publicidade
Mundo

A melhor distopia para combater o progressismo

E não é 1984 e nem Admirável mundo novo

Michel Henry escreveu "O amor de olhos fechados" | Foto: Reprodução/Redes Sociais

Como já falado em textos anteriores, uma das intenções confessas desta coluna é mostrar bons lançamentos literários do universo editorial nacional. Falar de obras lançadas há algum tempo e que, imerecidamente, se tornaram célebres desconhecidas, livros que foram completamente ignorados pelo público e críticas nacionais é uma missão profissional que levo quase como missão de vida. Vamos lá, confesso que nessa seleção de riquezas, ser uma espécie de arqueólogo misturado a sommelier de bons livros, me agrada mais do que ser um expositor de novidades — ainda que isso também tenha seu inegável charme.

Um desses livros que sinceramente não consigo explicar o porquê de ter se tornado um “ilustre desconhecido” no país trata-se de O amor de olhos fechados, do filósofo existencialista francês, Michel Henry. Bem escrito, profundo em descrições, poético em suas análises estéticas e filosóficas, e com um enredo fascinante que joga com o caos anárquico, tempera tudo isso com romance — amoroso mesmo —, além de um bom suspense e o espanto do grotesco. Reafirmo aqui: é realmente incompreensível como uma obra como essa não tenha sido bestseller, se tornado clássico.

Receba nossas atualizações

Narrando a história de uma cidade-Estado costeira fictícia chamada Aliahova, a voz do narrador, desde o primeiro instante, nos traz à compreensão de que se tratava de uma cidade em que, em tempos antigos, a alta cultura tinha prosperado como força vital, com uma liberdade de ideias e prosperidade mercantis únicas, da política à economia, do mercado público às catedrais, da universidade às praças, tudo respirava grandiosidade cultural e humana, fazendo-nos recordar naturalmente da antiga Veneza, Roma, Bizâncio. Todavia, não é essa a história que Henry irá explorar em seu romance, a da grandeza cultural de Aliahova desde a sua antiguidade, mas a da sua decadência social, moral e intelectual, e para isso ele nos apresentará dois personagens centrais.

Saiba mais

Entre eles, Sahli: um professor dotado de um senso estético e filosóficos aguçados, homem capaz de encontrar nas atitudes cotidianas dos estudantes e dos acadêmicos da universidade de Aliahova o fedor da putrefação intelectual que infectaria a cidade como um todo, sendo apto, além disso, a vislumbrar a inevitável rendição cultural da cidade à revolução histérica e à iconoclastia. Michel Henry também nos apresenta Deborah: mulher que aquece em Sahli aquilo que lhe falta, o senso de ação, de enfrentamento, de preservação da honra e de heroísmo —, além, é claro o tempero romântico que dá a Deborah um protagonismo parecido com o de Julia em 1984.

A obra, assim, é narrada com uma espécie de lirismo e angústia, eis — mostra o autor — o progresso da decadência no Ocidente, realizado através do motim revolucionário e do desvirtuamento do senso estético. E aqui está um dos pontos altos da obra, uma das únicas distopias que abordam a corrosão da estética clássica como um dos sintomas centrais da decadência humana. A abordagem filosófica e psicológica de Michel Henry traz ainda para a obra uma mistura de análise comportamental dos militantes fideístas e uma dissecação filosófica das retóricas dessas massas de manobra. Ao homem que perde o senso do belo ‒ mostra-nos O amor de olhos fechados —, inevitavelmente lhe faltará também o senso do que é bom, justo e, por último, do que é humano.

O progressismo, aqui, é apresentado corajosamente como putrefação e atraso, a revolução como método e máquina de desumanização, a corrupção estética como uma rebelião contra a ordem cósmica mais fundamental para a sociedade e para os indivíduos. Escrita em forma de romance, essa é, sem gastar adjetivos à toa, uma das mais geniais e agudas críticas à mentalidade revolucionária que li ‒ e, por isso mesmo, ao progressismo. É perceptível o movimento argumentativo do autor no desenrolar do livro. Michel Henry está em plena sala de aula, expondo-nos de forma brilhante os fundamentos, nervuras e consequências da mentalidade progressista, desenvolta através da insurreição histérica das universidades, em especial.

Michel Henry foi um dos mais destacados filósofos ‒ ainda que ignorado por suas conclusões antiprogressistas. Descendente, filosoficamente falando, de Paul Ricœur e influenciado profundamente por Søren Kierkegaard, foi um dos desenvolvedores do pensamento denominado “Fenomenologia da vida”; escreveu sobre o simbolismo e a tradição cristã, de filosofia política e outros romances mais; deixou cerca de onze obras escritas e cinco póstumas.

Sua vida explica um pouco de sua percepção estética exposta no romance, pois, após a morte de seu pai poucos dias depois de seu nascimento ‒ na Indochina, atual Vietnã ‒, ele retorna à França com sua mãe, uma excelente pianista educada ao estilo clássico. Ainda quando criança, morou longas temporadas com seu avô, que também era músico e diretor de um conservatório, além de um admirador assíduo das artes clássicas como um todo. Dessa maneira, cresceu envolto à erudição, alta cultura e contemplação estética. Voltou-se, é fato, para a vida intelectual como filósofo e à literária, chegou a afirmar que, para ele, filosofia e literatura se apresentavam como uma coisa só. Estava, dessa forma, muito bem fincado na educação clássica, e foi assim que analisou a decadência contemporânea de um ponto de observação privilegiado ‒ obviamente, também gestado por seu intelecto brilhante.

Henry foi professor na École Normale Supérieure, em Sorbonne, na Universidade Católica de Louvain, Universidade de Washington e Universidade de Tóquio. Foi ainda professor titular de filosofia na Universidade de Paul Valéry, em Montpellier.

A obra foi lançada em 2016 no Brasil pela editora É realizações, do visionário e corajoso editor Edson Manoel Filho, que buscou em Henry não só o que interessava aos vieses acadêmicos de momento das universidades brasileiras, universidades que cada vez mais parecem padecer do exato verme que ele denunciou em O amor de olhos fechados, mas também trouxe aquelas obras críticas e romances filosóficos profundos que poucas pessoas aqui no país conheciam. No espólio de edição da É realizações, ainda encontram-se os seguintes livros de Henry: A Barbárie, Encarnação, Uma filosofia da carne, Ver o Invisível, Sobre Kandinsky, Palavras de Cristo, O Jovem Oficial, O Cadáver Indiscreto, Eu Sou a Verdade, Por uma filosofia do cristianismo, Filosofia e Fenomenologia do Corpo, Ensaio sobre a ontologia biraniana, O Filho do Rei.

O amor de olhos fechados tem uma ótima tradução do caro colega Pedro Sette-Câmara, além de uma ótima revisão geral. Essa, aliás, já não é uma obra para ler “numa sentada só”, como as que anteriormente indiquei nesta coluna. Trata-se de um livro para ser digerido com calma, para se prestar atenção nas “firulas” descritivas do autor, pois, o que em um olhar descuidado poderá soar como enfeite prolixo, esconde antes um tratado de alta filosofia e análise psicológica que servirá para aqueles que entendem, minimamente, a importância da estabilidade moral, os que ainda têm algum senso estético e compreendem que uma certa estabilidade ética e social é condição de enraizamento humano.

“Um livro conservador demais” para os críticos. Ok, pode ser ‒ e não há demérito nisso ‒, mas é muito mais do que isso, é um livro genial para os que ainda são capazes “de amar de olhos fechados” aquelas heranças que não vimos nascer e que, de tão essenciais e boas, devemos cuidar para não deixá-las morrer. Um livro, por fim, para aqueles que querem deixar para seus netos mais do que escombros, antidepressivos e feiuras estruturais e artísticas, empilhadas contraditoriamente em nome de um progresso que nos faz regredir em todos os sentidos.

Leia mais sobre:

0 comentários
Nenhum comentário para este artigo, seja o primeiro.
Canal Oeste
Nossos colunistas
Foto do autor J. R. Guzzo (diretor perpétuo)
J. R. Guzzo (diretor perpétuo)
Foto do autor Augusto Nunes
Augusto Nunes
Foto do autor Ana Paula Henkel
Ana Paula Henkel
Foto do autor Guilherme Fiuza
Guilherme Fiuza
Foto do autor Rodrigo Constantino
Rodrigo Constantino
Foto do autor Alexandre Garcia
Alexandre Garcia
Foto do autor Antonio Cabrera
Antonio Cabrera
Foto do autor Eugênio Esber
Eugênio Esber
Foto do autor Evaristo de Miranda
Evaristo de Miranda
Foto do autor Flávio Gordon
Flávio Gordon
Foto do autor Roberto Motta
Roberto Motta
Foto do autor Miriam Sanger
Miriam Sanger
Foto do autor Adalberto Piotto
Adalberto Piotto
Foto do autor Frank Furedi, da Spiked
Frank Furedi, da Spiked
Foto do autor Jeffrey A. Tucker.
Jeffrey A. Tucker.
Foto do autor Theodore Dalrymple
Theodore Dalrymple
Foto do autor Flavio Morgenstern
Flavio Morgenstern
Foto do autor Ubiratan Jorge Iorio
Ubiratan Jorge Iorio
publicidade
publicidade