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Política

Por que está tão caro comer no Brasil?

Com os alimentos liderando a inflação, vídeos gravados dentro de supermercados viralizam nas redes sociais às vésperas das eleições

alimentos inflação supermercado
População sente o aumento dos preços dos alimentos no mercado e denuncia nas redes sociais | Foto: Agência Brasil

Confira o resumo que a OESTE.IA, a IA da Revista Oeste, fez pra você

Um vídeo de uma dona de casa indignada com os altos preços da carne, que ultrapassam R$ 250, viralizou nas redes sociais, refletindo a preocupação de muitos consumidores com a inflação e a dificuldade de sustentar uma família com um salário mínimo. Relatos semelhantes surgiram em supermercados, enquanto perfis como o "Minha Inflação" mostram aumentos significativos nos preços de alimentos.

“Isso aqui de carne, R$ 250”, relata, indignada, uma dona de casa em um vídeo que ultrapassou 100 mil visualizações apenas em um perfil da rede X. “Agora eu te pergunto: uma família que ganha um salário mínimo, que paga aluguel, que tem filho, como é que vai sobreviver? Gente, o povo tá trabalhando só pra comer porque a gente está deixando nosso dinheiro só no mercado. E você vem me dizer que o Brasil está melhor?”

O vídeo é apenas um entre dezenas que passaram a circular nas últimas semanas nas redes sociais. Em comum, todos mostram consumidores surpresos com os preços encontrados nas prateleiras dos supermercados e a dificuldade de manter a alimentação da família.

Em outra gravação que também viralizou, um homem registra o setor de carnes de um supermercado e questiona os preços. “Estou aqui no supermercado Assaí, olha o preço da carne”, disse. “Será que tem condições de viver num país desse? Uma peça de picanha dá mais de R$ 200. Será que dá pro trabalhador viver? Tem condições do trabalhador comprar isso aqui?”

Além dos relatos gravados dentro dos supermercados, surgiram perfis dedicados a comparar os preços dos alimentos ao longo dos últimos anos. Um deles é o Minha Inflação, que mostra a evolução dos valores cobrados em 2023 e em 2026.

Governo Lula minimiza situação

As publicações passaram a ser compartilhadas pelo pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL), que atribui a alta dos preços ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Lula, por sua vez, tem adotado um discurso diferente. Durante a Cúpula do Mercosul, realizada na terça-feira 30, afirmou que “o Brasil vive o seu melhor momento econômico” depois de quatro anos de mandato.

Leia também: “Nikolas ironiza fala de Lula de que o Brasil vive o melhor momento econômico”

Em abril deste ano, porém, o próprio presidente reconheceu preocupação com o avanço dos preços. Em entrevista à TV Record Bahia, no dia 2 de abril, atribuiu o problema à guerra no Oriente Médio. “Nós estamos fazendo todo o esforço possível para não permitir que a guerra irresponsável no Irã chegue ao bolso do povo que vai comprar seu alface, que vai comprar seu feijão, arroz, milho, vai comprar a comida do seu filho.”

O aumento do preço internacional do petróleo, de fato, encarece combustíveis e fretes, pressionando o custo dos alimentos e das bebidas. Fatores climáticos, como a previsão de um Super El Niño, também afetam a produção agrícola e influenciam os preços. Esses fatores, contudo, não explicam sozinhos a inflação dos alimentos. A política econômica do governo, marcada pelo aumento de tributos e da expansão dos gastos públicos, também contribui para pressionar a inflação e manter os juros elevados.

A inflação dos alimentos

A inflação oficial do país ficou em 0,58% em maio, desacelerando em relação aos 0,67% registrados em abril. Apesar do alívio no índice geral, os alimentos seguiram como principal foco de pressão para o consumidor. O grupo Alimentação e Bebidas avançou 1,33% no mês, respondendo pela maior contribuição para o resultado do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), divulgado em 12 de junho.

A alimentação no domicílio, porém, registrou variação ainda maior: de 1,65%. Entre os produtos que mais pesaram na inflação estiveram itens in natura e alimentos básicos, como batata inglesa, tomate, cebola e carnes. 

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Desde 2020, quando o Brasil ainda sofria com a Covid-19, a inflação brasileira começou a contas duas histórias diferentes. A primeira é a do índice geral de preços, que avançou de 100 para 143,3 até junho de 2026. A segunda, por outro lado, é a dos alimentos consumidos dentro de casa, que subiram de 100 para 167,5 no mesmo período.

Ou seja, enquanto o IPCA acumulou alta de 43,3%, a alimentação no domicílio avançou 67,5%. A diferença é de 24,2 pontos percentuais, o que mostra que a comida ficou muito mais cara do que a inflação média sentida pela economia.

Esse movimento tem um impacto direto sobre o orçamento das famílias. Ao contrário de outras despesas, a alimentação não pode ser adiada nem parcelada. Todos os dias, milhões de brasileiros precisam comprar arroz, feijão, pão, legumes, frutas e carnes. Quando esses produtos sobem acima da renda, o poder de compra diminui. O impacto é ainda maior entre os brasileiros de menor renda, que destinam uma parcela maior dos ganhos à alimentação.

A política econômica de Lula

O aumento do preço do petróleo, os custos do frete e os efeitos do clima sobre a produção agrícola ajudam a explicar parte da alta dos alimentos. Para o Banco Central e economistas, porém, a política econômica do governo também exerce pressão sobre a inflação.

No Relatório de Política Monetária do segundo trimestre de 2026, divulgado na quinta-feira 25, o Banco Central alertou que as medidas de estímulo econômico adotadas pelo governo podem dificultar o controle dos preços. A autoridade monetária vê com desconfiança o conjunto de ações anunciadas pelo Palácio do Planalto, apelidado por analistas de “pacote de bondades” de Lula.

Segundo cálculos do economista Marcos Mendes, do Insper, as medidas anunciadas pelo governo neste ano somam R$ 215 bilhões em estímulos à economia, o equivalente a 1,6% do Produto Interno Bruto (PIB). Desse total, R$ 97 bilhões, ou 45%, correspondem a despesas financeiras, concentradas principalmente em linhas de crédito subsidiado.

Leia também: “Banco Central projeta inflação acima da meta até o fim do ano”

Na avaliação do BC, iniciativas desse tipo ampliam a demanda por bens e serviços justamente em um momento em que a economia opera com baixa ociosidade. Nessa situação, a produção encontra dificuldades para acompanhar o aumento do consumo, o que tende a pressionar os preços.

Banco Central vê risco de pressão inflacionária

“Medidas e ações governamentais anunciadas recentemente podem gerar estímulos adicionais à demanda agregada, em um contexto de baixa ociosidade dos fatores de produção”, afirma o Banco Central no documento.

A autoridade monetária considera esse movimento um dos fatores de risco para a inflação nos próximos meses. A prévia do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA-15) acumula alta de 4,80% em 12 meses, acima do teto da meta de inflação de 3% estabelecida para este ano.

Enquanto o Banco Central tenta conter a inflação por meio de juros elevados, o governo federal tem anunciado medidas de olho nas eleições de outubro. Entre elas, estão a renegociação de dívidas, a ampliação do programa Minha Casa Minha Vida e a expansão do crédito para a compra de veículos.

O economista Alexandre Manoel, da Global Intelligence and Analytics, afirmou ao Valor Econômico que as iniciativas caminham na direção oposta à política monetária. “O governo tem tomado uma série de medidas que parecem voltadas primordialmente a elevar a popularidade do presidente, mas que têm custo fiscal relevante e alavancam a demanda doméstica, na contramão do que busca fazer a política monetária”, disse.

Segundo ele, esse movimento “mantém a economia operando com juros reais elevados, o que desestimula o investimento e complica a vida de quem tomou recursos emprestados, tanto pessoas físicas como empresas e o próprio governo, também por aí piorando o quadro fiscal”.

O efeito dessas medidas pode produzir uma sensação de melhora da atividade econômica no curto prazo. Em contrapartida, o aumento dos gastos públicos e dos estímulos ao consumo tende a elevar a pressão inflacionária, manter os juros elevados, reduzir o investimento das empresas e piorar o ambiente de negócios. Esses fatores também elevam os custos de produção, transporte e abastecimento, contribuindo para o encarecimento dos alimentos.

Reduflação: quando a embalagem encolhe

Em um cenário de inflação persistente, outra estratégia tem chamado a atenção dos consumidores: a reduflação. O termo resulta da combinação entre redução e inflação e descreve uma prática em que o preço do produto permanece praticamente o mesmo, mas a quantidade oferecida diminui.

Na prática, a dúzia de ovos dá lugar a uma bandeja com dez unidades, barras de chocolate ficam menores e embalagens de sabão deixam de ter um quilo para passar a 800 gramas. Para o consumidor, o efeito é semelhante ao da alta dos preços. O valor pago nas compras do mês pode até permanecer próximo do habitual, mas a quantidade de produtos levada para casa é menor.

Além disso, a reduflação também ocorre quando fabricantes reduzem custos de produção ao substituir ingredientes por versões mais baratas. É o caso de produtos que deixam de ser leite condensado e passam a ser classificados como composto lácteo ou de bebidas comercializadas como “sabor café”, em substituição ao produto tradicional.

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