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Política

Ex-chefe da Codevasf tentou obstruir PF, afirma Nunes Marques

As investigações da Operação Overclean apontaram organização criminosa em dois contratos de pavimentação com recursos da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba

Família de Elmar Nascimento vira alvo da PF na 5ª fase da Operação Overclean
Marcelo Moreira, ex-presidente da Codevasf | Foto: Reprodução

Suspeitas de interferência nas investigações da Polícia Federal que envolvem contratos públicos vieram à tona depois de depoimentos sobre condutas de ex-dirigentes da Codevasf. O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Nunes Marques apontou indicativos de tentativa de obstrução por parte do ex-presidente da estatal Marcelo Andrade, em apuração sobre fraudes em obras financiadas por emendas parlamentares em Campo Formoso (BA).

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As investigações, realizadas no âmbito da Operação Overclean, identificaram atuação de uma organização criminosa em dois contratos de pavimentação viabilizados por recursos da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf). Esses projetos beneficiaram a cidade administrada por Elmo Nascimento (União-BA), irmão do deputado federal Elmar Nascimento (União-BA). Elmar foi responsável por indicar Andrade para a presidência da estatal, assim como Miled Cussa Filho para o cargo de superintendente em Juazeiro (BA).

Denúncias e retaliações dentro da Codevasf

Miled Cussa Filho relatou, em entrevista ao UOL e depoimento à PF, que foi demitido depois de denunciar irregularidades que envolvem a empresa Allpha Pavimentações. Segundo ele, Andrade se incomodou com o envio dos ofícios aos órgãos de controle e teria orientado Cussa a procurar Elmar Nascimento, “sem portar celular”, para “restabelecer a confiança” com o deputado e o prefeito Elmo Nascimento.

Em transcrição do depoimento, Cussa disse: “Marcelo Andrade afirmou, de forma ríspida, que o conteúdo do referido ofício era excessivamente severo, que não deveria ter sido redigido daquela forma, que o ofício estava ‘pesado pra caralho'”. O ex-superintendente não seguiu a recomendação de Andrade, nem procurou Elmar ou Elmo Nascimento, e relatou se sentir coagido antes de ser exonerado no início de maio.

Nunes Marques avaliou que, apesar do cargo de superintendente regional permitir livre nomeação e exoneração, a ordem dos fatos sugere retaliação. Para ele, a conduta de Andrade indica uma tentativa de dificultar o avanço da apuração policial. “Nessas circunstâncias, a manutenção do investigado no exercício de suas funções, além de representar risco à dignidade de suas funções, pode comprometer a eficácia da persecução penal diante do receio, fundamentado e concreto, de que possa continuar a se valer de sua posição para interferir na apuração criminal.”

Repercussões políticas e expansão orçamentária

Depois de deixar o comando da Codevasf, Andrade participou da indicação de Lucas Felipe Oliveira, seu aliado, para a presidência da companhia, com apoio do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP). Andrade chegou a planejar assumir um cargo na Odebrecht, mas a Comissão de Ética Pública do governo federal vetou a movimentação por conflito de interesses, impondo quarentena remunerada até dezembro, com salário de R$ 37 mil.

Conversas analisadas pela PF mostram quando Andrade é mencionado pelo vereador Francisco Nascimento (União), primo de Elmar, como “nosso amigo” e “indicação nossa”. Andrade ocupou a presidência da Codevasf de agosto de 2019 até este ano. A Codevasf, criada há 50 anos, tem como missão original apoiar projetos de irrigação, combater a seca e promover o desenvolvimento dos vales do São Francisco e Parnaíba, mas, nos últimos anos, passou a utilizar recursos para compra de máquinas agrícolas e pavimentação, especialmente com fins eleitorais.

O orçamento da estatal aumentou depois da criação das emendas de relator, saltando de R$ 1,2 bilhão em 2019 para R$ 3,3 bilhões em 2022, em valores atualizados, R$ 2 bilhões e R$ 3,6 bilhões. Em 2025, o valor disponível para a Codevasf está em torno de R$ 2 bilhões. A investigação em Campo Formoso teve início depois de o deputado Elmar Nascimento solicitar, em julho de 2022, o envio de R$ 40 milhões em emendas para a cidade, valor destinado a duas obras de pavimentação vencidas pela Allpha Pavimentações, empresa investigada por suspeita de fraude nos processos licitatórios.

Em nota, a Codevasf declarou que segue comprometida com a apuração dos fatos e com a integridade de suas ações, e continuará fornecendo todo o suporte necessário ao trabalho das autoridades policiais e da Justiça.

Leia também: “Togas fora da lei”, artigo de Augusto Nunes publicado na Edição 245 da Revista Oeste

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