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Medo de perder é maior do que o desejo de ganhar, revela estudo

A Oeste, professor Daniel Yankelevich, da Unifesp, comenta mais recente estudo do Instituto Weizmann e do Hospital Ichilov sobre o tema

Neurologia cérebro estudo Weizmann
Estudo foi feito com a participação de especialistas do Hospital Ichilov | Foto: Reprodução/Pixabay

Um consórcio de cientistas israelenses revelou novas evidências sobre como o cérebro humano reage de forma amplificada diante da ameaça de perder algo, um mecanismo que pode ajudar a entender a base neural da ansiedade e do transtorno de estresse pós-traumático (TEPT).

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O estudo, conduzido por pesquisadores do Instituto Weizmann de Ciências, com a participação de cientistas do Hospital Ichilov, em Tel-Aviv, identificou que determinadas regiões cerebrais distorcem a percepção de risco e fazem o medo de prejuízo se sobrepor ao desejo de ganho.

Segundo o neurologista Daniel Yankelevich, preceptor no Ambulatório de Neurocomportamento da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e coordenador de equipe de neurologia do Dr. Consulta, o trabalho rompe paradigmas.

Ele destaca o fato de os microfios usados nos implantes do teste permitirem captar a atividade de apenas um neurônio, algo raro em humanos.

“Isso é incrível”, afirma ele a Oeste. “Já entendíamos que a amígdala [região cerebral], além de centro do medo e de resposta aversiva, também estava envolvida em modulação emocional e aprendizado emocional, mas aqui entendemos que ela serve para trazer uma vontade, motivação, de explorar novas decisões, dando aleatoriedade e dificuldade de previsão nas nossas decisões. E isso acontece principalmente em situações que podem ser ameaçadoras ou aversivas.”

As inovações do estudo, segundo ele, estão na própria proposta de avaliar alternativas novas não conhecidas em situações adversas onde você pode ter perdas conforme sua decisão.

Yankelevich destaca que a maioria das pesquisas anteriores observava comportamentos de risco em contextos simulados de ganho, o que, segundo ele, torna este estudo singular.

A equipe israelense aproveitou pacientes com epilepsia grave, já submetidos à monitorização intracraniana, para registrar em tempo real o disparo de neurônios individuais durante tarefas de decisão que envolviam perdas ou ganhos.

Uma das etapas, publicada na revista Current Biology, investigou como experiências negativas são generalizadas no cérebro. Voluntários ouviram sons associados anteriormente a situações de ganho ou perda, além de novos tons semelhantes. Quando os estímulos lembravam os sons ligados à perda, os participantes reagiam como se estivessem diante de perigo real.

Os registros intracranianos mostraram que neurônios da amígdala, estrutura envolvida na regulação emocional, eram ativados antes mesmo da resposta consciente.

Tal hiperatividade fazia com que sons neutros fossem interpretados como ameaçadores. A intensidade dessa ativação previu quem confundiria novos estímulos com experiências anteriores negativas.

“O condicionamento negativo pode alterar a própria percepção sensorial, levando alguém a acreditar que ouviu algo diferente do que realmente ocorreu”, explica o professor Rony Paz, líder do estudo.

“Agora conseguimos observar, com precisão inédita, como a amígdala influencia decisões humanas e compreender melhor o que dá errado em certos transtornos, o que pode abrir caminho para novos tratamentos.”

A primeira fase do trabalho, publicada na Nature, envolveu experimentos em que os pacientes ouviam sons indicando se as rodadas de teste representavam chances de ganho ou de perda. Em seguida, escolhiam entre figuras geométricas que indicavam maior ou menor probabilidade de sucesso.

Com o tempo, aprendiam quais opções eram mais vantajosas, mas reagiam de maneira oposta quando o risco de perda estava envolvido.

De acordo com Tamar Reitich-Stolero, pesquisadora do Departamento de Ciências do Cérebro do Weizmann e coautora do estudo, “nas tarefas de perda, as pessoas frequentemente ignoravam a escolha mais vantajosa e insistiam em buscar estratégias que eliminassem totalmente o risco, ainda que isso fosse impossível. Já nas tarefas de ganho, mantinham-se fiéis à opção mais segura e raramente arriscavam algo novo.”

Os cientistas observaram que, diante da ameaça de prejuízo, o cérebro estimula a exploração de novas possibilidades, mesmo quando isso aumenta a chance de perda temporária. Essa oscilação foi associada a variações aleatórias na taxa de disparo dos neurônios, conhecidas como ruído neural.

Modelos computacionais mostraram que esse ruído era mais intenso quando o risco envolvia perda, o que gerava sensação de dúvida e impulsionava decisões exploratórias. “Quando o comportamento exploratório foge do controle, a pessoa pode ficar presa a uma busca incessante por alternativas, uma característica típica dos transtornos de ansiedade”, observa Reitich-Stolero.

O fenômeno de atribuir maior peso às perdas do que aos ganhos, descrito na Teoria da Perspectiva de Daniel Kahneman, Nobel de Economia em 2002, ganha agora um respaldo neurobiológico. O estudo demonstra que o cérebro reage de forma mais intensa ao risco de perder do que à possibilidade de ganhar, e que essa resposta exagerada, quando acionada de maneira disfuncional, pode desencadear distúrbios como o TEPT.

“O poder de generalizar é parte essencial da inteligência”, explica Paz. “Esse mecanismo evoluiu para proteger o ser humano, permitindo que criássemos regras amplas de segurança a partir de experiências passadas. Mas quando ele se torna exagerado, como ocorre no TEPT, qualquer estímulo pode despertar pânico, ansiedade ou depressão.”

Questões em aberto

O projeto reuniu pesquisadores do Instituto Weizmann e médicos do Centro Médico Sourasky (Hospital Ichilov), entre eles os neurocirurgiões Ido Strauss e Firas Fahoum, além de Kristoffer C. Aberg, Dean Halperin, Carmel Ariel, Genela Morris, Lilach Goldstein e Lottem Bergman.

O trabalho integra neurociência comportamental e prática clínica, revelando como a atividade elétrica de poucos neurônios pode moldar decisões humanas complexas.

Leia mais: “Estudo descobre tratamento para surdez genética”

Apesar dos avanços, Yankelevich ressalta que ainda há questões em aberto. “O estudo focou na região da amígdala e do córtex temporal, mas outras áreas cruciais para a tomada de decisão, como o córtex pré-frontal e o estriado ventral, precisam ser exploradas”, ressalta o especialista.

“O que se mediu foi uma correlação, não uma relação causal. Entender como o ruído da amígdala se integra a esses circuitos pode ampliar o conhecimento sobre ansiedade e TEPT.”

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