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Economia

Custo dos itens básicos contribui para endividamento das famílias

Para o economista Francisco Pessoa Faria, pesquisador do Ibre da Fundação Getulio Vargas, o aumento da renda não significa necessariamente maior poder de compra

Endividamento famílias Brasil alimentação
Alimentação teve alta de mais de 80% desde a pandemia | Foto: Reprodução/TV Brasil

A pandemia, desde 2020, e a sequência de aumentos de preços elevaram de forma intensa o custo dos itens básicos no orçamento das famílias brasileiras. A alimentação, principal despesa doméstica, acumulou alta de 83,1% no período. Aluguéis subiram 51,1%, enquanto medicamentos e serviços de saúde, inclusive planos, ficaram 55% mais caros. No mesmo período, a inflação média da economia foi de 41,8%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Levantamento da Tendências Consultoria, revela que despesas essenciais vêm pressionando continuamente o orçamento dos domicílios nestes cerca de seis anos.

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Com maior parcela da renda destinada a gastos básicos, diminui o espaço para consumo, lazer e poupança, relata o jornal O Globo. A dificuldade de cobrir despesas fixas contribuiu para o avanço do endividamento, que hoje compromete cerca de 30% da renda familiar. O patamar é um recorde que o governo tenta reduzir por meio do programa Novo Desenrola.

Mesmo com aumento da renda média e desemprego baixo, o orçamento permanece pressionado. Além de alimentos e moradia mais caros, cresceram despesas recorrentes com serviços como transporte por aplicativo, entregas e plataformas de streaming, frequentemente pagas no cartão de crédito, cujo rotativo supera 400% ao ano.

Para o economista Francisco Pessoa Faria, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas, o aumento real da renda não significa necessariamente maior poder de compra, diz o jornal. Segundo ele, novas despesas passaram a fazer parte do orçamento recorrente, como internet, streaming e aplicativos de transporte e entrega. O índice oficial de inflação, acrescenta, ainda se baseia na Pesquisa de Orçamentos Familiares de 2017 e 2018, o que pode não refletir plenamente as mudanças recentes no padrão de consumo.

Estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostra que a alimentação passou a consumir 28,6% do orçamento das famílias de baixa renda, ante 25,8% em 2020. No mesmo intervalo, o rendimento médio avançou 12% acima da inflação, sem necessariamente se traduzir em maior poder de compra.

A economista Alessandra Ribeiro, sócia da Tendências Consultoria, afirma que, apesar da boa dinâmica do mercado de trabalho, os itens essenciais absorvem parcela crescente da renda. Estudo da consultoria mostra que apenas 21% da renda disponível hoje fica para gastos não essenciais — o menor nível desde 2011 — pressionado principalmente pelo peso das dívidas.

A pesquisadora Maria Andreia Parente, do Ipea, observa que o impacto é ainda maior entre as famílias de menor renda. “Quando há um período em que os preços dos alimentos crescem muito, a renda disponível das famílias mais pobres fica ainda menor”, afirma.

Pressão para endividamento

O economista Marcelo Neri, diretor da FGV Social, afirma que a combinação entre novos hábitos de consumo e crédito caro aprofunda a pressão sobre as finanças domésticas. Com a taxa básica de juros em 14,5% ao ano, investidores se beneficiam da remuneração elevada, enquanto famílias de menor renda recorrem a modalidades mais caras de crédito, como o rotativo do cartão e o cheque especial. “Não há orçamento que dê conta”, afirma.

Leia mais: “Endividamento das famílias bate recorde acima de 80% em abril”

Outra despesa essencial com forte impacto no orçamento é a energia. Levantamento da Abrace Energia mostra que a conta de luz acumulou alta de 401,4% entre 2000 e 2024, acima da inflação média de 340% no período. Parte do alívio recente veio da devolução de cerca de R$ 70 bilhões em impostos cobrados indevidamente nas tarifas, mecanismo que segurou reajustes a partir de 2020. Com o fim dessas compensações, a tendência é de novas pressões tarifárias.

Leia também: “Fórmula do endividamento permanente”, reportagem de Adalberto Piotto publicada na Edição 321 da Revista Oeste

Outros serviços básicos também registraram aumentos expressivos nas últimas duas décadas: a água acumulou alta de 621% e o gás, superior a 700%. Para a professora Juliana Inhasz, do Insper, quando despesas essenciais como alimentação, energia, moradia e transporte sobem acima da inflação média, o efeito é a redução da sensação de bem-estar, mesmo em um cenário de renda maior e desemprego baixo.

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