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Israel e a política de autodefesa: 50 anos da Operação Entebbe

Resgate em aeroporto na Uganda será lembrado neste sábado no país, com homenagens e abertura de arquivos

Yonatan Netanyahu morto em Entebbe irmão primeiro-ministro Israel
Yonatan Netanyahu, comandante na operação, foi um dos mortos em Entebbe | Foto: Reprodução/IDF

Há 50 anos, um avião da Air France foi sequestrado, depois de uma escala na Europa, por terroristas de grupo radical palestino e da extrema-esquerda alemã. O fato ocorreu em 27 de junho de 1976, em ação que mobilizou o governo de Israel. Entre os 248 passageiros sequestrados, 106 eram judeus ou israelenses. A operação de resgate ocorreu no dia 4 de julho seguinte.

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Serão realizadas, neste sábado, 4, no país, cerimônias em memória do acontecimento. O sequestro em Entebbe remete a situações que, com outra roupagem, têm se repetido a partir dos ataques de 7 de outubro: críticas ao direito de autodefesa de Israel, campanhas contra o país e ressurgimento de um discurso antissemita que se mistura ao antissionismo. Arquivos secretos a respeito da operação serão abertos e liberados. Veteranos, vítimas e familiares serão homenageados.

O sequestro em Entebbe ajudou a estruturar um novo método de ação em Israel. A partir de então, foram adotadas estratégias de prevenção e de retaliação a ataques pontuais organizados por inimigos do Estado.

Haviam se passado quatro anos desde o ataque terrorista à delegação de Israel na Olimpíada de Munique. À aquela altura, tudo o que planejava a então primeira-ministra de Israel, Golda Meir, não tinha se efetivado. Depois de Israel eliminar, um por um, os terroristas que atuaram no ataque, o terror ainda era uma ameaça a cidadãos judeus ou do país.

O sequestro era uma demonstração disso. O avião, que realizava o voo 139 pela companhia francesa, ia de Tel-Aviv para Paris. Foi sequestrado na escala em Atenas. Parte dos passageiros foi libertada lá mesmo e outra parte continuou em cativeiro, dentro da aeronave, que teve a rota desviada para Entebbe, na Uganda.

O então ditador ugandense, Idi Amin Idi Amin Dada, comandava um dos governos mais brutais da história. Mantinha um discurso hostil a Israel, em meio a uma crise profunda no país africano, provocada por sua gestão. Cerca de dezenas de milhares de pessoas que controlavam parte importante do comércio e da indústria foram expulsas. O comércio interno, os bancos e o crédito retraíram suas atividades. Os setores produtivos entraram em colapso.

Na cabeça insana do ditador, manter imagens do avião aterrissado no aeroporto, com algumas autoridades o cercando, era uma forma de marketing. Ele buscava a visibilidade de Uganda e, com ela, angariar dinheiro e apoiadores por meio do discurso contra Israel.

Em Jerusalém, o governo israelense recebia informações por etapas. O primeiro-ministro Yitzhak Rabin só soube depois de várias horas qual foi o destino da aeronave. Israel acionou a França, já que o avião operava sob bandeira francesa, e solicitou que Paris assumisse a condução das negociações, algo que não aconteceu.

Com a confirmação do pouso em Entebbe, Uganda passou a ser considerada parte central da crise. Os reféns foram mantidos no terminal sob vigilância contínua. Os sequestradores, terroristas da Frente Nacional pela Libertação da Palestina e radicas de esquerda alemães, apresentaram exigências de resgate em dinheiro e libertação de prisioneiros em diferentes países, com prazo e ameaça de execução.

Sem canal para negociações, o governo de Israel resolveu agir por conta própria. Reunião de gabinete definiu que seria realizada uma operação da Forças de Defea de Israel, por meio de sua unidade de elite, Sayeret Matkal, e da Força Aérea, com o Mossad (serviço de inteligência).

O objetivo era chegar furtivamente a Entebbe. Sem um sistema de alerta avançado, no aeroporto e do tráfego aéreo, ficou fácil para os C-130 Hercules de Israel pousarem em pistas rudimentares.

Para chegar ao aeroporto, os agentes utlizaram um carro similar ao de Idi Amin, o que enganou a guarda local. No terminal, agentes transitaram com disfarces, até ocorrer o disparo inicial. Tropas do Sayeret haviam invadido o setor onde os reféns estavam reunidos.

O combate durou de 30 a 40 minutos. A maior parte dos sequestradores foi neutralizada rapidamente. No total, se salvaram 102 pessoas. Três reféns foram mortos pelos sequestradores e uma quarta sequestrada, por ordem de Idi Amin, foi morta no hospital, em Kampala, para onde fora enviada com o objetivo de se “recuperar” dos ferimentos.

O episódio serviu para forjar o pensamento político do atual primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, baseado na busca de garantia de segurança a Israel à qualquer custo. Bibi, como é conhecido, já havia sido influenciado pelas teorias de seu pai, Benzion, um intelectual que estudou, durante a vida toda, a perseguição que os judeus sofreram na história. Segundo Benzion, o Holocausto fora o ápice de situações similares que se repetiram séculos e milênios antes.

A iniciativa de Israel resgatar seus cidadãos sequestrados por terroristas e levados a um país hostil foi criticada por parte da comunidade internacional. Ela se baseou nas queixas do ditador ugandense , que, depois de ser conivente com o sequestro, acusou Israel de agressão e violação de sua soberania territorial.

Críticas e apoio a Israel pela Operação Entebbe

O protesto de Idi Amin ganhou apoiadores. Algo similar ao que ocorreu depois da reação israelense a ataques contra o seu território. O argumento, em relação à Entebbe, era o de que as forças israelenses desrespeitaram a soberania de um país.

Corroboraram a tese contra Israel a Organização da Unidade Africana (OUA); a União Soviética (URSS) e a Líbia, comandada pelo ditador Muhammad al-Kadafi e nações árabes. Até o então secretário-geral da ONU, Kurt Waldheim, declarou que a operação foi “uma grave violação contra a soberania” de um Estado membro.

Leia mais: “Israel: ataques de 7 de outubro completam mil dias”

Mas o mundo ocidental, com o suporte do Quênia, vizinho de Uganda e contrário ao regime, liderado pelos Estados Unidos e pelo Reino Unido, deu apoio a Israel. Nenhuma resolução foi votada a respeito, porque ambos os lados não obtiveram quórum suficiente.

O caso virou tema de filmes. Ocorreu na data de comemoração da Independência dos Estados Unidos, 4 de julho. Mas se tornou, para Israel, um dia que representou uma outra forma de independência. Como já havia acontecido com o nazista Adolf Eichmann, capturado em Buenos Aires e condenado à morte em Israel.

A autonomia de Israel para ir buscar seus cidadãos em apuros, oprimidos por terroristas ou regimes totalitários, se firmou como uma política do governo. Em qualquer lugar do mundo “soberano”.

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