O fim dos institutos de pesquisa | Foto: Montagem Revista Oeste/Shutterstock
O fim dos institutos de pesquisa | Foto: Montagem Revista Oeste/Shutterstock

Aqui jaz um instituto de pesquisa

O primeiro turno das eleições é marcado pela desmoralização dos institutos de pesquisa que alimentaram o consórcio de imprensa a favor de Lula

Desde 2020, quando a Revista Oeste começou a ser publicada, foram produzidas cinco reportagens sobre a indústria das pesquisas de intenções de voto no Brasil. A última delas, na edição 126, em agosto, dizia: os questionários das sondagens registradas na Justiça Eleitoral explicam o favoritismo de Lula — mas será que o eleitor ainda confia nelas? O resultado do primeiro turno no domingo, 2, não deixa mais dúvidas.

Pesquisa estimulada

O objetivo dessas reportagens nunca foi desconfiar da ciência estatística. Mas entender por que as pesquisas eleitorais erram tanto. Uma das respostas possíveis encontrada é a manipulação dos questionários, elaborados para induzir o entrevistado a responder aquilo que o instituto foi buscar nas ruas — em alguns casos, pelo telefone ou até pela internet. Por essa razão, Oeste escolheu não publicar nenhuma pesquisa desde as eleições municipais.

Capa da Revista Oeste, edição 96 | Foto: Montagem Revista Oeste/Reprodução

A campanha eleitoral deste ano foi marcada por uma profusão de sondagens jamais vista. Ao menos 22 empresas forneceram serviços a veículos de comunicação, bancos, agências de publicidade, ramo imobiliário e associações de lojistas ou supermercados. Com o fim das manchetes da covid, as porcentagens sobre a corrida eleitoral passaram a inundar o noticiário do consórcio da imprensa. Todas elas apontavam para o mesmo norte: a dianteira de Lula para Jair Bolsonaro era tão grande que a eleição poderia ser resolvida no primeiro turno.

Na véspera das urnas, a vantagem do petista variava de 7 a 14 pontos. O placar final registrou 5 pontos. Todos os institutos erram — alguns, erraram feio. Dessa lista, dois casos desafiam a ciência estatística: o Datafolha, que pertence ao grupo Folha de S.Paulo/UOL/Piauí, e o Ipec (ex-Ibope), contratado pela Rede Globo. Ambos afirmaram que Lula tinha 14 pontos a mais do que Bolsonaro. No caso do Datafolha, o levantamento foi classificado como infalível pelos colunistas do consórcio porque ouviu 12.800 pessoas em 310 cidades, com margem de erro de 2 pontos percentuais.

Um fato é inequívoco nesse cenário: nenhuma empresa produziria tantos números sobre o falso favoritismo de Lula sem a certeza de que eles seriam publicados. Mais do que publicados, os dados foram analisados em tom de seriedade por analistas nas redações. Abasteceram centenas de peças de campanha eleitoral na TV, no rádio e nas redes sociais. Aliás, houve patrulha do consórcio contra quem achou que os números não correspondiam, por exemplo, às multidões que pintaram as ruas de verde e amarelo no 7 de Setembro. As imagens de cartazes com dizeres como “Datafolha, estou aqui”  rodaram o mundo.

Foto: Reprodução

Outro detalhe importante é que, neste ano, a velha mídia também decidiu quais pesquisas poderiam ou não ser utilizadas em defesa do “jornalismo profissional”. O UOL criou um selo de confiança — os editores escolheram as extremamente confiáveis, como o Datafolha, as mais ou menos confiáveis e as que são proibidas de ser divulgadas — curiosamente, as que mostravam Bolsonaro empatado ou até à frente de Lula.

O consórcio também fechou o cerco ao Instituto Paraná. Como o resultado destoava do Datafolha e do Ipec, o grupo publicou uma reportagem em tom de denúncia afirmando que o concorrente recebeu R$ 2,7 milhões do PL, partido de Bolsonaro. O dono da Paraná, Murilo Hidalgo, afirmou que sua empresa oferece serviços para partidos e governos, independentemente de corrente ideológica. Ele apresentou a lista de clientes. A Folha, contudo, reclamou, porque, como podem os dados não baterem com os do Datafolha, Ipec e Quaest? Alguns colunistas acusaram o Instituto Paraná de ser “bolsonarista”, algo inadmissível nas redações “progressistas”.

Além do selo de garantia do UOL, o jornal O Estado de S. Paulo criou um agregador de pesquisa. Trata-se de uma espécie de liquidificador de porcentagens coletadas em diferentes sondagens que resultam num placar final. O resultado dava 51% a 36% para Lula, que seria eleito já no domingo.

Foto: Reprodução Estadão

O principal problema na receita ilógica do Estadão é que não se podem consolidar números feitos por empresas diferentes, com metodologias diferentes, amostragens diferentes e questionários de perguntas diferentes. É algo como tentar fazer um consolidado dos resultados do Brasileirão; ou somar os gols de um mesmo time na Libertadores com os da Copa do Brasil.

Isso fica ainda mais claro quando se analisa o roteiro das perguntas apresentado ao eleitor. Foi esse o tema da edição 62 de Oeste, já em maio do ano passado. Naquela época, as intenções de voto em Lula em cinco empresas variavam de 29 a 41 pontos, e as de Bolsonaro de 23 a 37 pontos. Os institutos funcionavam como birutas de aeroporto, até que alguns se uniram ao pool das redações da velha imprensa — o que explica a calibragem de Datafolha, Ipec e Quaest na reta final.

Erros grotescos também ocorreram nas corridas estaduais. O trio cinco-estrelas (Datafolha-Ipec-Quaest) dos institutos, que têm nota máxima de confiabilidade, não disse em nenhum momento que Tarcísio Gomes de Freitas (Republicanos) liderava em São Paulo. Pelo contrário, revelou que ele estava atrás de Fernando Haddad (PT). Segundo o Datafolha da véspera, o petista vencia: 39% a 31%. O resultado foi 42% a 35% a favor de Tarcísio.

No Rio Grande do Sul, também houve falha. O Ipec disse que Eduardo Leite (PSDB) liderava com 36%, ante 27% de Onyx Lorenzoni (PL). O resultado foi 37% a 26% a favor de Onyx. Detalhe: Leite passou para o segundo turno por 2.441 votos de vantagem para o terceiro colocado — algo como alguns quarteirões de Porto Alegre ou Caxias do Sul.

Por que as pesquisas erram tanto

Lula agradece pelo apoio

Visivelmente abatido depois do susto das urnas, Lula fez questão de agradecer pelo apoio do consórcio da imprensa nos últimos meses. Também fez menção — quase envergonhado — aos institutos de pesquisa que indicaram sua liderança. “Quero agradecer, mais uma vez, à imprensa por seu comportamento nestas eleições”, disse.

Engana-se quem pensa que o petista tem algum apreço pelas empresas de comunicação. Faz parte da cartilha do PT tentar aprovar a “regulação da mídia” — leia-se censura — se Lula for eleito. É um pleito antigo, que naufragou no primeiro governo do petista, pelas mãos de José Dirceu e Luiz Gushiken — chamava-se Conselho Federal de Jornalismo. O projeto depois foi esquecido na gaveta de Dilma Rousseff, com um verniz muito mais agressivo, redigido por Franklin Martins.

Nesta eleição, contudo, Lula provavelmente não teria chegado tão longe sem o apoio da militância de esquerda que tomou as redações. Junte-se a isso a necessidade da Rede Globo de renovar sua concessão pública, o que explica a postura de William Bonner ao anunciar que Lula “não deve nada à Justiça” na sabatina do Jornal Nacional. Outros jornais também têm sofrido sem as verbas polpudas da Secom (Secretaria de Comunicação da Presidência da República).

Foto: Cortesia Jovem Pan

Jair Bolsonaro também comentou o papel do consórcio de imprensa depois do primeiro turno. Disse que, talvez, o resultado seria outro sem o empenho das redações.

“Vencemos a mentira, o Datafolha dava 50% a 36%. Desmoralizou de vez os institutos. A diferença foi outra, isso ajuda a levar votos para o outro lado e vai deixar de existir (…) “Acho que não vão continuar fazendo pesquisa” (Jair Bolsonaro)

É provável que os institutos continuem oferecendo seus serviços. O consórcio de imprensa deve continuar comprando. Mas o eleitor brasileiro respondeu que não quer mais. A fábrica de pesquisas faliu. É melhor mudar de negócio.

Leia também “Adolfo Sachsida: ‘Os marcos legais de mineração são ultrapassados'”

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14 comentários Ver comentários

  1. Temos de dar ideias a nossos parlamentares para esse governo que virá. Levar adiante o PL que limita o poder dos ministros do STF e a duração do cargo, limitar os gastos com a imprensa, vetar decretos inconstitucionais, afastar ministros que não guardarem a constituição,etc

  2. Silvio existe uma informação sobre esta eleição, que acho muito estranha e relevante……
    A soma dos votos brancos e nulos da eleição para governador em todos estados do Brasil é de 14,7 milhões. Se fizermos a mesma soma para a eleição de presidente, a soma é de 5,43 milhões, ou seja, a diferença é de 9,27 milhões de votos brancos e nulos entre a eleição para governadores e presidente.
    No Rio de Janeiro por exemplo, esta diferença entre votos brancos e nulos na eleição de governador e presidente, gerou um acréscimo de 1,0 milhão de votos para os candidatos a presidência, que aparentemente favoreceu o Lula, visto que ele obteve 1,5 milhões de votos a mais que o Freixo.
    Não parece estranho 1,0 milhão de eleitores no estado do Rio de Janeiro votarem em branco/nulo para governador e votarem para presidente ?
    Isso ocorreu no Brasil todo, em Minas Gerais este fato ocorreu com 1,15 milhões de eleitores, em São Paulo foram de 2,26 milhões de eleitores.
    Vocês poderiam investigar e analisar estes dados retirados do portal G1 ?

  3. Segundo dados oficiais, o presidente Bolsonaro teve no nordeste mais votos do que a eleição passada, houve redução nas regiões sudeste, centro-oeste e sul, portanto façamos justiça, a culpa pelo desastre não é totalmente dos nordestino. Falando em pesquisas, não vi até o momento nenhum jornalista fazer uma análise ou comentário por que não foram feitas pesquisas de boca de urna, será que era para não apresentar resultados diferentes das urnas, onde estão os especialistas, ou ninguém achou estranho esta atitude.

  4. Tinham que ser fechados, extintos todos os Institutos de Pesquisas, manipulados, comprados, por aqueles que pagam mais, são empresas que cobram para colocar
    o candidato onde ele quer em pontuação, desde que paguem bem.

  5. Primeiro, excelente texto Navarro, perfeito na análise.
    Segundo concordo em partes com o colega Luiz Antônio pois, conheço muita gente no Nordeste que odeia o Luladrão e não é pouca gente não. .
    Apesar de ele ainda ganhar lá a diferença não seria tão grande se não houvesse a Fralde das Urnas . . .

    1. Os institutos, melhor dizendo, as empresas de pesquisas centuplicaram a máxima comunista “UMA MENTIRA CONTADA MIL VEZES…”

      Deixaram de ser “Institutos” e assumiram de vez, o título de EMPRESAS PRESTADORAS DE FAKE NEWS. Ou seja, assumiram o acrônimo EPFN S/A. Algumas têm até os nomes fantasias de GRUPO FOLHA, IPEC, GLOBO e UOL.

  6. Aceita um debate sério? O teu texto está correto quanto aos “institutos” de pesquisa. Só que analisando profundamente o processo todo, verifica-se que houve as manipulações do data-folha e também a surpresa do data-povo. Os dois fracassaram.
    No entanto, há de se considerar diversos fatores para o favoritismo do lula-ladrão. O povo nordestino realmente gosta de ladrão. Em segundo lugar, eles não querem saber se o atual governo fez alguma coisa ou não, pois tem sua cultura amarrada nos cangaceiros que atiravam primeiro e depois perguntavam. Ou seja, não gostam de críticas e nem de oposição ao que eles pensam. E não deixam os que pensam diferente nem argumentar. São anti-democráticos totalmente. E são xenófobos e quem sabe racistas. Não gostam dos sulistas e só vêm eles como turistas para conseguirem dinheirinho dos incautos que não vêem a exploração dos preços na região. Quem não é da turma não tem espaço .Eles disfarçam para obter vantagem e tirar dinheiro dos turistas do sul do Brasil. TAmbém não querem assistir outro canal além da Globo pois não querem saber das notícias das obras que são feitas pelo governo, economia e até mesmo nem querem saber quem pagou as vacinas e os 10% do pib com a pandemia. E são terrivelmente de esquerda e querem o comunismo, acham correto perseguir as igrejas, e toda a ideologia que destroi a família e a defesa de traficantes e bandidos. O Bolsonaro além do super adversário que foi o supremo que não deixou em paz o presidente para divulgar suas ideias até mesmo no horário gratuito é aplaudido pelo povo nordestino. E uma parte do povo não sabe quais os programas de desenvolvimento e nem o combate a pobreza. Para eles o Lula é o monopolista da ideia de auxiliar os mais pobres e a educação! Não é a primeira vez que os nordestidos mostram ódio aos que não são do nordeste e pensam somente neles e não no Brasil. Pátria, Família e Liberdade são temas antidemocráticos e criminosos ao contrário da liberação das drogas e da corrupção que eles adoram.

  7. Hoje, a Rede Globo já contratou uma pesquisa do antigo IBOPE, o Ipec, mesmo que tenham errado em 14 pontos. E o TSE picareta do Moraes aprova esse tipo de pesquisa picareta.

  8. Como referido pelo nosso mestre Augusto Nunes, as “lojinhas de percentagem” já passaram da hora de fechar as portas. As pesquisas são feitas em papéis higiênicos dupla folha, texturizados e com maciez ao toque.

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