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No Ponto

Paulo Serra: 'Vivemos em uma sociedade extremamente insegura'

Candidato ao governo de São Paulo fala a Oeste, entre outros assuntos, sobre o crescimento do PCC durante os quase 30 anos de gestão do PSDB

Paulo Serra candidato governo São Paulo PSDB
Paulo Serra foi prefeito em Santo André durante dois mandatos | Foto: Facebook/Paulo Serra

A cidade de Santo André, no ABC paulista, sempre foi palco de tensão política. Paulo Serra, 53 anos, candidato a governador pelo PSDB, cresceu nesse ambiente. Neto de ex-vice-prefeito e filho de vereador suplente, elegeu-se vereador em 2004, aos 21 anos. Vivia a política e estudava. Essa rotina o levou a se formar em Economia e Direito.

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Uma das contendas históricas da cidade, marcadas por barulhentas carreatas em amplas avenidas, ocorreu na eleição de 2012. A disputa tirou o então prefeito Aidan Ravin (PTB) do cargo e levou o petista Carlos Grana à vitória. Serra, na ocasião, aderiu à gestão do PT. Hoje evita falar a respeito daquela fase.

Naquele período, o país ainda repercutia o julgamento do Mensalão, que aprofundou o clima de ruptura política. Em meio às divergências locais, Serra se movimentava em busca de interlocução com adversários, como a decana Dinah Zekcer (PTB) e o ex-prefeito Vanderlei Siraque (PT), derrotado de forma surpreendente por Ravin em 2008.

Até se firmar no PSDB, Serra transitou por vários partidos. Iniciou sua trajetória no PFL, pelo qual foi eleito vereador. Ingressou no PSDB em 2006 e por lá ficou até 2012. Na gestão de Carlos Grana (PT), atuou como secretário de Mobilidade Urbana, Obras e Serviços Públicos, como membro do PSD. Conheceu de perto as deficiências da administração.

Deixou o governo em 2015 para disputar a eleição para prefeito. Venceu o próprio Grana em 2016. Nessas idas e vindas, havia retornado ao PSDB. Reeleito prefeito em 2020, ampliou sua atuação entre os tucanos até se tornar tesoureiro nacional em 2023, cargo que ocupou por sete meses. Serra também é membro da executiva nacional do partido. Nesse período de instabilidade do PSDB, viu seu aliado Eduardo Leite, o governador do Rio Grande do Sul, deixar a sigla.

Tentando fugir do que chama de polarização, Serra fortaleceu sua relação com o ex-governador do Ceará, Ciro Gomes, a quem apoia em uma eventual candidatura à Presidência da República. Neste momento, seus cerca de 5% das intenções de voto nas pesquisas não o colocam como favorito ao governo paulista. A própria candidatura e a aliança com Ciro, no entanto, podem lhe garantir maior projeção nacional.

Nesta entrevista a Oeste, Serra fala sobre o crescimento do PCC e outros problemas que, ao longo dos quase 30 anos em que o PSDB governou o Estado de São Paulo (de 1995 a 2022), permanecem sem solução, apesar de algumas melhorias registradas em índices como desigualdade e criminalidade. Confira.

Até que ponto o senhor entra com o projeto de vencer esta eleição?

A gente entra na eleição com a expectativa de dar ao eleitor de São Paulo uma alternativa longe dos extremos, algo que a nosso ver não tem sido favorável e saudável à discussão política e principalmente à execução das políticas públicas no Brasil. A qualidade de vida do brasileiro, ao que tudo indica, não tem melhorado nesse período pós-polarização, e é essa alternativa que a gente quer construir aqui em São Paulo.

O PSDB passou quase 30 anos no poder em São Paulo. Se houve avanços, conforme os dirigentes do partido afirmam, quais as causas da derrota na última eleição no Estado?

O legado do PSDB no Estado de São Paulo é inegável. Começou com o Mário Covas, que implementou um real choque de gestão que mudou o Estado em relação às contas, à responsabilidade fiscal, à capacidade de investimento. Isso durou por 28 anos. Sem dúvida que esse legado existe e refletiu nos índices. A questão do insucesso na última eleição tem muito mais a ver com as falhas do próprio PSDB, as questões internas, as disputas, o enfraquecimento do partido, do que propriamente com a questão da produtividade das gestões tucanas.

O PSDB realmente se enfraqueceu muito nos últimos anos. Quais os desafios agora?

O grande desafio é reconectar as pessoas ao que foi um dia o símbolo da boa gestão e dos bons quadros, que era o caso do PSDB. Houve uma desconexão das pessoas, o que coincidiu, inclusive, com o aumento da polarização, essa radicalização política que a gente vive hoje. Então, a nossa missão é mostrar que existe vida inteligente longe dos extremos, para se reconectar às pessoas e, efetivamente, fazer com que esse legado volte a ser reconhecido.

A sensação de insegurança continua grande e houve enorme crescimento de facções como o PCC nestes últimos trinta anos em que o PSDB administrou o Estado. A que o senhor atribui tal situação?

A questão da segurança é um problema nacional, e São Paulo sem dúvida nenhuma é uma das grandes vítimas disso. Apesar dos números demonstrarem uma queda, a sensação e a percepção são de que essa queda efetivamente não existe. Não há solução simples para este problema complexo. Mas São Paulo deveria ter utilizado o seu peso político, a sua força econômica como o principal Estado do Brasil para fazer com que o Congresso Nacional pautasse uma revisão do Código Penal. Isso é fundamental, e me refiro também ao Código de Execução Penal e Código de Processo Penal.

Como o senhor vê a legislação brasileira neste sentido?

A legislação no Brasil é antiquada, é um estímulo à impunidade. Sem a revisão das leis — e as leis penais no Brasil são federais — não tem como fazer uma grande revolução na questão da segurança pública. O outro ponto é a necessidade de mais investimento na qualificação e valorização das forças policiais e na inteligência. Claro que o policiamento ostensivo é importante, mas a inteligência é fundamental. Além disso, é preciso atuar numa outra frente, que é a base de toda uma sociedade, que é investimento em educação. Tenho falado muito isso: é um absurdo que São Paulo não tenha o maior Índice de Desenvolvimento da Educação Básica do Brasil (Ideb) do país. Esses fatores somados podem contribuir muito para melhorar a percepção de segurança, que é o que está faltando. Hoje a gente vive numa sociedade extremamente insegura.

Como prefeito de Santo André, o senhor buscou atrair investimentos. De que maneira políticas implementadas na Prefeitura podem ser adaptadas para o governo estadual?

São Paulo já é a locomotiva do Brasil, e parte disso é graças ao grande legado revolucionário iniciado com a gestão do Mário Covas e toda a construção que o PSDB fez em quase 30 anos em São Paulo. Então já é um Estado que tem atraído investimentos. Agora a gente precisa dar o próximo passo: se modernizar, qualificar a questão da inovação, criar um ambiente que substitua de alguma forma a tradicional industrialização, adaptar o Estado à reforma tributária que já foi aprovada no Congresso Nacional e continuar enxergando a infraestrutura com projetos mais modernos e contemporâneos, não só com o modelo tradicional de estradas de rodagem, além do investimento maciço em educação.

O que falta para as obras do metrô, com várias acusações de superfaturamento, serem concluídas no mesmo ritmo de países como o Japão ou a China?

A questão do metrô nas gestões do PSDB andou muito. Foram as gestões do partido que praticamente construíram o metrô. Sei que ainda falta muito. O ritmo no Brasil é mais lento, e aí é uma questão também que tem a ver com o nosso pacto federativo. Os recursos ficam concentrados em Brasília enquanto os problemas estão nos Estados e principalmente nos municípios. Nossa estrutura não andou mais rápido porque é um país ainda muito burocrático, com essa questão da divisão dos recursos. Muitas vezes não se tem o devido planejamento porque não se tem segurança jurídica para o investimento de recursos. Eu tive a oportunidade de ir para Harvard estudar as parcerias público-privadas e a gente vê o quanto o Brasil — e o metrô seria um caso típico para isso — ainda engatinha nisso.

Leia também: “O novo velho PT”, reportagem de Anderson Scardoelli publicada na Edição 320 da Revista Oeste

Qual é o seu alinhamento com Ciro Gomes?

A relação com o Ciro é excelente. Talvez a nossa maior identidade seja nas soluções macroeconômicas. O Ciro é um especialista em Brasil e em economia, especialmente na que hoje afeta tanto a vida do brasileiro. A gente vê uma população endividada, subempregada, informal, e nesse ponto temos um total alinhamento.

O senhor já o apoiou ou votou nele em outras eleições?

Sou tucano, me filiei em 2006, então há 20 anos. Tive a oportunidade de ver o Ciro, governador do Ceará, o primeiro governador do PSDB. Depois ele se distanciou um pouco da gente, por isso participei de campanhas tucanas a vida inteira, então não tive a oportunidade de estar com ele em outras campanhas presidenciais. Mas temos tido muitas conversas.

Como o senhor vê a possibilidade dele se candidatar novamente à Presidência?

Eu vejo de maneira positiva a possibilidade de o PSDB ter um candidato como o Ciro Gomes à Presidência, porque o partido quer se reconstruir com equilíbrio, mostrando que tem alternativa longe dessa polarização. Para isso, sem dúvida nenhuma, precisa, como a gente diz aqui, entrar em campo. Time que não entra em campo não tem torcida, e o Ciro é muito qualificado, principalmente com soluções econômicas, macroeconômicas para o Brasil. Há a questão da responsabilidade fiscal, mas também é preciso criar soluções, não só com programas de assistência, mas também com relação ao endividamento de grande parte das famílias. Vejo como positivo para o Brasil ter uma alternativa. E é algo importante também para o PSDB, que quer se reposicionar, se reconectar com as pessoas e voltar a ser aquele partido de referência de boas gestões.

A coluna No Ponto analisa e traz informações diárias sobre tudo o que acontece nos bastidores do poder no Brasil e que podem influenciar nos rumos da política e da economia. Para envio de sugestões de pautas e reportagens, entre em contato com a nossa equipe pelo e-mail [email protected].

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1 comentário
  1. Manoel
    Manoel

    Por que a surpresa? PMDB sempre foi um pt bem disfarçado, mas hj é escancaradamente aberto

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