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Política

Lembrar é resistir: 2 anos da morte de Clezão

'A omissão judicial não foi um ato isolado. Ela se insere num discurso recorrentemente radical e em despachos de ódio'

Clezão
Preso em decorrência das manifestações ocorridas em 8 de janeiro de 2023, o comerciante Cleriston da Cunha, o Clezão, morreu na prisão | Foto: Reprodução/X/@karinamichelin

Milan Kundera escreveu que “a luta do homem contra o poder é a luta da memória contra o esquecimento”. E eis que, no último feriado da chamada “consciência negra”, completaram-se dois anos da morte de Cleriston Pereira da Silva, o Clezão — dois anos de silêncio, esquecimento e covardia institucional. “Não temos resposta de nada” — disse a viúva Edjane Cunha a Oeste, numa síntese lancinante do regime luloalexandrino.

Caso fosse um homem de esquerda, Clezão teria sido imediatamente canonizado nas liturgias oficiais como um “negro” abatido pela opressão estatal. No feriado em questão, teríamos marchas, panfletos, hashtags, documentários, verbas públicas para a memória da vítima e discursos inflamados denunciando o racismo estrutural. Mas, como ousou ser um mestiço de direita — essa anomalia zoológica para os olhos da elite iluminada —, foi-lhe negado até o direito elementar à lembrança.

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No dia 20 de novembro de 2023, Clezão morreu na Penitenciária da Papuda, aos 46 anos, depois de sofrer um mal súbito enquanto tomava banho de sol — mesmo com laudos médicos apresentando seu frágil estado de saúde. Dois meses antes de sua morte, a Procuradoria-Geral da República (PGR) havia emitido parecer favorável à sua liberdade, reconhecendo suas comorbidades. No entanto, Alexandre de Moraes — relator do processo — jamais analisou o pedido, apesar da insistência da defesa.

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No dia seguinte à morte de Clezão, enquanto a família o enterrava, o Descondenado-em-chefe condecorava Moraes com a Ordem do Rio Branco — em uma cerimônia de congraçamento típica de regimes totalitários, que distribuem honrarias não por mérito, mas em função de utilidade ao poder. A enlutada família de Clezão clamava por respostas e reparação, mas nada veio do Estado brasileiro senão o deboche.

Omissão do Estado no caso Clezão

A advogada Carolina Seabra, que representa a família de Clezão, explicou por que a família decidiu participar do ato na capital fluminense | Foto: Igor Villas Bôas/Revista Oeste
A advogada Carolina Seabra, que representa a família de Clezão, conversa com a repórter Isabela Jordão | Foto: Igor Villas Bôas/Revista Oeste

A omissão judicial não foi um ato isolado. Ela se insere num discurso recorrentemente radical e em despachos de ódio. Referindo-se a cidadãos brasileiro de direita, por exemplo, Moraes já declarou que “a internet deu voz aos imbecis”; defendeu combater o “populismo de extrema direita” e exaltou um jornalismo domesticado. Em dezembro de 2022, chegou a declarar: “ainda tem muita gente para prender e muita multa para aplicar”, frase que se materializou depois dos eventos de janeiro. Dois dias depois dos protestos, chamou os presos políticos de “terroristas” e zombou das denúncias de maus-tratos no cárcere. “Até domingo faziam baderna. Agora reclamam porque estão presos, querendo que a prisão seja uma colônia de férias” — assim o chefe da polícia política do regime referiu-se aos manifestantes do 8 de janeiro.

“Pois bem: Alexandre de Moraes teve a ‘virtude cívica’ de combater a ‘extrema-direita’ e derrotar Clezão. A medalha, para os padrões da casa, foi mais que merecida”

Que “virtudes cívicas” teriam, portanto, justificado a condecoração de Moraes? No juízo do mandatário brasileiro, que já manifestou o desejo de extirpar opositores por ele referidos como “animais selvagens”, a resposta não é difícil de imaginar. A única virtude cívica reconhecida pelo regime brasileiro — conduzido por aquilo que o psiquiatra polonês Andrzej Łobaczewski chamou de “psicopatas no poder” — é a de “combater a extrema-direita” e “derrotar o bolsonarismo”. Pois bem: Alexandre de Moraes teve a “virtude cívica” de combater a “extrema-direita” e derrotar Clezão. A medalha, para os padrões da casa, foi mais que merecida.

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Desde o começo, a defesa de Clezão havia apresentado laudos médicos alarmantes: perda de 20 kg, uso de cadeira de rodas, risco de morte súbita — e um sistema penitenciário sem estrutura médica adequada para atendê-lo. Em várias ocasiões, a defesa renovou pedidos para prisão domiciliar. A PGR recomendou a liberdade, mas Moraes permaneceu inerte por mais de 80 dias, até a data fatídica em que tudo terminou em tragédia anunciada.

Ao contrário do que afirma seu algoz, Clezão não buscava privilégios. Não queria uma “colônia de férias”, mas apenas um tratamento médico digno. Era trabalhador, pai, mantinha um pequeno comércio e sempre defendeu sua inocência. Acabou sendo torturado pela burocracia, ignorado na sua última enfermidade e, por fim, morto pelo Estado.

Na entrevista concedida a Oeste, Edjane Cunha diz acreditar na justiça divina. Enquanto o poder ignominioso tenta condenar seu marido ao silêncio, ela precisa manter de pé uma família dilacerada pela injustiça, vivendo na esperança de que a memória de Clezão se imponha contra o esquecimento. Que assim seja, e que, na Eternidade, Deus conceda a Clezão a justiça que os homens lhe negaram.

Leia também: “Um momento macabro na história recente do Brasil”, artigo de Ana Paula Henkel publicado na Edição 260 da Revista Oeste

1 comentário
  1. Joaz Santana Praxedes
    Joaz Santana Praxedes

    Não posso deixar um texto como esse sem comentário positivo.

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