Conduta editorial

"A mídia tem o direito de impor a si própria os deveres que entende adequados, mas tem o ônus de responder por suas decisões", observou J.R. Guzzo
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Jornais em meio à pandemia: serviço essencial com demissões e reduções salariais | Foto: DIVULGAÇÃO/CANVA
Jornais em meio à pandemia: serviço essencial com demissões e reduções salariais | Foto: DIVULGAÇÃO/CANVA | imprensa x medida provisória - mp 936 - salários de jornalistas

“A mídia tem o direito de impor a si própria os deveres que entende adequados, mas tem o ônus de responder por suas decisões”, observou J.R. Guzzo

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Um órgão de imprensa não vive nem morre em função do que publica ou deixa de publicar, e sim em função da confiança que os leitores têm ou não têm nele | Foto: Divulgação/Canva
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(J.R. Guzzo, publicado no jornal O Estado de S. Paulo em 27 de dezembro de 2020)

A liberdade de imprensa, como se sabe, não significa apenas que os veículos de comunicação e os jornalistas têm o direito de publicar tudo aquilo que querem — respondendo, naturalmente, pelas consequências do que disseram. Tão importante quanto isso para a liberdade de imprensa é o direito de não se publicar nada daquilo que não se quer. Ninguém pode ser legalmente forçado a ficar em silêncio. Ninguém, da mesma forma, tem a obrigação de falar seja lá o que for.

O começo, o meio e o fim dessa história toda se resume numa noção bastante simples: um órgão de imprensa não vive nem morre em função do que publica ou deixa de publicar, e sim em função da confiança que os leitores têm ou não têm nele. Aí não há Constituição, código de princípios editoriais ou operação de marketing que resolva: ou o público confia ou vai embora sem dizer nada, e, em geral, não volta nunca mais.

Uma das atividades mais antipáticas que se pode exercer neste ofício é a de fiscal de conteúdo. Você sabe o que é isso: a atitude de dizer, o tempo todo, que o veículo tal fez isso ou aquilo de errado, que deveria fazer assim e não deveria ter feito assado etc. Como dito acima, quem resolve essas coisas é o público que paga por elas.

O quanto um veículo de comunicação deve engajar o seu conteúdo nesta ou naquela linha de conduta editorial, ou política, portanto, é problema privativo de cada um. Neste momento, por exemplo, um dos traços mais comuns entre a maioria deles é a ausência de informações que, de maneira direta ou indireta, possam criar dúvidas sobre a necessidade de combater a qualquer custo a epidemia da covid-19. Essa ou aquela notícia pode ser interpretada como uma objeção ao “distanciamento social”, à luta global contra o vírus ou à ação das autoridades legais na gestão da doença? Então não vai ser publicada.

É assim que não se lê nada — ou quase nada, o que acaba dando na mesma — sobre as denúncias internacionais de fraude maciça no combate à covid que envolvem a Organização Mundial de Saúde. Não se menciona que a vacina chinesa a ser distribuída pelo governo do Estado de São Paulo (e paga diretamente com o dinheiro dos seus impostos) não fora autorizada até há pouco por nenhuma agência reguladora de medicamentos do mundo — nenhuma que possa realmente ser levada a sério. Não se publicam, a não ser como coisinhas sem importância, os episódios de corrupção em modo extremo ocorridos nas despesas públicas feitas para lidar com a epidemia. Não se publicam as raras sentenças judiciais contra atos ilegais cometidos pelas autoridades; na verdade, não se publica nada que possa pôr em dúvida a legalidade de qualquer coisa feita pelos “governos locais” — da Lei Seca ao número de pessoas que podem estar presentes na sua casa na ceia de Natal.

Os comunicadores, na verdade, estão viajando num bonde mais ou menos mundial — destinado, em geral, às classes médias altas, à população intelectual-cultural-artística e aos políticos dessa vasta sopa que vai da meia-esquerda em diante, e faz meia-volta na direção dos políticos que neste momento querem parecer “de esquerda”. A covid passou a ser a carteirinha de identificação mais utilizada para as pessoas deixarem evidentes as suas posições políticas e aquilo que supõem ser o seu equipamento ideológico. Usar máscara em público no decorrer de uma reportagem, por exemplo, tornou-se uma espécie de manifesto pessoal: “Uso máscara; logo existo como militante contra o fascismo”.

A imprensa tem o direito de impor a si própria os deveres que entende adequados à sua função. Junto com isso, tem o ônus de responder por suas decisões perante o público.

Leia também: “Jornais brasileiros receberam patrocínio da ditadura chinesa”

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23 comments

  1. Excelentes colocações do Guzzo. Dentre outras coisas, tem gente que usa máscara até para ir ao banheiro, e neste caso específico, a depender do que fizeram ou apoiaram num passado não tão distante, é altamente recomendável!

  2. Perfeito Mestre. Fui assinante do outrora respeitável Estadão, hoje somente um jornaleco a serviço de uma agenda que não é a minha. Quando ele mudou, mudei também

  3. A mídia, em em sua maioria, tal qual bezerro tardiamente desmamado, zurra sua indignação seletiva visivelmente a serviço de interesses nada claros. Semana passada, a Istoé tascou uma manchete dizendo que ” ex mulher de Bolsonaro, Deputada Valéria Bolsonaro foi expulsa do PSL ” Ato contínuo, o Uol/Folha repercutiu a matéria, outorgando-se, sem pestanejar, o título de acefalia editorial, no que foi seguido pelo MSN e outros menos cotados, mas de editorias igualmente despudoradas, naquele patológico despudor a soldo. Um tal de Hélio Schwartsman desejou a morte de Bolsonaro, o freguês da Lei Rouanet Paulo Betti, tão crível quanto um uma nota de três reais, lamentou a imprecisão da facada do Adélio no Bolsonaro, a Globo tascou uma longa reportagem sobre a lambança do porteiro do Condomínio onde Bolsonaro tem casa, mas foi além dizendo que Bolsonaro havia mandado matar Marielli, inventaram a canalhice de que Osmar Terra teria um relacionamento extraconjugal com a Micheli, que o arroz custava mais de dez reais o quilo. Esquecem os vendilhões das próprias letras e almas, que em 04 de fevereiro Bolsonaro decretou o Estado de Emergência, o Uol criticou dizendo que não fora nada confirmado que o Corona vírus já estava por aqui. Aí, governadores e prefeitos fizeram birra para a realização de seus Carnavais, todos com as consequências sabidas. Diante da explosão de casos do Corona vírus e contando com o ativismo das 11 Vestais do STF, ficou resolvido que os gestores do enfrentamento à Pandemia seriam os mandatários dos Estados e Municípios. Com o acelerado número de óbitos, tentou-se virar o jogo, atribuindo a Bolsonaro o ” título ” de genocida. Essa palavra, inclusive, só é usada contra o Presidente na imprensa e plataformas de mídias sociais, mas não contra Dória, Covas, Wilson Lima, Witzel, |Rii Costa, Camilo Santana e outros menos importantes, mas igualmente cúmplices. Como por acaso, passamos a ver que ninguém mais morria de infarto, câncer, insuficiência respiratória, acidentes de trânsito, latrocínios, coisa e tal. Desfeita mais essa trama, mostrando-se dados do Registro Geral dos Cartórios. Aí, segundo a mídia de aluguel, Bolsonaro tacou fogo na Amazônia, matando nossas preciosas girafas, elefantes e rinocerontes. Em seguida, lá foi Bolsonaro queimar o Pantanal. Entre ontem e hoje, Folha/Uol publicaram que queimadas criminosas na Amazônia e Pantanal, com a omissão de Bolsonaro, representam área equivalente a três vezes o Estado do Rio de Janeiro. Tá certo que cobrar honestidade de quem vende a própria opinião, torna-se apenas um ventrículo dos seus $enhore$ a patota cai sempre no ridículo, nesse caso, ofende Dona Matemática. Senão, vejamos A Embrapa e seus meios de aferição atribuem ao BIOMA Amazônia uma área de 5.2 milhões de kms quadrados. Para surpresa de ninguém, diante dos seus cabulosos interesses, o WWF atribui à ” bacia transfronteiriça ” do Bioma Pantanal, área de 624.320 kms2 sendo que o Brasil tem 62%, o que equivale a 387.078 kms2 Em respeito à exatidão de Dona Matemática, a área que foi irremediavelmente perdida por crime de Bolsonaro, do total dos dois Biomas, foram queimadas florestas num volume de 133.959 kms2 Somando os dois Biomas, isso sem contar que na Amazônia pode-se desmatar, por Lei da lavra de FHC, 20% e no Bioma Cerrado, onde pode-se desmatar, também por Lei, 65% Portanto, a própria mídia que ataca Bolsonaro, acaba caindo no esgoto criado por ela mesma, visto que o tal crime responderia por 2,4% de perda dos dois Biomas. É patético! Não percebe, a súcia, que em dois anos de pancadaria os brasileiros isentam Bolsonaro pelos óbitos da Covid 19 conforme própria Folha/Uol mostraram pesquisas, inclusive que Bolsonaro venceria a eleição em qualquer cenário, contra qualquer oponente. Bolsonaro precisa entender que ele é o Presidente de uma nação e não um juiz de rinha de galo. Mesmo diante do destempero verbal de Bolsonaro, a própria mídia sabe que vendeu a seus $enhore$ algo que não vai entregar, e que por via de consequência, caminha para entregar um segundo mandato a seu ” genocida ” preferido. Bem feito!

    1. É mais ou menos isto. O que está faltando também, na minha modesta opinião, é o senso de Justiça. A imposição da regra “dois pesos e duas medidas” é popular e chega ao STF. O Bolsonaro merece críticas também. No entanto, nem na crítica a imprensa acerta.

    2. Boa Lourival. No mesmo nível do craque Guzzo.
      Particularmente apenas deixei a um longo tempo, de referendar a hipocrisia da globolixo, veja e por último Manhattan Coneccion, depois q o Maynard, como tantos outros funcs, foram obrigados a rezar a missa antipatriotica.
      O jornalismo ideológico ñ percebeu, e ficou tarde, q precisam de assinaturas e patrocínios. E q atrás de CNPJ tem CPF.
      Assim é que, comprei produto de quem patrocinou o vídeo, em que me colocaram dentro da casa de Eduardo Paes, junto com o Botafogo celebrando a grande Vitória das ORCRIMS cariocas!
      Eu estava de máscara, não beijei ninguém, ñ tomei no mesmo copo do Botafogo. Só ñ consegui manter a distância regulamentar de 1,5m, por falta de espaço.
      Para saber a verdade, não precisa ouvir Dória ou Luciano Huck.

      1. Caros José Ângelo e Marco Polo, vcs são exageradamente generosos comigo, um homem de poucas letras. O Guzzo, assim como os raros que ainda prezam pelo jornalismo sem máscaras devem ser difundidos à exaustão. De qualquer sorte, obrigado.

    3. Belo texto, prezado Lourival.
      Retratas a realidade e o quanto, os retornados pela Lei da Anistia, prejudicaram o País via doutrinações sistemáticas, covardes e impiedosas na imprensa e nas academias, conforme preconizava Gramsci e determinava Paulo Freire!

  4. Prezado Guzzo. Como sempre, um artigo fantástico. Não obstante , gostaria de sugerir uma pauta – se me permite a ousadia- que para nós leitores será de extrema importância: “A Ciência e a Covid-19″ . Onde pretendo chegar? Pode ser considerada a hipótese de que muitos Governantes mundo afora e aqui dentro optaram- por não terem outra opção- em seguir o quê lhes diziam os cientistas e os especialistas na área( e pelo amor de Deus não estou falando do Dória). Muitos – por força de assessoramento técnico- se valeram das orientações dessas pessoas. É compreensível, pois não havia a quem mais recorrer. Nesse sentir, a até então respeitada OMS começou a ditar as regras. E quem mais poderia fazê-lo? Junto com ela centenas de cientistas mundo afora fizeram coro e aqui dentro não foi diferente, salvo raríssimas e controvertidas exceções. Veja Guzzo, o papel ridículo do Conselho Federal de Medicina. Qual foi? Absolutamente nenhum. Chegou ao ponto de dizer – o CFM – que apenas recomendava isso ou aquilo sem poder de ditar uma regra geral a ser seguida. É isso? É isso que ocorre com as outras doenças? Não. Então o CFM se omitiu por medo. Sim medo. O mundo acadêmico das poderosas Universidades Federais e Particulares que gastam ” zilhões” dos nossos reais em pesquisas cientificas , o quê fez? Nada. Absolutamente nada. Tanto o CFM quanto as Universidades se calaram ou fizeram coro ao que já era dito. Então Guzzo, acredito que a comunidade científica é que deve ser cobrada pelos erros eventualmente cometidos por aqueles que acreditaram na ciência: “não saia de casa, não viaje; não vá a escola; não visite seus familiares; não. não e não. Penso então que essa turma toda deve ser conclamada pela imprensa a falar ao que veio neste momento , deixando a responsabilidade pelos erros a certos apenas para os governantes. Lembro ainda- para finalizar- que diversas sociedades médicas ( Sociedade Brasileira de Infectologia e outras tantas) chegaram ao ponto de apresentar posições diversas deixando por conta dos assustados leitores a decisão sobre quem escolher e em quem acreditar- tarefa difícil para nós leigos.

  5. Hoje eu sai da minha rotina e comecei a comentar em algumas postagens que envolve órgãos de imprensa. Eu sei que não dá para aguentar, mas hoje, tomei um vinho a mais…
    Postei ironias só para ver no que dá. Por exemplo: tem um monte de gente querendo a Vacina Jà e culpa o Ministro da Saúde por não ter iniciado a vacinação. Aí eu aponto que os culpados são os cientistas e funcionários de laboratórios privados ou estatais de fazerem cera e não trabalharem com denodo. Parece que não querem trabalhar, só de preguiça e desejarem mais dinheiro para tanto. Por que não produzem 200 milhões de doses para os brasileiros em 30 dias? E por que não produzem 4 bilhões para o mundo todo em 30 ou 60 dias? Puxa, é tão fácil, por que esta demora? Faltam insumos? Ora, as empresas do ramo são de mercado internacional e é só colocar um anúncio na Globo que precisamos em cinco dias (prazo do STF) milhares de quilos de insumos. E logo aparecem. É fácil.

  6. Excelente, Guzzo. Boa parte da mídia está deixando de lado o interesse dos próprios leitores/assinantes para agradar a sua própria visão de mundo, a sua própria bolha. Isso é um suicídio. Trata-se de uma ação que pode levar à ruína, e já está levando, grandes veículos de comunicação à falência. Vejo muitas pessoas que assinavam O Globo, Folha ou Veja, migrando para um jornalismo realmente sério e comprometido com a análise dos fatos, que é o caso da Revista Oeste e Gazeta do Povo, por exemplo. Os veículos de mídia que fazem oposição digna de militância do PCdoB só vão cair a ficha quando for tarde demais.

  7. Na verdade, querido Guzzo, não se menciona que a vacina chinesa a ser distribuída pelo governo do Estado de São Paulo (e paga diretamente com o dinheiro dos seus impostos) não fora autorizada até há pouco por nenhuma agência reguladora de medicamentos do mundo e NEM NA CHINA ainda foi autorizada!

    1. Perfeito, Guzzo. Antes assinante de veja e o antagonista, leitor assíduo de Globo, uol, etc. , hoje, assinante de Revista Oeste e Gazeta do Povo, cujos textos nos informam os fatos sem cores ideológicas.

  8. As principais mídias podem sim morrer por dizerem (ou omitirem) informações corretas, basta ver que “Cabe ao governo federal outorgar e renovar concessão, permissão e autorização para o serviço de rádio e TV, desde que autorizado pelo Congresso Nacional”

  9. excelente, colocou no papel tudo o que penso sobre a “grande mídia” é por essa razão que sou assinante de primeira hora da Oeste e já comuniquei minha intenção de renovar a assinatura.

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