É um ponto de vista a ser colocado, sem dúvida, apesar de eu não concordar muito com ele. E vale notar que, nos Estados Unidos, existe um partido nazista. Como existe um partido comunista também.

Acredito, porém, que numa democracia alguma restrição será necessária, apesar de compreender o risco desse precedente. Basta ver como tem até jornalista querendo equiparar nazismo à crítica de vacinas contra a covid-19, para justificar, com essa comparação esdrúxula, a censura aos comentários “anticientíficos”. Essa turma nem sequer percebe que seus métodos é que se assemelham ao controle exercido por nazistas em nome da “purificação” da sociedade e da saúde coletiva, com a qual os seguidores de Hitler eram obcecados.

Não é compatível com uma democracia civilizada, porém, a presença de partidos que abertamente defendem extermínio, totalitarismo, medidas claramente antidemocráticas que tratam indivíduos como meios sacrificáveis. E aqui entra a segunda questão: se é para vetar nacional-socialistas, então é para vetar comunistas também? A confusão desses dias nas redes sociais suscitou esse debate, e muitos à esquerda expuseram sua incoerência. Para eles, o nazismo deve ter proibido, mas nada dizem sobre o comunismo. Isso não faz sentido. A semelhança entre ambas as ideologias genocidas é evidente historicamente falando.

“Que significa ainda a propriedade e que significam as rendas? Para que precisamos nós socializar os bancos e as fábricas? Nós socializamos os homens.” Quem teria dito isso? Adolf Hitler, citado por Hermann Rauschning, em 1939. Ensinada desde os tempos de Lênin, muitos socialistas usam a tática de acusar os opositores daquilo que eles mesmos são ou fazem. Tudo que for contrário ao socialismo vira assim “nazismo”, ainda que o nacional-socialismo tenha inúmeras semelhanças com o próprio socialismo.

Tanto o nazismo como o marxismo compartilharam o desejo de remodelar toda a humanidade de cima para baixo. Marx defendia a “alteração dos homens em grande escala” como necessária. Hitler pregou “a vontade de recriar a humanidade”. Qualquer pesquisa séria irá concluir que nazistas e socialistas não eram, na prática e no ideal coletivista, tão diferentes assim. Não obstante, para os socialistas, aquele que não for socialista é automaticamente um “nazista”, como se ambos fossem grandes opostos.

Assim, além de banalizar o que foi o terror nazista, os liberais, que sempre condenaram tanto uma forma de coletivismo como a outra, e foram alvos de perseguição dos dois regimes, acabam sendo rotulados de “nazistas” pelos socialistas, incapazes de argumentar além dos tolos rótulos de “extrema esquerda” e “extrema direita” (lembrando que, para a imprensa esquerdista, nem existe extrema esquerda, expressão ausente nos jornais).

Os liberais, entrave para ambas as ideologias coletivistas, acabam num campo de concentração de Auchwitz ou num Gulag da Sibéria

Tal postura insensata coloca, na cabeça dos socialistas, uma “direitista” como Margaret Thatcher mais próxima ideologicamente de um Hitler que este de Stalin, ainda que Thatcher tenha lutado para defender as liberdades individuais e reduzir o poder do Estado, enquanto Hitler e Stalin foram na linha oposta. O fim da propriedade privada de facto foi um objetivo perseguido tanto pelo nazismo como pelo socialismo, que depositaram no Estado o poder total. O liberalismo, em sua defesa pela liberdade individual cujo pilar básico é o direito de propriedade privada, é radicalmente oposto tanto ao nazismo como ao socialismo, que em muitos aspectos parecem irmãos de sangue.

A conexão ideológica entre socialismo marxista e nacional-socialismo não é fruto de fantasia, e Hitler mesmo leu Marx atentamente quando vivia em Munique, tendo enaltecido depois sua influência no nazismo. Para os nazistas, os grupos eram as raças; para os marxistas, eram as classes. Para os nazistas, o conflito era o darwinismo social; para os marxistas, a luta de classes. Para os nazistas, os vitoriosos predestinados eram os arianos; para os marxistas, o proletariado.

Além da justificativa direta para o conflito, a ideologia de luta entre grupos desencadeia uma tendência perversa a dividir as pessoas em parte do grupo e excluídos, tratando estes como menos que humanos. O extermínio dessa “escória” passa a ser desejável, seja para o paraíso dos proletários seja da “raça” superior. Os liberais, entrave para ambas as ideologias coletivistas, acabam num campo de concentração de Auchwitz ou num Gulag da Sibéria, fazendo pouca diferença na prática.

A acusação de que a Alemanha nazista era uma forma de capitalismo não se sustenta com um mínimo de reflexão. O “argumento” usado para tal acusação é que os meios de produção estavam em mãos privadas na Alemanha. Mas, como o economista austríaco Mises demonstrou, isso era verdade somente nas aparências. A propriedade era privada de jure, mas era totalmente estatal de facto, da mesma forma que na União Soviética. O governo não só nomeava dirigentes de empresas como decidia o que seria produzido, em qual quantidade, por qual método e para quem seria vendido, assim como os preços exercidos.

Para quem tem um mínimo de conhecimento sobre os pilares de uma sociedade capitalista liberal, não é difícil entender que o nazismo é o oposto desse modelo. Para os nazistas, assim como para os socialistas, é o “bem comum” que importa, transformando indivíduos de carne e osso em simples meios sacrificáveis para tal objetivo. Existem, na verdade, vários outros pontos que podemos listar para mostrar que o nazismo e o socialismo são muito parecidos, e não opostos como tantos acreditam. O fato de comunistas terem entrado em guerra com nazistas nada diz que invalide tal tese, posto que comunistas brigaram sempre entre si também, e irmãos brigam uns com outros, ainda mais por poder.

Apesar de o liberalismo se opor com veemência a ambos os regimes, os socialistas adoram repetir, como autômatos, que liberais são parecidos com nazistas, apenas porque associam erradamente nazismo a capitalismo ou “direita”. Se ao menos soubessem como é o próprio socialismo que tanto se assemelha ao nazismo!

Em suma, se há limites numa democracia, e creio que deva haver, então é preciso tratar nazismo e comunismo da mesma forma, vetando ambas as ideologias da formação partidária oficial. Entendo a sensibilidade do tema aos judeus, povo perseguido desde sempre. Vivemos em tempo de cancelamento e asfixia da liberdade de expressão, mas deixo uma reflexão: se você fizesse parte da minoria mais perseguida da história, e que recentemente passou por um extermínio, ficaria mais revoltado com qualquer suposta alusão ao regime responsável por tal extermínio. Cachorro mordido por cobra tem medo de linguiça.

Só que isso vale para as vítimas do comunismo também. Eu estive no Museu do Holocausto em Israel e chorei. São cenas muito fortes. Mas, se as imagens do Holodomor fossem mais divulgadas, será que não haveria a mesma comoção coletiva? O comunismo é tão nefasto quanto o nazismo! E nenhum dos dois deve ter espaço numa democracia.

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30 comentários Ver comentários

  1. Aqueles que estão massacrando o Monark são os mesmos que defendem, de forma ferrenha, o comunismo\socialismo, usam boina do Che Guevara, tem como ídolo supremo “el comandante” Fidel e cantam musiquinha em apoio ao Maduro … lixos, hipócritas, e o pior, são os responsáveis pelo “cancelamento” (linchamento) daqueles que ousam pensar de forma diferente … idiotas úteis, filhos de “Paulo Freire” … se esse país fosse sério, sequer teriam espaço para abrir a boca, já que poucos se dariam ao trabalho de ouvir tamanhas imbecilidades …

  2. Muito bom o artigo, parabéns !! Porém eu gostaria de saber como essa espécie de filtro, comparável a censura, iria funcionar. Quem seria encarregado de definir as diretrizes ?? Quem define o que será e o que não será censurado ?? Em governos comunistas/socialistas não haveria o risco de isso ser usado contra a democracia ??

  3. Excelente texto. Ignorar a tragédia passada é sobretudo desrespeitar o futuro. Triste concluir que pessoas jovens se acham com poder para defender a barbárie.

  4. Excelente artigo. Parabéns Constantino, mitastes! E olha que não concordo 100% – nesse aspecto da liberdade de inspeção voto com a bancada libertária.

    Mas você resumiu com excelência mesmo toda temática. TOP!

    👏👏👏

  5. Eu compreendi exatamente o que o Monarc quis dizer. O partido deveria ser proibido no momento em que declarasse o ódio e extermínio de outras raças. Os partidos comunistas no Brasil pregam abertamente a morte da suposta “burguesia”, mas nada acontece.

  6. COMO FICA, DENTRO DAS DEVIDAS PROPORÇÕES, UM PARTIDECO COMO O PSOL, ADEPTO DAS IDEIAS MAIS EXDRUXULAS E IMBECIS, DENTRO DO CENARIO DESCRITO?? DEVERIA SER PROSCRITO, OU TOLERADO EM NOME DA DEMOCRACIA ??

  7. Que nazismo, fascismo e comunismo/socialismo são jararacas de espécies ligeiramente diferentes, mas com venenos igualmente mortais não cabe dúvida, como muito bem explanou Rodrigo Constantino. Mas cabe a pergunta: quem pensa ser válida a propaganda de tais ideias está cometendo crime ao emitir sua opinião? Quem defende a tese de liberdade de expressão sem limites diria que não! Eu pergunto a esses se é lícito defender a pedofilia, o estupro e outros crimes tão terríveis quanto os cometidos por estes regimes totalitários nefastos. Para mim é óbvio que a lei que criminaliza atitudes pró nazistas está parcialmente correta, faltando apenas nela incluir a apologia ao comunismo. Seja crime a suástica nazista e a foice e o martelo com tudo de mau que tais símbolos representam!

  8. A liberdade e a igualdade são extremos de uma mesma escala. À direita temos a liberdade e, à esquerda, a igualdade, sem liberdade. Como a desigualdade é uma coisa natural, consequência direta da liberdade, só se chega à igualdade por meio da intervenção da força do Estado, que será tanto maior quanto mais igualdade se queira conseguir. Isto mostra a inelutável semelhança entre as ideologias nazistas e comunistas que envenenam as mentes frágeis e as morais oblíquas.

  9. A embriaguez dessensibilizou Monark e rebaixou sua autocrítica. Outras personalidades- além do próprio Kim Kataguiri, que mandou muito mal na live -sóbrias e com tempo para elaborarem um juízo de valor sobre o tema, afirmaram coisas semelhantes e passaram incólumes. Em resumo: proibir a existência de partidos nazistas & comunistas parece ser medida sensata, dados os precedentes históricos de tais regimes, mas acusar de crime o sujeito que não pensa assim, apenas por externar o seu, digamos, ponto de vista, é absurdo. A pandemia mais perniciosa é a de “sinalização de virtude”, com a qual cínicos oportunistas tentam se “limpar”, como Gilmar Mendes no caso e Lula no episódio do congolês. Então, Rodrigo, faltou vc dizer se considera que os indivíduos devem (ou não) ser livres para meramente opinar.

      1. Alcindo, boa tarde. Encaminhamos uma mensagem em seu e-mail informando uma possível solução para esse problema.
        Permanecemos à disposição.

  10. A história não mente. E os fatos estão aí, escancarados. Pra mim, Maduro, Chaves, os Castros e todos os que pretendem implantar o socialismo em um país, subjugando seu povo, como Dirceu e o meliante ex presidente, são psicopatas sociais perigosos, pois sabem o que querem.

  11. Constantino, tenho a mesma opinião mas penso que não são os partidos mas suas lideranças como Hitler e Stalin criminosos bárbaros. Não sabia desse episódio Holodomor e realmente ao ler o assunto, não tenho duvidas que ambos praticaram igual genocídio. Portanto, considero que se a democracia permite, assim como a dos EUA, que partidos radicais de direita e esquerda sejam legais, porque aqui em nossa democracia o único banido é o nazista. Dai, concordo com você Constantino, se não pode ter um partido extrema direita também não poderia ter esse de extrema esquerda.

  12. Constantino, muito esclarecedor o texto. Tinha dificuldade em entender “a extrema direita nazista”, com a “extrema direita” empregado nos textos das mídias brasileiras. Agora consigo me posicionar e entender essa confusão toda.

  13. Por todo o mal que causou à humanidade, nunca admiti que o comunismo constituisse um partido numa democracia. Tinha que ser banido como o nazismo. Valeu, Constantino!

  14. Há partidos nazista e comunista nos EUA, mas a pergunta é: o que aconteceria se um deles crescesse tanto a ponto de ter chances de chegar ao poder?

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