Desde que foi preso preventivamente por ordem do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), no último sábado, 22, em Brasília, o ex-presidente Jair Bolsonaro tenta estabelecer uma rotina no local. A cela da Polícia Federal (PF) para onde ele foi levado é isolada dos demais presos e passou recentemente por reforma. O local tem 12m² e foi equipado com um banheiro privativo, ar-condicionado, cama, mesa com cadeira, televisão e frigobar.

A permanência de Bolsonaro no prédio da PF foi mantida depois de Moraes encerrar o processo do chamado “núcleo um” da suposta trama golpista, na terça, 25. O magistrado determinou o início do cumprimento das penas de todos os sete réus — no caso do ex-presidente, a sentença é de 27 anos e 3 meses de prisão em regime inicial fechado. Segundo a equipe médica, o ex-chefe de Estado não teria condições de saúde para cumprir pena no Complexo Penitenciário da Papuda.
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De acordo com relatos de pessoas próximas, Bolsonaro passa boa parte do tempo com a televisão ligada, acompanhando principalmente telejornais e transmissões de futebol. São os programas esportivos que deixam o ex-presidente um pouco mais calmo e relaxado.
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A rotina também tem incluído visitas. Bolsonaro recebeu a ex-primeira-dama Michelle e advogados, ainda no sábado. Nesta terça-feira, 25, também visitaram o ex-presidente os filhos Flávio e Carlos. As visitas, que precisam ser autorizadas pelo ministro do STF, devem ocorrer de forma separada, das 9h às 11h, com até 30 minutos de duração. Flávio afirmou que Bolsonaro tem sido bem atendido e que recebeu orientação médica para tomar os medicamentos de forma adequada. Na quinta-feira 27, Bolsonaro deve receber outro filho, Jair Renan.

Situação médica
Desconfiado, Bolsonaro tem recusado refeições servidas pela PF. Prefere receber a comida levada por sua equipe e por familiares. São refeições simples, com baixo teor de gordura, e adaptadas por causa das sequelas oriundas da facada que sofreu em 2018. A Polícia Federal registra a entrada dos itens e limita a quantidade enviada, como ocorre com outros presos em cela especial. Na terça-feira, Moraes atendeu ao pedido do ex-presidente e formalizou a autorização para que ele recebesse alimentação especial externa na cela.
A equipe médica sugeriu que Bolsonaro realize caminhadas leves e tome sol diariamente. Na manhã de segunda-feira 24, ele foi visto de bermuda e chinelo, sentado em uma cadeira, tomando sol e acompanhado de um policial. Também foi pedido para que a cabeceira da cama fosse elevada, para minimizar os episódios de refluxo que acometem o ex-presidente — condição que causa queimação, ânsia e dor na região abdominal, por causa do retorno involuntário do líquido do estômago para o esôfago.
O quadro de saúde de Bolsonaro segue estável, mas é frágil, e exige observação médica constante. O ex-presidente toma medicações contínuas para controlar o colesterol, a hipertensão e o refluxo. Ainda, faz uso de remédios para conter as constantes crises de soluço — agravadas por fatores psicológicos, quando, por exemplo, Bolsonaro fica ansioso ou preocupado.
Os médicos de Bolsonaro, Cláudio Birolini, cirurgião geral, e Leandro Echenique, cardiologista, visitaram o ex-presidente no último domingo, 23. Eles elaboraram um relatório sobre sua saúde que foi incluído nos autos da Ação Penal 2.668. Segundo os médicos, uma combinação medicamentosa teria provocado um quadro de “confusão mental” e de “alucinação” no ex-presidente. Esses efeitos teriam levado Bolsonaro a tentar violar a tornozeleira eletrônica na última sexta-feira, 21, usando um ferro de solda. Bolsonaro estaria em surto, provocado por uma “paranoia” de que haveria uma escuta no equipamento, conforme argumento apresentado pelo próprio durante a audiência de custódia.
Segue trecho do relatório médico: “Na noite de sexta-feira, 21, o ex-presidente relatou que apresentou quadro de confusão mental e alucinações, possivelmente induzidos pelo uso do medicamento Pregabalina, receitado por outra médica, com o objetivo de otimizar o tratamento, porém sem o conhecimento ou consentimento dessa equipe”.
Bolsonaro já fazia uso das seguintes medicações: clorpromazina e gabapentina, princípios ativos utilizados para tratar os episódios de soluço. Entretanto, a endocrinologista Marina Grazziotin Pasolini, que não integra a equipe médica do ex-presidente, receitou o uso diário de pregabalina — usado no tratamento de dores — em 17 de novembro. A prescrição do novo remédio não foi informada à equipe de Bolsonaro. “Ficamos chateados porque não fomos comunicados”, diz Birolini. “Não que tenha havido erro ou má-fé”, explica, “mas é importante informar a equipe quando um novo remédio é incluído na rotina do paciente”. Além dos três medicamentos, Bolsonaro também faz uso do antidepressivo Sertralina.
Risco de efeitos colaterais
O relatório produzido pelos médicos informa que o uso de pregabalina, em combinação com clorpromazina e gabapentina, “tem como efeitos colaterais reconhecidos a alteração do estado mental, com possibilidade de confusão, desorientação, coordenação anormal, sedação, transtorno de equilíbrio, alucinações e transtornos cognitivos”. De acordo com os médicos, o uso da pregabalina foi suspenso e não há sintomas residuais até o momento.
Em decisão, Moraes reforçou as orientações repassadas pela PF: em caso de emergência médica, a medida mais rápida e segura é acionar o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência. A equipe médica registrada no processo terá acesso liberado ao ex-presidente para acompanhar seu quadro e ser comunicada de qualquer alteração.
O que dizem as bulas dos remédios de Bolsonaro
- O que é gabapentina
A gabapentina é um medicamento genérico apresentado na forma de cápsula dura (300 mg ou 400 mg). Ele atua modulando o trânsito das mensagens entre as células do sistema nervoso. Essa ação tem o efeito de reduzir a atividade excitatória responsável pela dor neuropática e pelas crises convulsivas.
- O que é a pregabalina
A pregabalina é um medicamento que age reduzindo a excitabilidade dos neurônios. Ele é classificado como anticonvulsivante e modulador de dor neuropática.
- O que é a clorpromazina
A clorpromazina é um antipsicótico de baixa potência, que atua como estabilizador e depressor seletivo sobre o sistema nervoso central e periférico.
- O que é sertralina
O sertralina é um antidepressivo inibidor seletivo da recaptação de serotonina. Atua aumentando a serotonina no cérebro, ajudando no humor e na ansiedade.
Leia também: “Toga fora da lei”, artigo de Augusto Nunes publicado na Edição 295 da Revista Oeste





































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