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Uma pandemia de desemprego

Estima-se que, passado o surto de coronavírus, o mundo terá mais 150 milhões de indivíduos vivendo abaixo da linha de pobreza
O governador Geraldo Alckmin durante a entrega das obras de ampliação e modernização do PAT (Posto de Atendimento ao Trabalhador) da Estação Brás do Metrô e CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos). Data: 13/01/2015. Local: São Paulo/SP. 
Foto: Edson Lopes Jr/A2AD
O governador Geraldo Alckmin durante a entrega das obras de ampliação e modernização do PAT (Posto de Atendimento ao Trabalhador) da Estação Brás do Metrô e CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos). Data: 13/01/2015. Local: São Paulo/SP. Foto: Edson Lopes Jr/A2AD | Desemprego

Ao comentar o impacto das medidas de isolamento social no setor de bares e restaurantes, Percival Maricato, presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes em São Paulo (Abrasel-SP), foi enfático: “o que está acontecendo com o setor é uma tragédia”, resumiu. “Cerca de 30% dos bares e restaurantes já fecharam as portas. Se houver um segundo lockdown, nem 20% conseguirão permanecer abertos”. Desde o começo da pandemia de coronavírus, cerca de 300 estabelecimentos entraram em falência diariamente só no Estado de São Paulo, deixando quase 2 mil desempregados. “É como se uma fábrica da Ford fechasse por semana no país”, comparou.

O economista Luís Artur Nogueira estuda justamente as consequências do lockdown no mercado formal de empregos. “No período de março a junho de 2020, quando prefeitos e governadores adotaram severas restrições ao funcionamento das empresas, o saldo entre vagas formais abertas e fechadas foi negativo em 1,6 milhão”, escreveu. “No período seguinte, de julho a dezembro, quando houve um processo de reabertura da economia, o saldo de vagas formais foi positivo em 1,4 milhão.” Ou seja, ainda há um déficit de 200 mil empregos.

“É importante ressaltar que o quadro só não foi pior graças ao Benefício Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda, criado pelo governo federal, que permitiu a suspensão de contratos de trabalho ou a redução de jornada e salário, evitando ainda mais demissões”, afirmou Nogueira. “Além disso, a sociedade, de forma solidária, tentou, quanto possível, manter o pagamento a prestadores de serviços próximos, como a manicure, a diarista, o pipoqueiro que trabalhava na porta da escola. Dificilmente haverá esse suporte num segundo fechamento.”

Para Nogueira, a ideia de lockdown até pôde ser considerada aceitável no início, durante os primeiros 30 a 40 dias, quando a pandemia era uma novidade e ninguém conhecia o vírus. “Os cidadãos ficam em casa nesse período, os cientistas estudam, descobrem as formas de lidar com essa doença, quais são os grupos de risco e as medidas preventivas”, afirmou. “Mas repetir isso agora é um absurdo, porque tivemos a prova de que não funciona. Trata-se de um assassinato de empregos, principalmente contra os brasileiros mais carentes.”

Como mostrou a reportagem de capa publicada na 45ª edição da Revista Oeste, é justamente essa parte da população a maior vítima do lockdown: o estudante de escola pública sem acesso à internet, o frentista do posto de gasolina, o entregador de comida, a diarista, o caixa do supermercado. Esses não deixaram em nenhum momento de se deslocar por duas horas em ônibus, trens e metrôs superlotados para atender uma elite que pode permanecer confinada em casas com quintal, apartamentos com varanda gourmet ou casas na praia. Todos desfrutando de seu confinamento vip — como define o jornalista Guilherme Fiuza —, munidos de supercomputadores movidos a internet 4G. Estima-se que, passada a  pandemia, o mundo terá mais 150 milhões de indivíduos vivendo abaixo da linha de pobreza.

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