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Agronegócio

El Niño coloca agronegócio brasileiro em alerta

Fenômeno climático pode alterar o regime de chuvas, afetar a safra 2026/27 e gerar impactos na produção, nos custos e na economia

EL NiÑo agronegócio
As projeções mostram que a agropecuária deve perder ritmo nos próximos meses e pode entrar em uma trajetória de desaceleração até 2027 | Foto: Reprodução/Pixabay

O agronegócio brasileiro atravessou nos últimos anos um período de resultados expressivos. Em 2025, a agropecuária respondeu por cerca de um terço do crescimento de 2,3% da economia nacional, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. A produção de milho avançou 23,6%, a de soja cresceu 14,6% e a pecuária também contribuiu para o desempenho do setor.

No entanto, com a possibilidade de formação do El Niño entre junho e julho, produtores e especialistas acompanham a evolução do fenômeno, que pode influenciar o planejamento da safra 2026/27 e gerar reflexos em diversas cadeias do agronegócio.

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As projeções mostram que a agropecuária deve perder ritmo nos próximos meses e pode entrar em uma trajetória de desaceleração até 2027. Além do risco climático, o setor enfrenta um cenário de custos mais elevados, especialmente com fertilizantes.

Nota técnica reforça preocupação com a próxima safra

A preocupação não se restringe aos modelos meteorológicos internacionais. Em março, o Instituto Nacional de Meteorologia e o Ministério da Agricultura divulgaram uma nota técnica alertando para possíveis impactos do El Niño sobre a agricultura brasileira.

Segundo o documento, as regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste podem enfrentar períodos mais longos de estiagem durante a safra de verão. O cenário pode prejudicar a implantação das lavouras e o desenvolvimento inicial de culturas como soja e milho, além de ampliar o risco de perdas em áreas dependentes exclusivamente das chuvas.

Os sinais observados no Oceano Pacífico reforçam esse alerta. A atualização mais recente é da National Oceanic and Atmospheric Administration (Noaa), divulgada em 11 de junho. A agência climática dos Estados Unidos reforçou o sinal de alerta para o agronegócio. Segundo o monitoramento climático, as condições de El Niño já estão estabelecidas no Oceano Pacífico Equatorial.

El Niño
Gráfico da Noaa mostra temperaturas da superfície do mar acima da média no Oceano Pacífico equatorial | Imagem: Divulgação/Noaa

O índice Niño 3.4, uma das principais referências para acompanhar o fenômeno, atingiu +0,7°C, enquanto a região Niño 1+2, próxima à costa da América do Sul, chegou a +2,1°C. Os indicadores atmosféricos e oceânicos passaram a atuar de forma conjunta, caracterizando oficialmente o começo do evento.

As projeções também ficaram mais preocupantes. Modelos climáticos mostram que o El Niño deve ganhar intensidade ao longo dos próximos meses e avançar até o inverno do Hemisfério Norte de 2026/27. As estimativas indicam 63% de probabilidade de que o fenômeno alcance intensidade muito forte de novembro e janeiro, com potencial para figurar entre os maiores episódios registrados desde 1950.

EL Niño
Existe 63% de probabilidade de um El Niño muito forte durante o período de novembro a janeiro | Imagem: Divulgação/Noaa

O que é o El Niño e por que ele preocupa

O El Niño é um fenômeno climático natural caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico Equatorial. Quando esse aquecimento persiste por vários meses, ele altera a circulação atmosférica e modifica o regime de chuvas e temperaturas em diferentes partes do mundo.

No Brasil, porém, os efeitos costumam ser distintos entre as regiões. O Sul tende a registrar chuvas acima da média, enquanto áreas do Norte, Nordeste e parte do Centro-Oeste podem enfrentar estiagens mais prolongadas e temperaturas elevadas.

O termo “Super El Niño” é usado para episódios de maior intensidade. Ainda não há definição sobre a força que o fenômeno poderá atingir em 2026, mas especialistas destacam que até eventos moderados podem causar impactos importantes quando coincidem com fases decisivas do calendário agrícola.

Para o agronegócio, o momento é de atenção. O segundo semestre concentra decisões sobre compra de insumos, preparo do solo, planejamento do plantio e organização das atividades pecuárias. Qualquer mudança relevante no comportamento do clima pode alterar essas estratégias.

Expansão do agro mudou o mapa dos riscos

Durante muitos anos, parte do setor produtivo enxergava o El Niño como um fenômeno com efeitos relativamente favoráveis para a agricultura. Isso acontecia porque a maior concentração das lavouras estava no Sul do país, onde o aumento das chuvas ajudava a reduzir os riscos de estiagem em determinadas culturas.

Nas últimas décadas, porém, o agronegócio brasileiro mudou de escala e ampliou sua presença em novas fronteiras agrícolas. A produção de grãos passou de pouco mais de 100 milhões de toneladas no começo dos anos 2000 para mais de 350 milhões de toneladas em safras recentes.

Grande parte desse crescimento ocorreu no Centro-Oeste e no Matopiba, região formada por áreas do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Atualmente, esses Estados têm participação decisiva na produção de soja, milho, algodão e outras culturas. São áreas altamente produtivas, mas que dependem da regularidade das chuvas para manter o desempenho das lavouras.

Matopiba agronegocio
Estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, região conhecida como Matopiba | Foto: Reprodução/Redes sociais

Quando o El Niño atrasa a estação chuvosa, intensifica o calor ou favorece veranicos (períodos sem chuvas) mais longos, o risco deixa de ser apenas climático e passa a ter impacto econômico.

Soja e milho podem sofrer efeito em cadeia

Na soja, o principal desafio está relacionado ao calendário de plantio. A primeira chuva nem sempre representa segurança para o produtor. O fator mais importante é a manutenção de um regime hídrico regular. Em regiões onde a janela agrícola é mais apertada, atrasos podem provocar uma sequência de problemas.

A soja plantada mais tarde tende a ser colhida depois do período ideal, reduzindo o tempo disponível para o milho segunda safra. Esse encurtamento aumenta a exposição do milho à seca no fim do ciclo e pode reduzir a produtividade.

Leia mais: “El Niño pode afetar produção e custos do agronegócio do Brasil”

O milho safrinha é uma das culturas mais vulneráveis aos efeitos indiretos do El Niño. Além de seu peso no abastecimento interno e nas exportações, ele é fundamental para a produção de etanol de milho e para a alimentação animal. Uma redução de produtividade em áreas estratégicas pode afetar toda a cadeia de proteínas. Se o milho fica mais caro, aumentam os custos de confinamentos, granjas, produtores de leite, aves e suínos.

Seca no Centro-Norte e excesso de chuva no Sul

Praticamente não existe cultura totalmente imune aos efeitos do El Niño. Como a produção agrícola brasileira está espalhada por diferentes regiões, os impactos variam de acordo com as características locais.

A estiagem costuma afetar Estados como Mato Grosso, maior produtor de soja do país e referência na pecuária bovina, além do Pará, que também possui forte presença nessas atividades.

No Sul, o excesso de chuva representa um desafio para culturas como o arroz, concentrado no Rio Grande do Sul. O aumento das precipitações pode atrasar manejos, dificultar o acesso às lavouras e elevar os riscos em áreas de várzea. No trigo e em outras culturas de inverno, a umidade elevada favorece doenças e pode comprometer a qualidade da produção.

Além disso, o maior problema nem sempre é a quantidade de chuva, mas sua concentração em poucos dias. Eventos extremos podem provocar enchentes, erosão, destruição de estradas e interrupções logísticas.

Os efeitos do El Niño, portanto, vão além das porteiras das fazendas. O clima influencia o transporte de grãos, a chegada de insumos e o funcionamento da infraestrutura de escoamento da produção. Chuvas intensas podem danificar rodovias e pontes, enquanto a irregularidade climática em regiões produtoras dificulta operações de armazenagem e transporte.

Custos maiores e reflexos na economia

Além das incertezas relacionadas ao clima, o setor enfrenta o aumento dos preços dos fertilizantes, influenciado pelas tensões no Oriente Médio. O impacto já é sentido no campo porque os produtores estão adquirindo agora os insumos que serão utilizados nos próximos ciclos de plantio.

Leia também: “Preço dos alimentos deve subir 7% com guerra e El Niño”

Como o agronegócio é um dos principais motores da economia brasileira, eventuais perdas de produção não ficam restritas ao campo. Uma redução na oferta de alimentos pode pressionar a inflação e influenciar as decisões de política monetária.

Juros mais elevados encarecem o crédito rural, dificultam investimentos em tecnologia e reduzem a capacidade de reação para as safras seguintes.

Efeitos mais fortes devem aparecer em 2027

Apesar do cenário de atenção, a agropecuária ainda apresentou crescimento de 2% no primeiro trimestre do ano em relação ao último trimestre de 2025, impulsionada principalmente pela colheita da soja. O resultado veio depois de um avanço de 12% registrado no ano anterior.

Caso o El Niño se confirme, os maiores impactos não devem atingir a safra já em andamento, uma vez que boa parte das áreas já foi plantada. O efeito imediato tende a recair sobre os produtores, que podem enfrentar atrasos no plantio, necessidade de replantio e aumento dos custos operacionais.

Os reflexos sobre o volume colhido e sobre a atividade econômica, no entanto, devem aparecer com mais intensidade em 2027, quando as decisões tomadas durante o próximo ciclo agrícola começarão a produzir resultados.

Leia também: “Campo em crise”, reportagem de Artur Piva e Eliziário Goulart Rocha publicada na Edição 326 da Revista Oeste

E mais: “Agruras do agro”, por Alexandre Garcia

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