Gestores da epidemia

"Para garantir o conforto de quem está 'em casa', há sempre um infeliz pendurado no poste ou enfiado embaixo da terra", observou J. R. Guzzo
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Nunca se adotaram medidas de intervenção nas liberdades individuais e públicas mais extremas que as de agora
Nunca se adotaram medidas de intervenção nas liberdades individuais e públicas mais extremas que as de agora | Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

(J. R. Guzzo, artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo em 7 de março de 2021)

Eis aí o Estado de São Paulo de volta à fase de restrições radicais por conta da covid — e é bom ir dando graças a Deus, segundo indicam as “autoridades locais” que receberam do STF a incumbência de gerir a epidemia sem interferências de cima ou dos lados. Como acaba de dizer o gestor-chefe do Alto Comissariado que decide hoje em dia o que o cidadão pode ou não pode fazer na sua vida, a atual “fase vermelha” da quarentena talvez não seja suficiente para satisfazer o grau de paralisia da sociedade que acham satisfatório; já ameaçou com a adoção de uma “fase preta”, na qual querem proibir ainda mais coisas. Quais? Nem eles sabem direito. Só dizem que vai ficar pior.

Permanecem de pé, enquanto eles distribuem as suas ordens, duas questões essenciais. A primeira é: para que tudo isso? Nunca se adotaram medidas de intervenção nas liberdades individuais e públicas mais extremas que as de agora. Ao mesmo tempo, nunca morreu tanta gente — quase 260 mil pessoas, segundo os critérios que definem o que é morte por covid e segundo os últimos números publicados pela imprensa. Obviamente, pela observação objetiva dos fatos que estão à vista de todos, o “fique em casa” não deu certo — se tivesse dado, a quantidade de mortos e de infectados estaria diminuindo, e não aumentando. Tudo o que se diz em defesa do fechamento é a mesma coisa que vem sendo dita desde o começo: seria pior se não fosse assim. Quanto pior? Aí cada um diz o que quer. Haveria 3 milhões de mortos etc. etc. etc. Ou seja: acreditem em mim, façam “home office” e chamem o motoboy para o “delivery”.

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A segunda questão é igualmente simples: depois de um ano inteiro de gestão exclusiva da covid (na prática, as decisões locais não podem ser mudadas por decisões superiores) e de gastarem dezenas de bilhões de reais em dinheiro tirado do público, o que as autoridades que trataram da epidemia têm para mostrar em seu favor? Nesse período o cidadão foi governado por decretos-leis e a Constituição foi sistematicamente desrespeitada. Uma recessão que fez a economia recuar mais 4% em 2020 destruiu empregos, liquidou empresas e arruinou a vida de milhões de brasileiros. Num país desesperadamente atrasado na educação de suas crianças e jovens, a maioria das escolas está fechada há um ano. Em troca de tudo isso, o que se tem são 260 mil mortos e a constatação de que o sistema público de hospitais está em colapso — segundo os próprios responsáveis diretos pelo seu funcionamento.

As coisas estão assim, dizem eles, porque o número de casos aumentou demais. Mas não é justamente para isso, para resolver emergências extremas, que receberam esses poderes todos e estão aí fazendo o que bem entendem desde março de 2020? Não foi para tratar exclusivamente da covid que Estados e municípios receberam, ao longo deste último ano, R$ 35 bilhões em verbas federais? Com esse dinheiro o Brasil poderia ter hoje 250 mil leitos de UTI; tem menos de um terço disso. Quando apresentados a qualquer desses fatos, os comissários da covid ficam impacientes: dizem que é tudo “negacionismo” e encerram a conversa. Não muda nada — o fracasso continua do mesmo tamanho, e daí eles dobram a aposta.

O fato é que os gestores da epidemia não sofrem as consequências das decisões que tomam. Nenhum deles perdeu o emprego até hoje, nem renda, nem fez cinco minutos numa fila de ônibus, nem passou um dia inteiro sem café da manhã, almoço e janta. Ninguém ficou sem elevador, luz elétrica e água quente — para isso, garantindo o conforto de quem está “em casa”, há sempre um infeliz pendurado no poste ou enfiado embaixo da terra. Eles que se aglomerem.

Leia também: “O novo totalitarismo”, reportagem publicada na Edição 50 da Revista Oeste

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8 comentários

  1. A guerra eleitoral pra 2022 já começou. Se intensificou agora com a anulação da condenação do Lula. A Covid é a ferramenta perfeita pra imprensa e políticos infernizarem as nossas vidas até outubro/2022.

  2. E nunca o transporte público foi tão ruim. Quem não pode fazer home office e deveria ter bastante opção de transporte pra evitar aglomeração a essa altura já entregou a vida pra Deus. Quem quiser ter a experiência, entre num metrô ou trem no horário do rush mesmo com restrição, mesmo com home office, mesmo com muitos desempregados. Simplesmente porque governantes incompetentes reduziram ou permitiram que se reduzissem a frota de transporte público. Tem ônibus que nem circula mais. Mas como o Fiuza disse ironicamente, o covid não gosta de ônibus então não tem problema.

  3. Boa noite caro J. R. Guzzo, quando era jovem lembro de assistir o Jornal Nacional junto com minha mãe e meu irmão após o jantar. Hoje na minha casa li seu artigo em voz alta durante o jantar, ao terminar essas foram as expressões:
    – É isso aí, essa é a verdade. Isso me representa! ( minha esposa )
    – O nosso Brasil é uma brincadeira de mal gosto! ( minha filha – 19 anos)
    – O covid é uma bosta né pai! ( meu filho – 05 anos )
    Obrigado pelos textos claros e tão representativos, vc é um excelente jornalista e um dos grandes motivos para eu assinar a revista.

  4. Teus comentários estão bons. No entanto, aqui no RS e SC apareceram problemas sérios. Se aumentar os leitos de UTI não tem profissionais para atuarem. Faltam recursos humanos em quase todos os hospitais do Estado. Em alguns (mais de 20) está faltando oxigênio e não deu escândalo e repercussão na imprensa como aconteceu em Manaus. O governador e prefeitos estão emitindo SOS para convocar e contratar médicos, enfermeiros e outros profissionais da área, inclusive fisioterapeutas. Receberam dinheiro e estão com planos de comprar vacinas em consórcio entre prefeituras, mas o problema que enfrentaram não é a compra e sim a entrega pelos laboratórios. Tem dinheiro, tem contratos e contatos, mas não existe confirmação de entrega de equipamentos e vacinas no curto ou médio prazo. É mais complicado o assunto do que o tema abordado nesta coluna.

  5. A solução está aí. Não sou eu que digo, mas o renomado jornalista Alexandre Garcia, que fez hoje uma comparação entre Índia, Brasil e Reino Unido nas questões da covid, demonstrando claramente que aquele remedinho barato contra piolho FAZ SIM A DIFERENÇA!!!!

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